“O meu tio gostava muito do silêncio. Às sete da manhã celebrava a missa em latim e a Palmira é que ajudava”

Maria Palmira Bettencourt assistiu aos últimos anos de vida do seu tio e padrinho, o reverendo Simão Leite de Bettencourt, agora imortalizado através de um busto, recém-inaugurado no Rosário

FOTO DL

Tem 71 anos, nasceu na Lagoa mas passou parte da vida em Paris, cidade para onde partiu sozinha ainda antes do 25 de abril de 74. Maria Palmira Bettencourt foi professora em São Miguel e deu aulas em França, onde viveu, casou e teve uma filha. Privou de muito perto com Simão Leite de Bettencourt, seu tio, padrinho, reverendo e doutor – designação que defende com toda a convicção que tem, pela sabedoria que diz ter-lhe sido reconhecida por todos, desde sempre. Frequentou a Universidade de Sorbonne e foi professora da embaixada de Portugal em Paris. É presidente do Instituto Cultural Padre João José Tavares e alimenta, desde miúda, uma grande paixão pelo piano e pela música. A sua vida e a da sua família já deram um livro, “A âncora do meu coração”, lançado em 2013, e estão intimamente ligadas à Lagoa.

DL: Como foi a sua infância?
A minha mãe dizia que era mais fácil sossegar os rapazes do que eu porque era muito aventureira. Eles não me deixavam ir tomar banho para o mar, estávamos sempre fechados aqui em casa. A nossa função era sermos meninos bem ensinados e estudar. Mas as minhas primas emprestavam-me o fato de banho e íamos para os banhos, como chamávamos na altura. Como eles viram que não morria afogada lá deixaram, de todos os meus irmãos só eu é que sabia nadar, era muito aventureira.
Eu não queria ir estudar para o continente porque tinha cá um namorico e então meti-me no magistério primário mas não era bem o que eu queria, era muito fraquinho para mim. Quando acabei decidi ir para Paris porque os meus pais conheceram um casal parisiense, foram dos primeiros franceses que vieram cá nos anos 50. Eles como não tinham filhos convidaram-me para ficar em casa deles.

DL: Como é que foi essa viagem?
Tinha uns 20 anos, fui sozinha no navio Funchal, não havia voos para cá ainda, Palmira foi sozinha de barco durante três dias porque parava um dia na Madeira e só depois ia até Lisboa. Uma pessoa amiga comprou-me o bilhete de comboio para ir de Lisboa até Paris durante mais dois dias. Sempre sozinha, Palmira chegou a Paris, o amigo dos meus pais estava com a minha fotografia, à minha espera e receberam-me muito bem, fiquei na casa deles como convidada. Levaram-me para todo o sítio, para os ballets, viagens para a Holanda, Suíça.

DL: Quantos anos esteve em Paris?
Uns dois anos com eles. Depois voltei para São Miguel, no ano em que o meu pai morreu. Em casa deles nunca trabalhei, só estudava, fui para a escola francesa, onde tirei um curso de professora de francês, mas também estudei na universidade de Sorbonne onde tirei francês oral e geografia.
Depois de voltar outra vez para Paris, conheci o meu marido lá , ele era do Algarve, e casámos em Paris. Foi um casamento católico só com amigos próximos e o meu irmão de cá. A festa foi num hotel da cidade. A minha filha nasceu em Paris também e ficámos até 1980. Depois quis vir para cá porque a minha mãe estava sozinha. O meu marido veio para cá contra a sua vontade ,porque ele estava muito bem em Paris, mas três anos depois voltou e eu fiquei por cá.

DL: Esteve sempre muito ligada ao piano, correto?
Sim, sempre tive aulas de piano. Ainda antes de existir o conservatório eu tocava com os olhos fechados antes de ir para Paris, tocava em casamentos, dei concertos cá, no Canadá.

DL: Ainda toca?
Há meses que não toco porque o meu salão – onde está o piano – está com caixotes da minha filha que está em mudanças. Tenho um reportório de músicas lindas, é uma terapia para mim tocar piano. Em vésperas de concertos chegava a estudar seis horas por dia, sempre a tocar, tocar enche-me a alma e ainda tenho ali uma música para aprender. Por isso é que no Instituto Cultural já organizei concertos muito bonitos, galas de ópera lindíssimas e as pessoas aderiram imenso e não cabiam todos no teatro, pessoas que desconheciam por completo os autores até.

DL: Como recorda o seu tio Simão?
Era uma pessoa de quem tínhamos muita consideração, fazíamos muita cerimónia quando ele vinha cá almoçar. Nos seus últimos oito anos de vida ele esteve cá em casa depois de ter tido um AVC que o deixou paralisado do lado esquerdo. Nesta sala [onde decorreu a entrevista] tínhamos a cama dele, uma secretária lindíssima, um altar enorme e um oratório. O meu tio gostava muito do silêncio. Às sete da manhã celebrava a missa em latim e a Palmira é que ajudava. Ele era uma pessoa extremamente organizada e exigente. Ele era de tal maneira exigente com o silêncio que nós, com 15 anos, ficávamos irritados. Não havia televisão, ouvíamos música clássica e não se podia fazer barulho. O cão não podia ladrar, o telefone não podia tocar porque lhe interrompia os pensamentos. Na altura não compreendia, mas agora compreendo porque viver num seminário é muito diferente de viver numa casa de família. Ele escrevia todos os domingos para o jornal Açores e eu passava as tardes a copiar os textos dele, não havia fotocopiadoras, ele ficava com o original e eu ia levar ao jornal. Ainda hoje me sinto tão pequenina, tão pequenina porque aqueles vocábulos eram caríssimos, ele era de uma cultura incrível. À mesa, tinha que ficar ao lado dele. Às vezes, a arranjar o peixe, ele zangava-se e perguntava: «então vocês não aprenderam a anatomia do peixe?» – por eu não saber onde tinha mais espinhas. Ele tinha uma grande admiração por mim mas depois fui para Paris. A minha mãe dizia-me: «tu és como o teu padrinho, só estás bem onde não estás». Ele sabia de tudo, era tipo google. Nunca quis ir para bispo, era extremamente humilde, mas toda a gente o tratava por Doutor, ele sempre foi tratado por Doutor Simão porque não era qualquer pessoa que tinha esse título naquela altura. Agora estamos cheios de doutores mas muitos são de meia tigela.

DL: O que sentiu com a homenagem que se traduziu na colocação de um busto do seu tio na Praça de Nossa Senhora da Graça?
Foi uma mistura de emoções. Lembrei-me dele como muito humilde mas como um grande sábio também. Fiquei um bocado emocionada. Sinto que se cumpriu a missão de pelo menos ficar imortalizado na Lagoa para que sobretudo os jovens saibam quem é que ele foi. E o busto ficou bonito. Como ele nasceu nas Alminhas, ali perto, achei que no jardim de Nossa Senhora da Graça ficava mais bonito.

(Entrevista publicada na edição impressa de dezembro de 2020)

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