O clube que torna o ténis inclusivo e que sonha ter infraestruturas próprias

O Clube de Ténis da Lagoa começou em 2012 e atualmente tem 40 atletas dos 10 aos 78 anos. Continua a formar campeões mas assume que está a atingir o limite devido à falta de campos próprios

Presidente do Clube de Ténis de Lagoa diz que a pandemia obrigou a mudanças na modalidade FOTO DR

Sara Frias tinha 25 anos em 2012. A sua história com o ténis foi idêntica à de Maomé com a montanha. Se um não vai, vai o outro. Sara sempre quis jogar ténis, sempre gostou da modalidade – mas nunca a tinha praticado. Até começarem a existir treinos gratuitos à porta de casa no polidesportivo da Atalhada. Aí já não existiam desculpas.

“Eu sou mesmo da Lagoa, da Atalhada. Sempre quis começar a jogar ténis, porque gostava muito”, começa por dizer ao Diário da Lagoa Sara, agora com 33 anos. “Em 2012, a empresa municipal da Lagoa, entretanto extinta, quis dinamizar o desporto na Lagoa com várias aulas gratuitas em várias modalidades e o ténis foi uma delas”. Ainda para mais as aulas eram no polidesportivo da Atalhada, vizinho da sua casa: “fui a primeira aluna a inscrever-me”.

Aí, a paixão pelo ténis materializou-se. Foi este o mote para a criação do Clube de Ténis da Lagoa a que Sara Frias preside. Ela e um conjunto de colegas decidiram aceitar o repto da Associação de Ténis dos Açores (ATA) para voltar “a dinamizar o ténis no concelho”, que sempre teve tradição daquela modalidade. “O ténis tinha uma cultura nos Açores e na Lagoa que se foi perdendo, nomeadamente o polidesportivo do Rosário era conhecido pelo ténis”. Oito anos após a fundação, o Clube de Ténis da Lagoa tem vindo a “crescer muito gradualmente”. Se no início eram “poucos e sobretudo adultos”, agora a tendência inverteu-se um “bocadinho”. Hoje, dos dez aos 18 anos (inclusive) têm 18 jovens: nove rapazes e nove raparigas. A partir dos 18, têm cinco pessoas entre os 19 e os 35 anos (dois homens, três mulheres), dezanove entre os 36 e os 50 anos (nove homens, dez mulheres) e seis pessoas acima dos 50 (cinco homens e uma mulher). Em resumo, de todas as idades, existem 23 mulheres e 25 homens no Clube de Ténis da Lagoa. O atleta mais velho tem 78 anos e o mais novo 10. “Temos crianças que começaram connosco com seis e sete anos e hoje em dia já têm 14 e 15 anos. É engraçado ver essa evolução: começaram connosco, depois começam a competir e a ter cada vez mais resultados”. E estes resultados são também desportivos. A atleta Isabel Melo, por exemplo, ficou em primeiro lugar no campeonato regional de sub­18 em singulares, realizado na Terceira, enquanto Linda Sousa conquistou o primeiro lugar na SMAS Cup PDL, em Ponta Delgada, em singulares. Além disso, a atleta Alexia Koch já venceu os torneios Smashtour Ponta Delgada, Smashtour Lisboa, o Master interregional realizado na Terceira, e o Vanguard Stars em Vilamoura. Um plantel de campeões, mas que está com dificuldades em expandir-se.

A pandemia
A covid­19 obrigou a mudanças na organização do clube. Afinal, como é que se pratica ténis mediante as exigências sanitárias provocadas pela pandemia? “Tivemos de nos adaptar e reinventar treinos”, responde a presidente do Clube de Ténis da Lagoa, explicando que quando retomaram a atividade os atletas tinham de estar a uma distância de três metros entre si. Nessa reinvenção, adotaram o plano de contingência criado pela Câmara Municipal sobretudo para organizar “o número de ocupantes presentes no campo” em simultâneo. Para na transição não perderem alunos, que, eventualmente, poderiam ter abandonado a modalidade por receio da covid: “tivemos sempre um número de alunos bastante fiéis. Antes da retoma, o Clube, tal como a vida coletiva, parou. Durante esse tempo, a instituição com cerca de 80 sócios suspendeu as mensalidades. “Temos essa capacidade por sermos um clube bastante familiar”. Em termos de contas, a covid não teve impacto significativo: “não tivemos receitas, não tivemos despesas”.

Mas isso não quer dizer que a pandemia não tivesse gerado alguns problemas. Ou melhor: tivesse potenciado algumas limitações já existentes. “Atualmente estamos a atingir o nosso limite. Estamos ainda a aceitar inscrições, mas visto que a covid nos levou a fazer uma diminuição do número de alunos por turma, não estamos a conseguir dar mais resposta”, diz.

A necessidade das infraestruturas
O problema principal são as infraestruturas. Com treinos três vezes por semana, no Rosário e na Atalhada, a partilha dos polidesportivos com outras modalidades do concelho torna difícil o crescimento do Clube de Ténis da Lagoa. “As infraestruturas neste momento estão a ceder”. Sobretudo, quando chove – o que obriga ao adiamento das aulas. Para tentar contornar a situação, já transformaram a própria sede (que funciona num edifício anexo ao polidesportivo da Atalhada) num ginásio improvisado, onde é feito um “treino diferente”, “alternativo”, que “ajuda na técnica, mas não é a mesma coisa” do que o treino de campo. “Imaginemos que há uma semana em que chove todos os dias. Na semana a seguir não temos capacidade para fazer as aulas normais mais as compensatórias”, assume a presidente do Clube. Por isso, o grande objetivo para o futuro é terem “campos próprios”. É um assunto que é “conversa regular” com a Câmara Municipal. “Estamos a pedir dois campos de ténis, é o mínimo para conseguirmos organizar campeonatos regionais. É uma das exigências para conseguir organizar torneios oficiais regionais e isso é algo que desde o primeiro dia nos enche de expectativas para o futuro”, destaca Sara Frias.

Com infraestruturas próprias, o Clube ganhava outra capacidade para alcançar os seus ideais. Ideais assentes no romper de certos estigmas: estigmas e estereótipos de que o ténis é um desporto para gente rica. “Ainda não estou completamente satisfeita nesse sentido”, reconhece a presidente, que, contudo, salienta o trabalho feito. Nos últimos anos, diz, têm realizado um “trabalho muito interessante” com as escolas do concelho, para captar novas crianças para o desporto e para evidenciar que o ténis é um desporto para todos. “A minha principal preocupação era e ainda é a de desmitificar que o ténis é um desporto de elite e que só determinados padrões de sociedade o praticam. Estou extremamente satisfeita com o que foi feito, mas ainda há muito a fazer”, garante. Um serviço certeiro para a promoção de um desporto com tradição no concelho.

Clube divide os treinos entre o campo do Rosário e o da Atalhada FOTO DR

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de novembro de 2020)

Categorias: Reportagem

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