“Não concebo ir para Nordeste, estar lá um dia e não na Lagoa”

Como sobrevive um jornal português no Canadá? O proprietário do LusoPresse, um dos únicos jornais em língua portuguesa de Montreal, segue de perto o que acontece na Lagoa. Explica como tem sobrevivido à pandemia e como é viver com o coração do outro lado do Atlântico

Norberto Aguiar nasceu no Cabouco e vive atualmente em Montreal FOTO DR

Futebol, Lagoa e notícias são as grandes paixões de Norberto Aguiar, não necessariamente por esta ordem. Tem 66 anos e é jornalista há 34, todos no Canadá. É atualmente editor, paginador, chefe de redação e proprietário do jornal LusoPresse, um dos únicos dois jornais portugueses da cidade de Montreal, que está a caminho dos 25 anos de vida. Cresceu entre o Cabouco e o Rosário e antes de casar emigrou para o Canadá. Ainda voltou para São Miguel com a mulher e as três filhas nos anos 80, mas a vida por cá não era a que esperava encontrar. Não conseguiu conquistar um dos sonhos que tinha – ser jogador de futebol – mas conseguiu o outro: dedicar uma vida inteira ao jornalismo. Não consegue não trabalhar. Para além do jornal bi-mensal com uma tiragem de 6 mil exemplares, mantém um programa de televisão de uma hora semanal no canal ICI Telévision, apresentado por uma das filhas, Ludmila Aguiar, e todo em português. A partir do seu escritório, através da ferramenta de vídeo do whatsApp, falou com o Diário da Lagoa. Diz que a sua vida dava vários livros e garante que irá escrever pelo menos um para esclarecer pedaços da história passada da sua família. A conversa de duas horas que teve com o DL quase que daria um jornal inteiro, aqui, fica uma pequena parte.

DL: Como é que surgiu o LusoPresse?
Eu era chefe de redação de um jornal que se chama Voz de Portugal, que é o mais antigo em língua portuguesa do Canadá, vai para os 60 anos. Como joguei no Clube Operário Desportivo convidaram-me para escrever no jornal sobre desporto, quando aqui cheguei [ao Canadá] ninguém escrevia sobre desporto no jornal. Era corta e cola do desporto de Lisboa. As pessoas começaram a ficar todas contentes porque nunca viam o seu nome no jornal e de repente começam a aparecer porque eu comecei a fazer.
Quando eu tinha seis e sete anos tinha duas coisas na cabeça que pretendia: ser jogador profissional de futebol – o que era impossível porque aí estávamos abandonados – e era escrever sobre desporto porque desde miúdo que era um doente pela bola. No Cabouco os rapazes mais velhos jogavam era com a minha bola. O meu pai era funcionário do Varela e recebia ao mês e quando ia receber o salário levava-me com ele e perguntava “o que é que tu queres?” e eu respondia “quero uma bola”. Logo desde muito pequenino eu tinha uma e como no Cabouco ninguém tinha, todos jogavam com a minha e se não fizessem o que eu dizia, pegava na bola e ia embora [risos].
No Cabouco com 11 ou 12 anos lia o jornal A Bola de Lisboa. Eu lia aquilo tudo e impressionava-me: “eh pá eu gostava tanto de escrever para um jornal”. Era os dois sonhos que tinha e nem um nem outro eu pensava que tinha possibilidades de concretizar.

DL: Depois de estar 10 anos no Voz de Portugal funda o seu próprio jornal?
Exato, porque eu era um tipo de ação. Eu sou o único jornalista da comunidade que já escreveu para o LaPresse, um jornal de 350 mil cópias diárias e que infelizmente agora só existe na Internet, o The Gazette que é um jornal com cerca de 150 mil cópias, a rádio Canadá e rádio Canadá Televisão, sou o único que escreveu e colaborou com essa gente toda. Inclusivamente no LaPresse, em 1988, fui com quatro jornalistas daqui fazer um trabalho durante 22 dias desde o norte de Portugal até aos Açores. Publicamos uma revista de 28 páginas a cores, só a falar de Portugal e em francês.

DL: Quantas pessoas trabalham no LusoPresse?
Só duas. Eu mais uma pessoa mas tenho sempre 10 a 12 colaboradores por edição.

DL: São pessoas que escrevem de forma voluntária?
Exato. Há dois ou três que eu pago à peça porque eles não são meus funcionários e quando estou ocupado ligo-lhes e peço.

DL: Qual é que é a principal dificuldade de manter um jornal aí?
É a mesma que aí. Este jornal se não tiver publicidade fecha a porta. Não temos subvenções nem de Portugal nem dos Açores, nem do governo canadiano. O que nós temos – e isso nos últimos cinco a seis anos foi reduzido para menos de metade – são campanhas de publicidade do governo federal que quando quer chegar às comunidades de origem, eles pagam quatro vezes mais do que o preço normal e isso é bom.

DL: A pandemia veio reduzir o número de anunciantes?
Os mais pequenos cortaram a publicidade toda. Se eles não têm dinheiro para pagar o que precisam, a publicidade é logo a primeira coisa que eles cortam. Felizmente o governo canadiano deu, pouco mas deu, e o governo da província do Quebec, está a dar uma página de publicidade praticamente em cada edição. Isso de certa maneira financeiramente está a suportar a publicidade que eu tenho perdido. Aqui um jornal para ser bem visto tem que ter publicidade. Se não tem as pessoas pensam que não é lido, tem que ter uma contrapartida de publicidade.

DL: Quantas horas é que trabalha por dia?
Bem, agora trabalho menos mas nos primeiros quatro anos chegava a trabalhar 24 horas por dia para por o jornal cá fora, não dormia. Se não fosse assim o jornal tinha caído.

DL: Também tem um programa de televisão.
Passa no canal ICI Télévision, é feito em português, uma vez por semana com entrevistas, reportagens, crónicas, tudo isso. É um pouco como o jornal só que é tudo mais condensado.

DL: Que tipo de reportagens fazem aí na comunidade?
O lançamento de um livro, uma personalidade que vem de Portugal, uma festa na associação, as festas do Senhor Santo Cristo, entre outras coisas.

DL: Pensa regressar aos Açores?
Viver nos Açores o ano inteiro é impossível porque tenho as minhas filhas aqui e estão todas bem estabelecidas, já tenho netos. Mesmo que eu quisesse a minha mulher nunca deixaria as filhas e os netos para ir viver para aí. Agora acho que se eu tiver boa saúde eu gostava de ir três a quatro meses para os Açores, passa-me muitas vezes isso pela cabeça, mas não era para ficar. Já fui daqui até São Miguel durante uma semana e era Rosário, Ponta Delgada e Ponta Delgada, Rosário. A minha ligação à Lagoa é tão forte que não concebo ir para Nordeste, estar lá um dia e não na Lagoa. Quando estou em São Miguel tem que ser na Lagoa mas tenho o sonho de ir, durante um mês, para as outras ilhas também, só não conheço uma ilha, a Graciosa, as outras conheço todas graças ao jornalismo.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de novembro de 2020)

Categorias: Entrevista

Deixe o seu comentário