“Ó mar salgado…”

Alexandre Oliveira
Professor

A pé ou de bicicleta, tenho passado com alguma frequência pela ciclovia da Lagoa. Ainda não está pronta, é verdade, mas já se podem dar uns passeios muito agradáveis, reconfortantes para o corpo e para o espírito. Sempre com o mar ao lado, uns dias encantadoramente calmo, num marulhar constante! Outras vezes, assustadoramente belo, cujas ondas, furiosas, se projetam com violência no rendilhado negro de grandes escoadas lávicas que resistem imóveis! A alvura da espuma que violentamente se projeta compõe um extenso rendilhado dinâmico ao longo da costa! Será difícil fazer esta caminhada e ficar indiferente ao encanto da paisagem, sempre igual e sempre tão diferente a cada passagem.

Em boa hora alguém se lembrou de aproveitar este recanto e proporcionar a todos os que o percorrem momentos de prazer. Este pedaço de costa estava há muito tempo à espera de ser percorrido e admirado, contemplado e usufruído por todos. Agora pode sê-lo e são muitos os que já o fazem. Daqui a dias talvez até já seja mais convidativo um bom banho de mar e também isso se pode fazer em alguns recantos naturais que a isso convidam. Mas “não há bela sem senão”, costuma dizer-se e com razão! O “senão” aqui poderá ser que muito mais gente vai descobrir, percorrer e usufruir destes recantos! Mas, afinal, é isso que se pretenderá, que cada vez mais as pessoas possam dispor de espaços de lazer, que se podem multiplicar em tantos outros locais ainda pouco acessíveis. Todos ficarão a ganhar com as melhorias que aos poucos se vão fazendo no espaço público, seja ele do domínio marítimo, florestal, rural ou mesmo urbano!

Vivemos em ilhas e o mar é uma presença constante no nosso horizonte ou nas nossas vivências. Quando nos esquecemos disso ele faz questão de o lembrar e de diversas formas. É comum ouvir-se que cada vez mais se devem virar as localidades para o mar e não faltam realizações nesse sentido. Umas mais bem conseguidas, outras… nem por isso! Por vezes, os aproveitamentos que se fazem são mais um obstáculo que perturba essa abertura. A Ciclovia da Lagoa e os seus recantos permitem sempre, felizmente, um passeio de vistas largas.

Um destes dias, enquanto também fazia este percurso, demorei algum tempo o olhar numa casa muito curiosa, em forma de barco, que não passa despercebida neste passeio. A proa, elevada, aponta ao mar. Num dos seus varandins estava alguém, qual marinheiro, a contemplar o mar. Talvez, como Fernando Pessoa, pensasse “Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal!”(*). Nesse dia o mar estava particularmente feroz, violento, as ondas rebentavam com estrondo e o vento transportava para longe uma névoa salgada. Mas, impávido e sereno, no seu varandim, aquele marinheiro contemplava o seu mar. “Por te cruzarmos, quantas mães choraram/ Quantos filhos em vão rezaram!/ Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso, ó mar!”(*) Na verdade, ele não traz só sofrimento, “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu.”(*)

Neste dia não me cruzei com a “Menina do mar da Lagoa”, mas todos temos o dever de o tratar bem, protegendo-o, cuidando-o todos os dias para o continuarmos a admirar e a fruir sem limites. Afinal, tal como o sol quando nasce, o MAR também é para todos!

(*) – Pessoa, F. Mensagem. Poema X Mar Português

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de março de 2021)

Categorias: Opinião

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