Nelo. Um treinador de barba rija

Da carreira de jogador à glória como treinador que subiu o Rabo de Peixe aos nacionais, Nelo junta ao futebol a paixão pelo corte de barba e cabelo com a sua barbearia no Rosário

© CORTESIA BARBEARIA NELO

Em 2012, Nelo tinha 27 anos e uma carreira de futebolista que tinha passado por 12 clubes diferentes, contabilizando os da formação. Naquele ano, alinhava no Tourizense, concelho de Tábua, e tinha tudo pronto para ir para o Luxemburgo. Não foi. Ingressou no Operário e a partir daí a sua vida iria mudar. Com a paixão pelo futebol e pelo corte de cabelos, acabaria por encontrar a sua nova casa na Lagoa.

Mas voltando àquele momento chave em 2012. Nelo pensava que ia jogar no Luxemburgo mas, à última da hora, acabou por não ir. Surgiu a hipótese de vir jogar para o Operário, por insistência do Mister Francisco Agatão. Nove anos depois, assume que não estava muito virado em vir para os Açores “Eu estava muito reticente, não queria muito vir para os Açores. Depois decidi arriscar e acabei por vir. Mas vinha só por um ano, entretanto passaram oito”, diz Nelo ao Diário da Lagoa (DL), soltando uma gargalhada.

Contudo, a estadia na Lagoa acabaria por ter um interregno. Depois de dois anos “muito bons no Operário”, em dezembro de 2013 teve oportunidade ir para o campeão nacional de Moçambique, o Liga Desportiva de Maputo, uma experiência, que, diz, serviu “para organizar a vida e o futuro”.

O seu futuro acabaria por passar pelo regresso aos Açores. E à Lagoa. Bom filho à casa torna. Pendurou as botas, abriu a barbearia encostada à igreja do Rosário e haveria de começar a carreira de treinador. Primeiro, como adjunto do Operário, depois como líder de uma equipa que fez história ao serviço de Rabo de Peixe. Tudo isso sem nunca largar a tesoura, a barba e os cabelos. Mas vamos por partes.

A carreira de jogador e a breve glória de treinador
Nelo acabou a carreira de jogador novo para aquilo que é a prática no futebol. Tinha 30 anos e somava passagens pelo Real, Brabantia (Holanda), Mannheim (Holanda), Mirandela, Sporting Ideal e uns quantos outros. E, claro, não se pode falar da carreira de Nelo sem esquecer a passagem pela formação do Sporting. “Analisando a minha carreira há um sabor meio amargo”, reconhece, apontando a saída precoce para a Holanda como um momento “fundamental” na carreira.

Aos 16 anos já estava nos seniores do Real e aos 19 saiu para os holandeses do Brabantia. Nesse tempo, estava à frente dos seus colegas de formação no Sporting, muitos que depois viraram estrelas mundiais. A carreira parecia promissora, mas uma lesão grave afetou a sua primeira experiência internacional. “Tive uma lesão grave e depois tinha ânsia de recuperar rápido para demonstrar serviço, logo num país que não é o nosso, numa experiência nova pela primeira vez. Não conseguir dar esse contributo, ao mesmo tempo que via colegas, como o Nani ou o Vaz Tê, a singrarem. Foi numa fase muito difícil para mim e este foi o grande amargo de boca da minha carreira”, explica.

Ao longo da carreira, iria ser sempre marcado pelas lesões, que o impediram de procurar atingir outros palcos. Ainda assim, firmou-se como um dos bons laterais direitos do Campeonato de Portugal. “Às vezes perguntam se tenho saudades de futebol. Eu não tenho saudades nenhumas de jogar futebol”. Mas, o futebol não saiu dele. Mal acabou a carreira de jogador, começou a treinar, passando a adjunto de André Branquinho no Operário, nas temporadas 2016/17 e 17/18.

Sairia para abarcar a primeira experiência como treinador principal ao serviço do Rabo de Peixe. Uma época apenas, mas que serviu para entrar na história do clube dos ‘pescadores’. Com um percurso praticamente imbatível (apenas uma derrota), Nelo liderou a equipa à tão almejada prova nacional. Uma subida ao Campeonato de Portugal com que o Rabo de Peixe sonhava há tanto tempo. “Foi preciso meter muitas regras, muitas pessoas falam dos resultados, mas aquilo foi mudar um clube, coisas que estavam enraizadas e que nunca tinham sido mudadas. A minha grande satisfação foi essa. Foi histórico e isso ninguém pode apagar”, destaca Nelo, que nunca irá esquecer o dia 8 de Março, quando uma vila inteira saiu à rua para celebrar a subida do Rabo de Peixe.

Na corrente época, era previsível que orientasse a equipa no Campeonato de Portugal, mas acabou por sair repentinamente. “A direção prometeu uma coisa, não cumpriram, eu decidi seguir a minha vida”, afirma, fazendo questão de destacar que “não abdica” das “suas regras”. A decisão marcou um interregno da carreira de treinador, que Nelo espera retomar “o mais rápido possível”, num “clube em que se sinta desejado por todos”. “Tenho esse objetivo de fazer carreira como treinador, porque gosto, sou apaixonado pelo treino e pelo futebol, mas sei que tenho um longo caminho a percorrer”.

A “arte engraçada”
Mas, enquanto treinava, Nelo manteve uma vida paralela. Usando uma comparação digna de quem convive com as lides capilares, Nelo é como aqueles champôs dois em um: além de treinador, é barbeiro. O corte de cabelo e de barba é, tal como o desporto rei, uma paixão antiga. Nelo, que na verdade se chama Manuel Jaime, nem sempre ostentou a brilhante e esplendorosa careca que exibe hoje. Aos 18 anos, tinha o cabelo grande e andava sempre no barbeiro. “Achei piada à navalha, aos pormenores, achei uma arte engraçada”.

Nessa altura, o pai comprou-lhe uma navalha de barbeiro e a partir daí nunca mais parou. “Fui sempre o barbeiro em todas as equipas que passei, o barbeiro oficial, arranhava as cabeças ao pessoal, muitos deles estão agora na primeira liga”, diz, dando o exemplo do João Mendes do Tondela ou do António Xavier do Panathinaikos (Grécia). Desde desse tempo, teve “sempre o objetivo” de um dia ser barbeiro.

Tirado o curso, abriu o negócio na altura em que iniciou a carreira como treinador adjunto: “de manhã treinávamos, depois abria o salão das 14 as 20h”, recorda. A vontade de criar a sua própria barbearia também se baseava na “intenção de não depender tanto do futebol”, até porque, quando começou a aventura de treinador, o Operário “vivia dificuldades financeiras” – “foi também uma maneira de não exigir tanto ao clube”.
A Barbearia Nelo tornou-se um local de destaque para o corte de cabelo e barba na ilha, sendo um local muito frequentado pela malta do futebol: “passam aqui muitos jogadores do Operário, Santa Clara, Ideal, Vale Formoso, muitas equipas”. O negócio, esse, que também é paixão, vai bem. “Graças a deus os cabelos estão sempre a crescer e as pessoas precisam de os cortar. Acima de tudo, procuro dar sempre o meu melhor, em tudo o que faço, quer na barbearia, quer no futebol. Dou o melhor todos os dias para ir para casa de cabeça erguida”. De cabeça erguida e de barba impecavelmente aparada.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2021)

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