Natais

Rúben Cabral
Gestor Empresarial

“Natal é em dezembro
Mas em maio pode ser
Natal é em setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher”.

Este natal de Ary dos Santos é o natal de cada um de nós: simples, genuíno, espontâneo. Depende de cada homem e às vezes até somente do acaso. Por ser assim, não deixa de ser grandioso e profundo, tal como é sempre grandiosa e profunda a vida humana em cada pessoa. Todos nós experimentamos esses momentos de natal, isto é, esses momentos de renascimento que nos dão o vigor e o propósito de viver. Podem ser tão diversificados, tal qual cada um de nós que somos únicos e irrepetíveis no nosso ser e sentir. 

Existem alguns natais que são mais especiais que outros. Na maior parte das vezes, os natais mais especiais não são os mais ricos ou luxuosos. Por vezes, até são os que demoram menos tempo a preparar. Não se medem pelo volume de compras antes, normalmente, não precisam de trocas nem devoluções depois. Este género de natal é mais especial do que os outros porque é aquele natal que é partilhado por quem se ama e partilha propósitos de vida. É o natal que é quando mais do que um quer. Este natal exige agenda e compromisso mútuo, mas é muito mais gratificante porque rompe a nossa solidão e faz-nos ser pessoas completas com os outros que connosco fazem família. 

Existe ainda aquele outro Natal: aquele que tem dia certo e estabelecido a 25 de dezembro. Mesmo quem não é crente, por um dia, aceita que o seu natal seja quando um bebé, que nasceu há dois milénios, quis nascer do ventre da sua mãe. Porquê? Porque, mesmo sem fé, muitos têm a esperança de um Natal partilhado por toda a Humanidade. Porque sabemos bem que só temos futuro se estivermos unidos.

Este propósito de paz e unidade que são alguns dos princípios da humanidade, são, também, o princípio de todas as comunidades, incluindo o nosso concelho. A nossa história comum mostra-nos que o nosso desenvolvimento começou quando estivemos ao serviço da unidade e das relações entre as duas cidades de Vila Franca do Campo e Ponta Delgada. Ganhámos relevo civilizacional e cultural quando nos tornámos paragem hospitaleira entre as duas cidades. A nossa identidade própria foi criada na riqueza da partilha ao nível mais direto e pessoal entre duas formas de se ser micaelense. Nenhuma outra vila tem esta identidade hospitaleira na sua génese como a Lagoa e Água de Pau. 

Prosperámos mais quando olhamos para as nossas relações com quem nos visita do que quando entrámos em disputas entre vilas ou freguesias. 

O futuro próximo dos Açores dependerá em grande medida da indústria da hospitalidade. É certo que temos muito a aprender e importar ao nível da operacionalidade das atividades e negócios, mas a nossa identidade cultural profunda está vocacionada para vencer esse desafio. Convém que todos tenhamos a sabedoria de não importar modelos de desenvolvimento à revelia desta identidade. Eu acredito que as nossas gentes são parte da mais-valia e nada pode ser feito sem quem estas sejam incluídas. Não pode haver hospitalidade só com hóspedes e os lagoenses só receberão bem se viverem melhor.

Espero que daqui a alguns anos os lagoenses não sejam hóspedes no seu próprio concelho ou que os seus natais tenham que ser vividos num estábulo qualquer porque já não haverá lugar para eles, nem como hóspedes, à imagem do presépio de Belém.

Categorias: Opinião

Deixe o seu comentário