Inês Simas, a craque do Benfica à conquista do sonho: “Gostava mesmo que o futebol fosse a minha vida”

Em entrevista ao DL, a jovem lagoense de 16 anos faz o balanço da primeira época no futebol feminino do Benfica. Deixou para trás a terra e a família para procurar fazer do futebol a sua vida

Inês rumou a Lisboa em 2020 em busca do seu sonho © BEATRIZ OLIVEIRA

Em agosto de 2020, o Diário da Lagoa contava a história da jovem craque lagoense que estava a dias de partir para Lisboa para jogar no Benfica. “Inês Simas: 15 anos, sete internacionalizações e o Benfica aos pés”. Pouco mais de um ano depois, a história continua a ser gloriosa: Inês Simas cumpriu a sua primeira época com a camisola ‘encarnada’ e continua focada em fazer do futebol a sua carreira.

Agora tem 16 anos, está no 11º. ano no curso de Ciências e Tecnologias e teve de se mudar para Lisboa. As internacionalizações pelos escalões da seleção nacional passaram para 11. Feita a primeira época, Inês Simas já aponta para o futuro e ao objetivo de cumprir um jogo na equipa A do Benfica.

Entretanto, já se tornou uma peça fundamental da equipa B, que subiu de divisão na primeira época em que Inês lá jogou. A equipa B serve como base para as jovens crescerem. A açoriana é das mais novas do grupo – a média de idades do plantel é de 17,14 – mas isso não lhe retira a ambição.

O percurso tem sido feito à custa do esforço de uma jovem que saiu aos 15 anos da sua terra em busca de conquistar o seu sonho. Os pais sempre a apoiaram. Nesse caso, a influência familiar ajudou a determinar o trajeto de Inês.
Diz o povo que filho de peixe sabe nadar. No caso da família Simas, o ecossistema é bem maior. O pai, Vitor Simas, é uma figura conhecida do desporto açoriano. Além de ser professor de educação física na Escola Secundária de Lagoa, foi jogador e treinador de futebol, uma personalidade ligada ao Clube Operário Desportivo e um elo fundamental na fundação da Escola de Futebol Pauleta. A irmã mais velha, Simone, está nos Estados Unidos a tentar seguir uma carreira no ténis.

Foi neste contexto, com o desporto a marcar o quotidiano familiar, que Inês começou a jogar futebol aos cinco anos de idade na Escola de Futebol Pauleta. De pequenino é que se torce o pepino. E continuou com o símbolo do ‘Pauleta’ até começar a despertar as atenções do mundo do futebol. Foi chamada à seleção nacional e teve ofertas de Sporting e de Benfica. Avaliadas as condições de um e de outro, decidiu-se pela equipa da Luz, numa altura em que reconheceu que não esperava sair tão cedo da ilha.

Mas saiu. Saiu para aproveitar a oportunidade e rumo a um sonho que vai ganhando força, dia após dia, treino após treino, jogo após jogo. Vontade não lhe falta. Inês mantém-se focada nos seus objetivos, sem nunca descurar os estudos.

Agora, em entrevista ao Diário da Lagoa faz o balanço da primeira época e projeta o futuro. Estimados leitores, a entrevista segue dentro de momentos:

DL: Como é que tem sido a experiência na equipa feminina do Benfica?
A experiência tem sido muito boa, extremamente positiva. É um trabalho diferente, só com raparigas, o que não estava habituada. Tem sido um grande desafio, mas também tem sido uma experiência muito boa. Tenho aprendido e evoluído imenso.

DL: Correspondeu às tuas expetativas?
IS: Sim, correspondeu totalmente. Confesso que não estava à espera que existisse tanta qualidade numa equipa só, como é o nosso caso, e mesmo no próprio campeonato. O campeonato tem muita qualidade. Não estava à espera que fosse tão difícil e tão exigente, mas isso também é importante para mim e para o próprio desporto.

DL: Que balanço fazes da primeira época?
Foi muito bom. Joguei quase todos os jogos e conseguimos atingir o nosso grande objetivo que era conseguir chegar à segunda divisão. Quando cheguei, estávamos na terceira e conseguimos subir logo nessa época, o que era o nosso primeiro objetivo. Portanto, o objetivo foi cumprido e isso foi muito bom.

DL: Vocês também procuram acabar com a ideia de que o futebol é um desporto de homens?
Sim, realmente isso não é nada verdade. Nem faz sentido. O futebol feminino está a crescer de uma maneira incrível e já se vêm imensas raparigas a jogar e com muita qualidade. Por isso, acho que o futebol feminino ainda tem muito para crescer, mas já está a chegar a níveis que ninguém esperava. Acredito mesmo que no futuro o futebol feminino vai agarrar a muito mais gente.

DL: Pessoalmente para ti, como foi a adaptação a um novo clube e a uma nova cidade?
O primeiro ano foi muito, muito difícil, quer para mim, quer para os meus pais. Era uma realidade nova, mas a pouco e pouco fui-me conseguindo ir adaptando. Tive de me adaptar a uma vida diferente e à própria cidade, a Lisboa, que é completamente diferente da nossa ilha. Mas pronto: agora estou mais adaptada e já o dia a dia.

DL: Que objetivos tens para esta época?
Para esta época [2021/22] o objetivo é fazermos o melhor possível no campeonato da segunda divisão. Pela seleção, é conseguirmos chegar ao campeonato da Europa. Temos essa meta.
Individualmente gostava muito, muito de fazer um jogo na equipa A nesta época ou nas próximas épocas. Principalmente na próxima época: aí vai ser realmente um objetivo, o de fazer um jogo na equipa A. Para já, estou concentrada na equipa B para ver se conseguirmos chegar à fase de campeão, fazermos o melhor possível e continuar a evoluir.

DL: Como é que concilias os estudos com o desporto?
Não é fácil, nada mesmo. Falto muito às aulas, tem de ser, principalmente com a seleção [risos]. Mas agora vou ingressar numa escola nova que me vai permitir ter uma maior facilidade em conjugar o futebol e as aulas.

DL: Como é a tua rotina?
Tenho aulas de manhã e às vezes à tarde. Tenho ginásio duas vezes por semana e quatro treinos por semana. Normalmente folgamos à quarta e temos jogo ou na quarta ou ao domingo. Tenho mesmo uns dias preenchidos.

DL: Como olhas para o futuro?
Não sei. Gostava mesmo que o futebol fosse a minha vida. Tenho sempre o estudo por detrás e vou continuar a estudar para ter esta segunda opção. Tenho a noção de que é importante manter os estudos, mas gostava realmente que o futebol fosse a carreira a seguir. É para isso que vou continuar a trabalhar.

DL: De que forma é que o teu contexto familiar influenciou este teu percurso?
A minha família é muito ligada ao desporto, sempre foi. É daí que também vem o meu gosto pelo futebol. E em casa também damos muita importância ao estudo. Acho que tudo isso foi fundamental para aquilo que sou hoje. Isto porque a minha maneira de ser e a minha maneira de encarar as coisas vem muito de casa. Eu acho que isso se aprende com os pais e por isso devo muito a eles e à educação que me deram.

Rui Pedro Paiva

Entrevista publicada na edição impressa de novembro de 2021

Categorias: Entrevista

Deixe o seu comentário