“Nós não podemos permitir que ir para os Mosteiros leve mais tempo do que ir daqui para Nordeste”

Presidente da Câmara de Ponta Delgada quer aproximar as 24 freguesias do concelho. Em entrevista ao Diário da Lagoa (DL), mostra-se contra a taxa turística e insiste em tornar mais sustentável a maior cidade dos Açores

Pedro Nascimento Cabral tem 48 anos, dois filhos e exerceu advocacia durante 25 anos © DL

DL: Como é que surgiu o interesse pela política?
O interesse pela política surgiu praticamente desde que me conheço. O meu pai foi deputado regional do PSD durante 12 anos, foi diretor do jornal Correio dos Açores durante 16 anos, foi fundador do PSD Açores e cresci sempre com a política e o jornalismo e, naturalmente, que isto foi se instalando aos poucos na minha maneira de ser. Depois quando regressei da faculdade, onde tirei o curso de Direito e depois de ter feito o estágio, quando dei os primeiros passos na advocacia. Fui assumindo diversos cargos dentro do Partido Social Democrata dos Açores. Só depois de quase 25 anos de carreira, e aos 48 anos, é que decidi assumir uma responsabilidade política pública, e, pronto, aqui estou. 

DL: Há medidas que tem tomado que são contestadas. Acredita que no futuro as pessoas vão dar-lhe razão?
Ponta Delgada tem de ser um concelho onde as acessibilidades sejam uma realidade, nós não podemos permitir que ir para os Mosteiros leve mais tempo do que ir daqui para Nordeste. Tenho insistido e eu vou continuar a insistir que é preciso criar ou melhorar as acessibilidades da parte urbana de Ponta Delgada para o lado oeste da ilha de São Miguel, porque é através das acessibilidades que nós vamos conseguir atrair mais empresas, mais investimento, fixar população. Há pessoas que não vivem neste momento na Bretanha ou nos Mosteiros ou na Candelária porque não há habitação e é longe de Ponta Delgada. O primeiro passo que temos que dar é criar condições de acessibilidade, seja através de um modelo scut adaptado à morfologia do lado oeste da nossa ilha, seja através de vias de aceleração, seja através de mais uma faixa de ultrapassagem. Há modelos que permitem aproximar e facilitar a mobilidade dos cidadãos de Ponta Delgada ao lado oeste da ilha e a partir daqui tudo isto será um motor natural de desenvolvimento. Onde nós temos boas acessibilidades, as empresas centram maior atividade para investir noutros locais que não seja só em Ponta Delgada e as pessoas passam a desfrutar também de outras ambiências que não seja só na cidade e isto faz com que as nossas freguesias se possam desenvolver de forma harmónica.

DL: A costa norte sempre se sentiu um pouco esquecida. Vai olhar mais pelas freguesias do outro lado da ilha?
Sim, a ideia é esta. Quando eu falo na scut para os Mosteiros, é no sentido de aproximar todo o lado oeste do concelho. Naturalmente a costa sul e a costa norte: Bretanha, Santo António, todas as freguesias que estão mais distantes da malha urbana têm de ser servidas por esta via de comunicação através de ramificações que se fazem à estrada principal. 

DL: Ponta Delgada é o maior concelho dos Açores, com 24 freguesias dispersas. Acha possível fazer essa “aproximação” em quanto tempo?
Eu costumo dizer que o concelho de Ponta Delgada é um motor de desenvolvimento económico, social e cultural dos Açores e nós temos a responsabilidade de trabalhar para continuar a ser esse motor de desenvolvimento. Este é um projeto para uma década. 

DL: O verão está aí à porta. Foi aprovada a taxa turística. Qual é a sua posição?
Absolutamente contra e digo-lhe mais. Nós tínhamos, no âmbito da Associação de Municípios da Ilha de São Miguel (AMISM), um projeto para fazer uma taxa turística municipal. Deliberamos que não era este o momento ideal para avançarmos com a taxa turística para São Miguel. Não temos dúvidas nenhumas que este tempo, em que esta taxa turística foi aprovada, é absolutamente deslocado, contraproducente. O que precisamos é de captar investimento, captar turistas e nós não podemos estar a taxar e a criar mais um entrave.

DL: E quanto à candidatura da cidade a capital europeia da cultura?
Nós temos grandes hipóteses de sermos vencedores deste projeto, o que seria extraordinário. Primeiro, porque ser capital da cultura europeia em 2027 é para nós um motivo de grande importância histórica porque também em 2027, nós comemoramos 600 anos dos descobrimentos dos Açores, e como tal, seria um ano em cheio. Celebrando os 600 anos da história dos Açores e celebrando o ano em que nós somos capital europeia da cultura, será digamos um ano extraordinário. Entrámos numa short list composta por quatro cidades: Ponta Delgada, Aveiro, Évora e Braga. Nós oferecemos e continuamos a oferecer algo que as outras cidades não oferecem e que não têm uma capacidade para oferecer. Primeiro, porque Ponta Delgada é uma cidade que está inserida na Região Autónoma dos Açores, a meio do Atlântico Norte e isso, permite estabelecer uma ponte muito grande entre as Américas e a Europa, portanto nós fazemos aqui uma ponte cultural universal. 

DL: Relativamente à segurança de Ponta Delgada, a criminalidade é uma preocupação da autarquia?
Naturalmente. De facto, nós temos tido aqui, várias situações e conversações com responsáveis no âmbito da autoridade policial e judicial no sentido de termos um olhar mais atento, uma atuação mais eficaz aos índices de criminalidade. Fruto da pandemia que atravessamos e de algum desemprego proveniente de alguns despedimentos, começamos a notar um pequeno aumento da criminalidade, de um pequeno furto e isto obriga-nos a refletir sobre esta matéria e a tomar medidas mais eficazes. 

DL: Entre a Lagoa e a Ribeira Grande estuda-se a possibilidade de ligar os dois concelhos através de uma ciclovia. Ponta Delgada pensa integrar um circuito semelhante?
Sim, temos tido algumas conversações, embora informais, com a drª. Cristina Calisto e com o dr. Alexandre Gaudêncio e um dos projetos que nós falamos, ainda recentemente, tem a ver com o projeto da ciclovia. Uma ciclovia que ligue Ponta Delgada, Lagoa e Ribeira Grande, penso que seria interessante e ela própria já é reclamada por muitos ciclistas que gostam de fazer esse tipo de atividade ao ar livre. Também tinha falado com a drª. Cristina Calisto, sobre um projeto interessante que é o levantamento de todos os fortes e fortinhos que nós temos ao longo da costa sul, entre Ponta Delgada, Lagoa e estendendo também até Vila Franca, fazendo a história de cada um deles e a importância que cada um deles teve ao longo dos tempos, para já são estes os dois projetos que poderemos estabelecer a curto prazo num autêntico espírito de colaboração entre estas autarquias que referi.

Clife Botelho

Entrevista publicada na edição impressa de junho de 2022

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