Lá qu´tamanhas!… Era assim antigamente!

Roberto Medeiros

Histórias da minha Infância em Água de Pau contadas com as nossas falas da rua do mesmo tempo, há mais de 50 anos!

© DR

O sótão da minha casa tinha uma janela que dava para a janela do sótão do meu amigo Antero e às vezes empoleirávamo-nos nelas para combinar tarefas e brincadeiras para o dia seguinte.
Ainda eu andava de calça curta e já corria as ruas da minha terra com os meus amigos para brincar. Um dia fomos, eu e o Antero “à-bola”, lá pás bandas do Paul, na nossa Água de Pau. Assim c’mássim a gente não pagava para entrar. A gente érim, tã pequininos que nim d’á-vim p’la-gente a escapulir pelo portão do campo de jogos.
O jogo ainda n’ávia co’mçado!
A tia Rosalina Subica estava a entrar com as suas canastras com favas, amendoins, rab’çados e tramoço e eu e o Antero, ajudamos a senhora a descer as escadas segurando as canastras de vime, bem cheias “de-caqu’ulo”! Tavam pesadas c’má merda!
O Carlins Birôma, vinha com a gente, mas desenfiou-se assim que viu trabalho na frente! Tamém não lhe deixárim entrá no campo de jogos. Mas, ele fou-derroda p’la canadinha do c’mitério e c’uando távim todos qu’olho numa finta do Vidinha, já o jogo decorria, o Birôma, saltou para dentro do campo.
A gente, fou-se-sentá atrás da baliza do Luís Francisco, o guarda-redes do Santiago, para ver as suas defesas. Ele dava cada margulho páquele chão, que era de tremer ! Mas ele ag’uentava tude! Nim um golo ele levava! D’ziam até que s’ele bebesse um copo de vinho de cheiro da Caloura, antes de começá o jogo…ainda defendia melhó!
O jogo era entre o Santiago d’Água de Pau e os Amarelos de S. Roque. Dava sempre em pancadaria! Nunca acabava bem! Eles tinham cada bruto labrego, mas a gente não tinha medo deles. Era o Amaral ou o Júlio quem lhes tratava da saúde.
O Júlio jogava à defesa e assim que o Mestre José Leste, o dono* da bola, gritasse:
– “Júúllliio, passa a bola, mas não passa o homem ! Ouviste? – Dááá-lhe !!!”
A gente tremia de emoção com estas cousas. Ouviam-se gritos por todo o campo e o Polícia, o senhor José Luís Louro, espumava de génio, olhando de lés-a-lés para quem se ia atirar primeiro.
Então, de repente, ouviu-se:
-“P’láááh !!”
Lá se tinha quebrado uma das vedações mal-feitas de varas de criptoméria que rodeavam o campo de jogos. Alguém se excitara demais e levara uma vara consigo à frente, enervado com uma grande canelada que o Júlio dera num dos Amarelos de S. Roque. Um dos “Amarelos” dirigia-se para a baliza e poderia fazer golo-certo, já se sabe! Não chegara a entrar na grande-área, porque o Júlio fizera o que o seu presidente, José Leste, lhe pedira. Pregou-lhe nas canelas!!
-“É pênalte!” – gritou o avançado dos Amarelos de S. Roque, levantando-se com a canela direita cheia de sangue.
-“Tu qués pênalte é nos focins!”
– recorda o Eduardo Capito, outro defesa do Santiago.
Nisso, o polícia dirige-se em passadas largas para o monte de homens a assistir ao jogo, onde tinha sido destruída a vedação do campo.
– “ LÁ QU’TAMANHAS! O Polícia vem aí!” — disse um deles ao que tinha partido a vedação! Mal sabia este também o que lhe esperava!
Acão imediata; “Louro”, o polícia, fulo de raiva, chegando junto do monte de gente, desaba o cá-cetete em todos, sem dó nem piedade, e, só depois pergunta:
– “Quem foi que partiu a vedação? Quem fou, quem fou ?!?!“- gritou-lhes.
Ouviu-se várias vozes em sintonia:
– “Não-fui-eu, não-fui-eu senhor guarda!” .
– “Isso não m’interessa! Quero saber é..quim fou?” – gritou!
-“Lá-vá-i-ele! Lá-vá-i-ele ! …s’nhô guarda!” – Apontaram ao o Birôma fugindo em direção ao muro esborralhado da quinta da tia “Ingelina do José Ináço da Praça”, por onde o Birôma tinha entrado também para o campo de jogos, sem pagar.
O polícia ainda experimentou um sinal de arranque … mas desistiu da perseguição. O rapaz era muito ligeiro para conseguir apanhá-lo e virando-se para os outros disse-lhes:
-“Amanhem lá isso outra vez ou eu arrebento com vassês-todos, tamos intendidos? “
– “Sim-s’nhô sô guarda ! A gente vai amanhá isso!” – Responderam todos, numa cantilena, cheios de medo. E assim foi.
Enquanto isso, o Vidinha tinha marcado um golo a passe de génio de Veber Mateus para o Almeidinha que, em corrida pela linha lateral direita assistira Teófilo Vidinha que em habilidade e mesmo de fora da área, fez um golão de se tirar o chapéu! Santiago à frente do marcador…!
O resto do jogo, já não interessa, mas ainda me recordo que a gente, eu e o Antero, fomos comprar amendoins à tia Rosalina Subica e no caminho o Antero chamou-me a atenção para uma rapariga bonita que estava em cima de um palanquim «pequinino» sobre-elevado, com uma faixa que vinha do lado esquerdo do pescoço à sua anca direita, destacando-se de toda a gente.
– “Ela é a Rainha do Santiago”, disse-me o Antero. “No ano passado foi a irmã do Birôma, a Lurdes Bengala”, continuou.
– “Aquela não costuma ir para a tua casa?”, perguntei eu ao Antero.
-“Sim, é a Joana Esquita, vai para lá ler «caprichos» que imprestam à minha mãe!”, completa o Antero.
Acabou-se o jogo e ainda melhor com uma vitória do Santiago, apesar de tanto desacato, porrada e brigas de abrir-chão, que acabaram com o polícia José Luís Louro a «marg’lhar» a cabeça dentro do tanque da água a um adepto dos Amarelos de S. Roque.
Aquele policia não era para brincadeira ninuma! Carédim-Cruz! Santo nome de Jasus!
A gente partiu para outra, eu e o meu amigo Antero…
”Eh vamos ás «mócnas» no teu quintal do Pico? “ – “Vamos a elas!” – Respondi eu… E lá fomos!

(Crónica publicada na edição impressa de março de 2021)

Categorias: Opinião

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