Nalgum tempo, botando contas à vida… emigraram!

Roberto Medeiros

“(…) os irmãos José “soleta” e o António “perna comprida” agarraram suas roupinhas, pegaram em si e nas saquinhas e lá foram à conta de Deus em direitura à canada do Cerco, por lá abaixo até à Ponta da Galera, em cata da sua ventura e embarcaram de calhau”

Praça Nova na Vila de Água de Pau, na década de 1960, onde antigamente ouvíamos os mais velhos contarem “casos” FOTO D.R.

Sentados no chão, a gente escutava o velhinho Ti Zé Balaio que sozinho quase enchia o banco de cima da praça nova, contando casos sucedidos nalgum tempo, dos irmãos d’Água de Pau que haviam embarcado num vapor para a América e nunca mais tinham posto os pés na nossa vila, nem de visita. Cá por minha parte, dizia o ti Balaio, só os conheço de um retrato deste tamanho pregado numa das paredes do quarto de sala, as mulheres e os filhos e os netos, todos vestidos no último ponto, vestimentas asseadíssimas, tudo enfim gente fina e bem-criada. O retrato era de empenho, estava à ilharga da estampa do Sagrado Coração de Jesus e a minha mãe dizia sempre quando olhava para ele: E não há agora uma lei do governo que autorizasse a gente a sair daqui pra fora, quanto mais depressa melhor!

Nalgum tempo, afirmava o ti Balaio, era muito pior que hoje em dia, havia pouco descanso e quem trabalhava nas terras vinha quase sempre de braços caídos. Um home comia quando comia, bolo assado na sertã com pimenta ou cebola curtida e era dar graças. Vocês hoje não podem dar o valor ao que se penava nalgum tempo, e ninguém reclamava.

Os meus tios, o José “soleta” e o António “perna comprida”, principiaram a botar contas à vida e não estiveram com mais aquelas; agarraram suas roupinhas e numa bela ocasião, altas horas da noite, pegaram em si e nas saquinhas e lá foram à conta de Deus em direitura à canada do Cerco, por lá abaixo até à Ponta da Galera, sem dizerem pio. Em nossa casa ninguém cuidava que ia assuceder o que assucedeu, que nos deixou a todos como se a gente estivesse de luto fechado. Aquela Sexta-Feira de desgosto durou semanas acrescentadas, mas só Nosso Senhor e eles é que sabiam as linhas travessas do seu destino. Segue-se intance que eles lá foram em cata da sua ventura, embarcaram de calhau, num bote de madeira a remos até à baixa-de-fora para apanhar o barco que os recebeu. Nesse tempo, a gente podia comprar a papelada para poder emigrar, não havia moleste de qualidade nenhuma, o que era preciso era o patacão na palma da mão, contas são contas.

Ó despous, chegando à Amerca, os meus tios não ficaram na cidade de Batefete, amanharam trabalho mais para cima, não me alembra agora o nome do lugar, o que sei é que era uma grande farme de reses com muita gente a trabalhar. Ganhavam bom patacão, dolas e mais dolas, comiam do bom e do melhor, ele era carne e peixe de todas as qualidades, ele era pão de trigo à larga, o pior era o vinho que não havia ou se aparecia era mais caro que um corisco e nunca se comparava ao nosso da Caloura. Mas, lá se iam arremediando com uma outra bebida de muita fama daquela terra, eles lá na sua língua davam-lhe o nome de “bia” ou lá que raio era, mas o certo é que a lapareira da bebida era muito gostosa, em um home se acostumando àquele amargor não queria outra coisa. Fazia uma espumaceira de dois dedos da borda do copo para baixo. Costumes diferentes dos nossos, louvado seja Deus, cada terra com o seu uso, cada roca com seu fuso, e é assim esta grande mánica do mundo. Mas o mal era o excomungado do frio no inverno, muito pior sem comparação com o nosso no pico da merda-seca, onde dizem que a porca furou. O que valia no meio de tanta frieza era serem as casas aquecidas por meio de canos onde corria água fervendo. Lá dentro parecia uma estufa, mas cá fora era de um home tremer com dores nos ossos. Era uma gelidez terrível, e ainda para mais ajuda ficava tudo coberto de “senó” como se em comparação os moleiros todos da Amérca se tivessem alembrado de despejar todas as sacas de farinha em cima das terras, dos caminhos, das telhas, e ficasse tudo enfarinhado. O pior era quando o raio do senó ficava vidrado e nessas alturas tornava-se escorregadio e uma criatura dava cada margulho de ver estrelas durante o dia. Aquela gente não tinha outro remédio senão desimpedir estradas e caminhos e passeios com pás que eram os seus terminos para rapar todo aquele senó. Ás vezes, as portas intance ficavam com um montão até ao pica-porte, um verdadeiro castigo para se sair de casa. Mas, tirante a chaga do frio, a terra da Amerca era mesmo uma terra abençoada de Deus, hoje nem tanto, quem caçara um home ter podido sair daqui pra fora, agora não há outro jeito senão sofrer de boca calada esta caipora de vida enquanto Nosso Senhor permitir. Não deixo de não dizer que meus tios agarraram a sorte, foram engatinhando devagarinho e hoje é o que a gente sabe: pessoas de teres e muito estimadas na cidade de Fó-Riva, onde já vivem há poderis de anos, filhos criados, netos bem encaminhados nos caminhos desta vida, arrecebendo instrução nas Escolas Altas, batendo bem a língua amarcana e lendo naqueles livros de muita sabedoria.

Meus tios, nados e criados no bafo dos nossos costumes antigos, tornaram-se mesmo assim pessoas muito consideradas na cidade de Fó-Riva, não só entre a nossa gente, mas também entre os amarcanos. Os meus tios José e o António mandaram-me dizer tudo tintim por tintim, a carta ainda está guardada na gaveta da cómoda, é uma lindeza que me não canso de ler. Houve intance numa grande festa com muito povo, mais ainda que aquele que se ajunta na rua da Trindade, ao despous do arrecolher da procissão da nossa quirida Senhora dos Anjos. O Maior de Fó-Riva de cima de um palanquim disse que os “Balaios” eram homes de primeira qualidade e trabalhadores de mandar peso, homes de respeito e de cara direita, honra e glória das duas naçãs, de Portugal e da Amerca. Já se sabe que todas estas cousas mexem com um home cá por dentro e não é para menos, pois o sangue tem muita força e ajunta a gente mesmo com o mar a separar-nos.

Se eu fosse mais novo, e houvesse licença como nalgum tempo, era capaz de me botar em cata da minha ventura. Não era aqui, meu rico home, que acabava os meus últimos dias de vida que Nosso Senhor tem ainda para me dar.

Crónica publicada na edição impressa de abril de 2021

Categorias: Opinião

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