Norte-americana ensina a construir casas ecológicas que podem durar centenas de anos

Claudine Desiree recebe na Lagoa participantes de todo o mundo. Ensina-lhes técnicas sustentáveis de construção que lhes permitem construir uma casa com 500 euros

A manhã começa antes das sete horas na Quinta da Vida Beleza, no lugar da Atalhada, na Lagoa. O cacarejar dos galos é o despertador dos participantes do workshop que se reúnem para iniciar o dia com yoga. Ao longo de uma hora, entre diversas posições, os rostos vão ganhando um tom rosado. Não se deixam distrair nem pelos gatos da quinta que, ao correr sob o chão de madeira, o fazem crepitar.

Sessão de yoga matinal @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

O amanhecer vai trazendo consigo a tímida luz do dia. Terminado o yoga, juntam-se à mesa para tomar o pequeno-almoço preparado por Joia Hansen, o filho da instrutora, que veio dos Estados Unidos participar no curso. Há panquecas, papas de aveia, fruta, iogurte, pão, compota, ovos.

Depois da refeição deslocam-se até ao interior da casa que vão construir. É lá que formam um círculo e, de mãos dadas e olhos fechados, meditam antes de começarem a trabalhar. No fim, abraçam-se e partilham o que apreciam em cada um. Para a instrutora do workshop, Claudine Desiree, este momento propicia “uma conexão humana muito importante para o grupo trabalhar bem em conjunto”.

Círculo de meditação @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

Cob: terra, areia, água e palha

Segue-se a preparação da massa para a construção da parede, que está longe de ser de cimento. Com a ajuda de um carrinho de mão, os participantes despejam terra com areia sob uma lona, derramam um balde de água e adicionam punhados de palha. A esta mistura dá-se o nome de cob. Mistura esta que é amassada com os pés e só depois é utilizada no muro.

Grupo a amassar o cob com os pés, depois de terem misturado os vários materiais @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

Para as participantes, Leenie Wilcox, dos Estados Unidos, e Eva Kohle, da Alemanha, cob é uma técnica nova. “Este é um método diferente de construção: algumas partes são difíceis de fazer, outras são intuitivas”, relata Leenie, acrescentando que “é muito satisfatório colocar uma quantidade de cob na estrutura e ver a parede crescer”. Também Eva encara com fascínio o facto de neste processo serem “as mãos e os pés as ferramentas” de trabalho.

Leenie a trabalhar o cob na parede @ CORTESIA CLAUDINE DESIREE

Por outro lado, Lea Zdarsky, também ela alemã, já tinha lidado com cob, inclusivamente nos Açores. A convite de Claudine voltou este ano como assistente. “Eu quero construir a minha própria casa assim: em harmonia com a natureza”, esclarece Lea, para quem este procedimento permite “usar apenas o corpo e, no fim do dia, estar exausta, mas feliz”.

Também Joia já participou há cinco anos noutro workshop no Senegal. “Não sou especialista, sou apenas iniciante. Esta experiência continua a ser desafiante”, confessa o jovem de 27 anos.

Enquanto constroem a parede, a instrutora repara que uma das participantes está a fazê-lo de frente, advertindo-a que deve estar mais de lado para conseguir ter uma melhor perspetiva e construir uma curva mais perfeita. É neste sentido que Joia afirma que “o cob é uma linguagem. Para trabalhar bem com cob é preciso aprender a interagir com ele, a ouvi-lo e a perceber como quer ser tocado. Tal como com uma pessoa, tu crias uma relação com ele”.

Casas económicas, ecológicas e duradouras

Os cursos de Claudine duram, geralmente, cinco semanas. “Cada semana construímos uma parte do edifício: na primeira semana começamos com a fundação; na segunda e terceira semanas construímos os muros, colocamos eletricidade, encanamento, janelas, nichos e estantes; na quarta semana fazemos a escultura dos muros e o reboco e na quinta semana montamos o telhado”, revela a instrutora especialista em cob.

Claudine Desiree vive na Lagoa e já deu workshops em 15 países @ SOFIA MAGALHÃES

Dos Estados Unidos, para o mundo, até aos Açores

De tantos países, foi através de um estudo de astrocartografia que, de acordo com o seu signo, percebeu que São Miguel seria um bom sítio para morar. “No mapa, o meu signo cruzou-se diretamente em São Miguel, o que é raro… Muitas vezes é no mar”, desvenda Claudine. “Quando cheguei, em 2016, gostei imediatamente. Dei a volta à ilha em bicicleta durante duas semanas. Senti-me livre e tranquila, com mar e temperatura boa. Fiquei apaixonada”, assume a norte-americana.

Foi na Lagoa que encontrou o terreno ideal para concretizar o sonho de construir a sua ecoaldeia. Este terreno conta já com três casas de cob finalizadas e é aqui que Claudine coabita com gatos e galinhas, estando rodeada de árvores, sobretudo de fruta. Aos olhos do filho, “esta quinta é uma bonita inspiração do que poderá ser o futuro: pessoas vivendo na terra, em harmonia com os animais e plantas”.

Casas finalizadas na Quinta da Vida Beleza @ SOFIA MAGALHÃES

Embora este curso dure oito semanas, por se tratar da construção de uma casa com dois pisos, os alunos podem optar por ficar menos tempo. Joia aproveitou e veio por cinco semanas, porque há muitos anos que não passa tanto tempo com a mãe.

Eva vai ficar quatro semanas. Apesar de ser alemã, estava a viver em Londres, tendo recentemente se despedido para “fazer todas as coisas que sempre quis experimentar”. Por “acreditar que a construção natural é o futuro” decidiu vir a São Miguel aprender com Claudine. No futuro, pondera regressar a Londres e comprar um barco para viver no canal, onde “as técnicas de carpintaria aqui aprendidas vão ajudar quando precisar de consertar algo”.

Leenie veio desde o início do workshop e vai completar as oito semanas. Para quem fica o tempo total, o valor de inscrição é de 2800 euros, o que inclui alimentação, acampamento e o curso.

Maria Leonor Bicudo

Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2021

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