Miguel é lagoense e foi em busca do sonho no futebol em solo americano

Tem 19 anos, é lagoense, já passou pelo Sporting, Benfica e agora aposta tudo nos Estados Unidos. No Nebrasca é jogador de futebol na equipa da universidade onde está a tirar o curso de gestão. “Vir para cá afasta-me um pouco da realidade do futebol da Europa mas é uma escolha mais calculosa porque aqui consigo jogar numa boa equipa e fazer uma licenciatura“

Miguel Ventura tem 19 anos e é o camisola 20 do Creighton nos EUA © D.R.

Miguel Ventura está a viver o sonho americano. Tem apenas 19 anos, é lagoense e está a iniciar a sua licenciatura em gestão em Omaha, no Nebrasca, Estados Unidos.

O jovem açoriano foi criado em São Miguel. Apesar de ter nascido e de ter vivido os seus primeiros anos de vida em Lisboa sente que é “da ilha”. Com nove anos já viajava até à capital para jogar com a camisola do Benfica, em ambiente de aprendizagem e experiência. O clube mostrava interesse em que ele ficasse lá quando atingisse outra idade, mas entretanto o Sporting chegou mais cedo.

Aos 14 anos faz as malas e sozinho sobrevoa o Atlântico até Alcochete à procura do sonho no futebol profissional. O jogador diz que “é tudo muito bonito, ir para o Sporting”, mas admite, num tom de tristeza, “que o mais difícil foi sair da ilha, deixar a família e os amigos”. Com apenas 14 anos recorda esta experiência como “boa”, que o fez “crescer” mas que lhe custou muito estar longe de quem mais gosta.

Contudo o sonho de chegar ainda mais longe manteve-se e admite que o desporto corre-lhe nas veias porque os pais sempre o praticaram. A mãe era velocista de 100 metros e o pai era lançador de dardo, ambos treinavam no Sporting. Aos 12 anos o jovem lagoense conta que a mãe levava-o para os treinos de atletismo mas sempre soube que o futebol era o que gostava.

“Percebi que podia ter futuro quando recebi o convite do Sporting”, conta. Miguel relembra que foi a partir desse momento que começou “a pôr na cabeça que queria mais”. Admite que quando ia jogar e treinar ao Benfica “tinha aquela esperança” mas depois de receber o convite do Sporting é que sentiu mesmo que “se calhar até dá“.
Quando a época no Sporting estava a terminar surgiu a oportunidade de o avançado ser emprestado ao Braga ou ao Belenenses, mas o que Miguel queria mesmo era voltar a casa. “Decidi dar um passo atrás e ir para a minha ilha”. Apesar de tudo, o jovem queria continuar a jogar com orgulho. A sorrir conta: “depois fui para os amarelos de São Roque, foi uma época que correu bem”.

Coimbra, a nova casa

Depois de uma época nos “amarelos” foi hora de retomar a perseguição pelo sonho. A Académica de Coimbra foi a sua casa durante três anos. “Senti que já estava mais preparado para estar longe de casa, então acabou por ser uma experiência mais alegre conheci muita gente de todo o mundo”. Miguel conta que na academia andavam sempre todos juntos: “é um clube acolhedor”.

A conversa com o Diário da Lagoa (DL) iniciou-se à uma hora da manhã, hora dos Açores, menos cinco horas no Nebrasca, onde Miguel vive atualmente. Através das imagens da videoconferência que manteve com o DL durante mais de uma hora, ouve-se o colega de quarto, espanhol, e vêem-se dois beliches com duas secretárias por baixo. Miguel diz que o quarto “é pequeno mas tem o essencial”. Em contrapartida o jovem avançado diz que ficou “mesmo fascinado” com o que encontrou nos Estados Unidos. Encontra-se a viver no campus da universidade em que ficou colocado, a Universidade de Creighton, na cidade de Omaha. É lá que treina e joga na equipa de futebol de Creighton. “Temos televisões em cada máquina no ginásio, temos o nosso nome ao pé dos pesos, o ginásio é enorme, temos também personal trainers, acesso ao jacuzzi e à piscina”. Miguel diz mesmo que “há equipas profissionais na Europa que não têm essas condições, por isso fiquei fascinado”.

A chegada aos Estados Unidos

A 31 de julho deste ano, o jovem lagoense, após terminar o seu secundário em Coimbra, deu por terminada a época na Académica e foi passar um mês de férias aos Açores. Estava prestes a começar a sua busca pelo sonho americano. Miguel conta que quando chegou a Omaha um dos seus colegas de equipa acolheu-o na sua própria casa porque o campus ainda não estava aberto. Em conversa com o DL o atleta admite que ”já há algum tempo que estava com vontade de ir para a América” mas quando viu que estava prestes a concretizar-se nem queria acreditar: “como é que isto está a acontecer?”.

Mas como encontraram Miguel? O atleta diz que o ponto fulcral foi quando começou a trabalhar com a Next Level. Trata-se de uma empresa especialista na localização de bolsas de estudos nos Estados Unidos. “Eles enviam vídeos dos atletas a jogar para certas universidades e depois as que tiverem interessadas voltam a contactar. A primeira universidade que contactou foi a Creighton University”, conta o atleta.

Devido aos excelentes resultados, a qualidade que as equipas europeias demonstram, quando há a presença de um europeu em terras americanas ou asiáticas, existe mais curiosidade por parte dos locais. “Eles aqui olham sempre para o jogador europeu de uma maneira diferente, as pessoas têm uma mente muito aberta, podemos vestir o que quisermos, andar com quem quisermos aqui é diferente.”

No seu penúltimo jogo fora da cidade onde joga e estuda, Miguel conta que a claque da universidade da equipa adversária sabia os nomes da equipa do lagoense: “estava eu no aquecimento e só ouvia, Miguel português!”, sorri imitando um americano a falar português, “depois diziam coisas em inglês que eu não percebia”.

O lateral esquerdo admite que ir para a América afastou-lhe um pouco da realidade do futebol europeu mas diz que é “a escolha mais inteligente e calculosa” porque lá consegue jogar com condições “incríveis”, num campeonato bom e fazer uma licenciatura num dos países mais desenvolvidos do mundo, na “América acaba por se abrirem grandes portas“. Contudo seguro afirma que “as portas para a Europa estão sempre abertas, aqui sinto-me mais tranquilo porque consigo ter mais tempo para me orientar com o futebol e a universidade”. Esta mudança para os Estados Unidos é mais do que jogar futebol, o jovem está seguro de que quer só futebol, “mas também preciso de um plano B”, conta. O seu grande objetivo mais próximo é ir para uma equipa profissional nos Estados Unidos, a liga MLS, liga americana.

Com apenas 19 anos, o camisola 20 admite que é necessário ir para esta aventura com “uma mente aberta”. Admite que a língua é o maior entrave e deixa uma mensagem aos mais novos: “se fores para uma boa universidade estás bem, é preciso trabalhar, é preciso ter boas notas e estudar, não basta só jogar futebol. Saber jogar ajuda mas tens de te esforçar na escola”, concretiza.

Sofia Magalhães
com Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2021

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