Lagoa 500 anos: Cristina Calisto orgulhosa da “forma como a população em todos os tempos soube agarrar as oportunidades”

Nos 500 anos desde a elevação a vila, “a Lagoa sempre esteve na linha da frente nos vários momentos da história”, com um percurso pautado pela pesca, pela industrialização e pela inovação tecnológica

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Passaram-se 500 anos desde a elevação da Lagoa a vila e sede de concelho, 10 desde que se tornou cidade.

Cinco séculos fazem-se de mudanças, e “a Lagoa sempre esteve na linha da frente nos vários momentos da História”, destaca a presidente da Câmara Municipal, Cristina Calisto.

A historiadora Susana Goulart Costa confirma essa afirmação ao Diário da Lagoa, dizendo que, “desde o início, a Lagoa teve um papel bastante importante no desenvolvimento social e económico da ilha de São Miguel”.

Apesar de ser “um território relativamente pequeno, do ponto de vista da geografia”, tem “algumas características que fizeram, de certa forma, salientar e justificar a criação do município em 1522”.

Um deles é “a aproximação à costa, com o Porto dos Carneiros e a antiga Lagoa de Santa Cruz”, que facilitam a acessibilidade.

“Por outro lado, a zona da Lagoa, como se localizava a meio trajeto entre Ponta Delgada e Vila Franca do Campo, e Vila Franca era, no século XV e até inícios de século XVI, o centro político da ilha, (…) desde muito cedo foi um ponto de passagem, mas também de permanência”.

O desenvolvimento da atividade piscatória e, a partir do século XVIII, também o da industrialização, com as cerâmicas e a fábrica do álcool, marcaram o território.

“Na Lagoa, esse setor secundário vai ter bastante importância e é uma marca identitária até hoje. O clube desportivo chama-se Operário, há bairros de caráter industrial”, exemplifica a historiadora.

Essa ligação às indústrias “permanece hoje com a ligação atualmente às novas tecnologias, através do [Parque de Ciência e Tecnologia] Nonagon”.

“Significa que a Lagoa tem este traço histórico até hoje, foi sempre uma zona na ilha muito aberta e acolhedora das novas tecnologias, fossem as industriais, no século XIX, sejam agora as novas tecnologias de comunicação e novo desenvolvimento industrial. A Lagoa sempre foi muito versátil, muito dinâmica e muito aberta às novas experiências que a evolução científica ia trazendo até aos Açores”, realça.

Do ponto de vista cultural, destacam-se a cerâmica e os bonecreiros, mas também os cabouqueiros, que “tinham a arte de trabalhar a pedra e dar-lhe novos usos em construções domésticas e industriais, empresariais”.

Muita da dinâmica cultural do concelho foi também ditada pelo Convento dos Frades, onde ficava a Biblioteca da Lagoa.

Inaugurado no século XVII, este convento foi “muito importante para a dinâmica cultural da Lagoa, não só do ponto de vista da música, porque tinha uma pequena escola e ensinava música não só aos frades mas também à população de jovens que queria aprender, mas também na educação primária”.

“Acabavam por ter um papel de educadores, numa altura em que não havia propriamente escolas primárias e a taxa de analfabetismo era muitíssimo elevada”.

Os franciscanos foram também “fundamentais para a dinamização do que ainda temos hoje em São Miguel, os presépios de lapinha”.

Em termos económicos, a Lagoa sempre teve “eixos de pobreza acentuados, por um lado, mas, por outro lado, bolsas de presença de famílias mais nobilitadas, que marcavam a construção, o quotidiano, e eram determinantes para o desenvolvimento económico da Lagoa, através do desenvolvimento do setor primário, nomeadamente a exploração das vinhas”.

Apesar da sua pequena dimensão, não deixa de ser um concelho de contrastes: “temos uma bipolarização muito grande – temos uma Lagoa marítima, de costa, e depois uma Lagoa de interior, mais enclausurada, sem acessibilidade ao mar”, com realidades muito distintas.

“Isto acontece em muitos sítios, mas o interessante é que, na Lagoa, isto passa-se em 45 quilómetros quadrados, com uma população de quase 15 mil habitantes”, refere Susana Goulart.

Se o mar foi, e é, razão de desenvolvimento, também foi, e é, de desventuras. “O medo dos corsários e dos piratas acaba por justificar a fuga para o interior”, como aconteceu com “as freiras que estavam no Convento da Caloura, no século XVI, que foram para Ponta Delgada ou Vila Franca do Campo”, sublinha.

No território mais interior do município, a historiadora destaca “a temática da religiosidade, e o traço muito interior, do Espírito Santo, das devoções”, exemplificado na “Ermida dos Remédios, uma das mais antigas da ilha de São Miguel, que remontará ao século XV”.

O temor ao mar era também visível nas freguesias costeiras, onde “as habitações mais simples estão alinhadas na costa de água, mas, de forma muito curiosa, como em todo o arquipélago, têm as portas para dentro”.

“Não há aquele sentido estético e lúdico. Não há nada disso porque do mar vem o perigo, os piratas, o salitre que estraga tudo. A casa virada para o mar é uma coisa muito recente. A Lagoa tem uma arquitetura onde a maior parte da habitação está localizada no interior, longe do mar, onde o mar é controlado, sem provocar o medo e susto”, prossegue.

Sem piratas à vista, o mar assume-se agora como um recurso essencial para o desenvolvimento, com investimentos “na melhoria da orla costeira, com projetos que possam trazer maior atratividade ao concelho da Lagoa”, menciona Cristina Calisto.

Num ano em que se celebra o passado, a autarca socialista olha para a “educação, a cultura, o ambiente, a inovação e a qualificação dos recursos humanos”, como os “desafios do futuro”.

Lembrando o comércio da laranja e a importância da indústria, a presidente da Câmara foca-se agora na “nova era da inovação, tecnologia e informação”.

“O que me orgulha neste percurso são as pessoas, a forma como a nossa população, em todos os tempos, soube agarrar as oportunidades. Esta tónica é importante, porque continuamos a precisar de contar com as pessoas para garantirmos o progresso da nossa comunidade”, afirma.

“500 anos evidenciam o papel transversal e central do poder local para a satisfação dos legítimos interesses das nossas populações e a importância fundamental de podermos escolher, em democracia, o nosso próprio caminho através do poder local”, afirma ao DL a vereadora da Cultura do município, Albertina Oliveira.

É por isso que a efeméride merece quase um ano de celebrações, assentes em cinco eixos estratégicos: educação, cultura, desporto, saúde e economia, “contribuindo assim para a sua sustentação e para perspetivar o futuro do concelho”.

Inês Linhares Dias

Reportagem publicada na edição impressa de maio de 2022

Categorias: Reportagem

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