Novo ano, velho e bom senso

Clife Botelho
Diretor

“Vigiar e Punir” é o título de um livro do filósofo Michel Foucault que me leva a refletir sobre outra tese abordada noutro livro, o “Panóptico” de Jeremy Bentham. De forma sucinta, posso resumir que, referenciando estas obras, estou a refletir na forma como a sociedade tem implementado, gradualmente, uma nova realidade. Em troca de nos sentirmos seguros, estamos a abdicar da nossa liberdade e privacidade. Cada vez mais, todos se vigiam uns aos outros. Parece que queremos separar o indivíduo dos outros e de si mesmo e, desse modo, qualificá-lo como normal ou anormal, saudável ou doente, bom ou mau. Nos dias que correm, quem mantém velhos hábitos arrisca-se a ser rotulado e colocado num saco à parte. Muitos para não serem rotulados, portam-se de acordo com as novas normas e, de repente, quando se dão conta, quase tudo é proibido.

Enquanto isso, para este ano, o preço dos bens essenciais vai subir, os tempos de espera para as cirurgias também, entre outras tantas coisas, e continuaremos distraídos com o vírus e os números, esquecendo outros problemas que merecem, também, cada vez mais, a nossa atenção.

As consequências da pandemia são vastas e afetam muitas áreas das nossas vidas. Vejamos, por exemplo, a nível local, o aumento de casos de saúde mental ter levado à abertura de uma clínica dedicada à saúde mental na Lagoa, que noticiamos no mês passado.

A ameaça de um vírus passou a condicionar diariamente as nossas vidas e, um pouco por todo o mundo, apercebemo-nos de que as nossas liberdades e direitos fundamentais dependem da saúde pública. E, passou a ser normal aquilo que antes era anormal. Do mesmo modo, as famílias ficaram mais distantes umas das outras e, nós, açorianos, que temos família além destas ilhas, vimos que a maioria dos nossos que emigraram, deixaram de nos visitar, enquanto, por outro lado, as nossas crianças passaram a viver com o medo de abrir os braços aos avós e de respirar o “ar puro” que vendemos a quem nos visita.

O futuro, nesse campo, é cinzento e receio que outros males espreitem. Devido ao medo e alarmismo, decidimos construir muros à nossa volta e passados dois anos, muitos há que insistem que para conter a ameaça, o melhor é entrar em casa, fechar a porta e deitar a chave fora. É caso para recomendar, a quem tem a gentileza de me ler, a “Alegoria da Caverna” de Platão.

Cresci num mundo livre. Medidas que restringem a liberdade deixam-me apreensivo e profundamente triste, pois, pela liberdade há quem tenha, no passado, lutado com a vida. E, hoje, partilho do mesmo sentimento ao olhar para as nossas crianças que crescem numa sociedade doente, assintomática, que vive sem sentir que está viva. Neste ano que começa, é, por isso, preciso que o velho bom senso volte de novo aos nossos dias.

Contudo, em Santa Cruz, na Lagoa, vi algo que me deu esperança. Um casal vindo do Canadá, vestiu a pele do verdadeiro Pai e Mãe Natal. Com um simples gesto, que lhes saiu do bolso, devolveram às nossas crianças alguma normalidade. Distribuíram presentes, sem pedir rigorosamente nada em troca, recebendo um brilho único nos olhos dos mais pequenos. Por momentos, as crianças esqueceram o medo em que têm andado envoltas e tiverem a liberdade para ser o que são, crianças.

Editorial publicado na edição impressa de janeiro de 2022

Categorias: Opinião

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