Multidão de fé nas festas de Nossa Senhora dos Anjos

As Festas de Nossa Senhora dos Anjos evocam a memória do povo da Vila de Água de Pau, desde a vinda dos primeiros povoadores ou imigrantes até à emigração e aos regressantes ou pauenses, de volta, em férias à sua terra-natal.

Destaque-se 15 de agosto, que é o dia grande das festividades com a procissão da “Quirida” Senhora dos Anjos, repleta de andores em representação dos patronos protectores de diversos ofícios da terra que remonta já ao antigo concelho desta Vila de Água de Pau.

Recorde-se que por «carta régia» do rei D. Manuel I foi esta terra elevada a concelho a 28 de agosto de 1515 e assim se manteve por 338 anos, até 19 de outubro de 1853, altura em que integrou o concelho da Lagoa, quando foram suprimidos 300 dos 605 concelhos que Portugal detinha e dos quais, por motivos de tesouraria, a rainha D. Maria II suprimiu a metade.

Apesar disso, nem Água de Pau deixou de ser vila nem as suas gentes refrearam o desejo de ver crescer e desenvolver-se a sua terra, nem as suas festas religiosas perderam fulgor, muito menos a Festa da sua “Quirida” Senhora dos Anjos.

O povo desta vila espelha no seu rosto, a forma como vive nestes dias, uma verdadeira demonstração e orgulho, as suas Festas e este ano o sucesso correspondeu às suas expetativas.

15 de agosto é o dia grande das festividades. Logo de manhã, surgem diversos grupos locais de cantares, cumprindo a tradição. Saem de diversos pontos da vila e dirigem-se, primeiro, à Praça da República, onde estão concentrados os emigrantes e muito povo à sua espera para com eles confraternizarem, quer dançando quer aplaudindo seus cânticos e ‘chalaças satíricas’ tão particularmente nossas. Depois, percorrem ainda mais algumas ruas e terminam em frente à porta da igreja, onde o Padre João Furtado os espera e retribui palavras de amizade e deseja-lhes «boas festas».

Mas, o reboliço continua na Praça onde se concentraram desde manhã, os vendedores de frutas e de vinho doce da Caloura [embora pouco e sem o fulgor doutros tempos], artesanato, canastras de caranguejos, e ainda o Paulo Jorge Vieira com a sua bancada bem elaborada onde está bem patente a argola com notas de dinheiro, resultados de ofertas dos nossos emigrantes que, anualmente, recorrem a ele para este donativo à sua padroeira Senhora dos Anjos.

Durante a procissão de 14 andores, enfeitados por famílias da comunidade associadas às várias profissões de faina ou de fé da sua vila, a imagem de Nossa Senhora dos Anjos percorre as principais ruas da Vila de Água de Pau e vai recebendo ofertas em dinheiro, em argolas, que são enfiadas no braço da imagem que vai erguido, apontado ao céu. Trata-se de um ritual muito antigo desta terra que remonta a mais de um século.

D. Wieslaw M. Spiewak, o bispo de Hamilton, das Bermudas, foi convidado este ano para presidir às festas e, consequentemente, à Procissão, notando-se a presença de muita gente fortemente marcada pela emigração nas Bermudas, Estados Unidos, Canadá e até da Austrália.

No recolher da procissão e após a imagem ter entrado na igreja, para depois voltar a sair, verificou-se a passagem de todas as instituições e autoridades civis, governamentais, autárquicas, culturais e sociais, que participaram na procissão. Então, o pároco local João Furtado, convidou o Bispo das Bermudas para dirigir sua mensagem a centenas de fiéis, do cimo da escadaria do adro da igreja, para a Praça Nova.

Assim, entre cânticos Marianos, o povo ia-se associando e replicando os bonitos cânticos. Depois da intervenção do Bispo das Bermudas, a imagem da Senhora dos Anjos regressou para fora do templo e rodeada das autoridades, dos empresários das Bermudas, José Manuel Almeida Sousa e sua esposa Maria João Sousa, responsáveis há já muitos anos pela ornamentação da imagem padroeira e de muito povo, ouviram-se novos cânticos em elevado som e fé.

Este ano, destaque ainda para a vinda de emigrantes pauenses de vários pontos do planeta e não apenas dos habituais países de emigração açoriana.

Foram 16 os emigrantes que vieram da Austrália. De tempos a tempos, ao meu convite, juntam a família toda para virem em grupo, para as suas antigas Festas de Nossa Senhora dos Anjos.

Tem sido um maravilhoso reboliço assim que eles chegam. Há visitas a lugares obrigatórios que lhes recordam momentos de criança e juventude antes de emigrarem para a Austrália. Nunca chegam a separar-se das novas gerações porque os pais procuram os Silvas para apresentarem seus filhos, para conhecerem os antigos patrões ou amigos de infância.

O Jorge, a Ana, o Fernando, a Graça e o Fernando, regressam sempre com suas famílias, à sua «rica terra», porque a distância de 35 horas de voo que separa a Austrália dos Açores não conseguem arrancar do peito o amor que têm à sua Vila de Água de Pau.

Afinal, em agosto, as Festas de Nossa Senhora dos Anjos são e serão sempre um ponto de encontro daqueles que amam a sua vila de Água de Pau.

Por: RoberTo MedeirOs 

Categorias: Cultura, Local

Deixe o seu comentário