O Natal é Amor

Matilde Dias Pereira Sabino
Psicóloga Clínica e da Saúde

A noite estava fria. Ao longe ouviam-se cânticos de Natal. Os sinos começaram a tocar para a Missa do Galo. As pessoas entravam felizes em família, as crianças ensonadas e outras dormindo ao colo de seus pais.
José estava como em todas as outras noites, sentado junto à grande porta da igreja, à espera que alguém reparasse nele e lhe desse dinheiro para poder comprar comida para os filhos.
Algumas pessoas que entravam, bem vestidas com grandes sobretudos, deixando perfume no ar, davam-lhe algumas moedas. Ele respondia: “Deus seja louvado e o abençoe”.
Nessa noite, noite de Natal reparou num senhor, muito bem vestido, mas com ar triste. Dirigiu- se a ele e perguntou: “Porque está o senhor tão triste nesta noite santa?” – o senhor levantou os olhos para José e disse: “Solidão. Muita solidão. Sou tão rico e abastado e esta noite passei a consoada sozinho” – José ficou triste por aquele homem e disse-lhe: “Se quiser companhia depois da Missa pode vir comigo. A minha casa é muito pobre, mas é cheia de Amor.” – o homem voltou a levantar os olhos do chão e fitando José, respondeu: “Tem a certeza que não incomodo? Vou sim.” – entrou na Igreja e José também. A Missa começara.
Desde há muitos anos que José assistia à Missa do Galo. Ficava cá atrás para ninguém o ver. Embalado pelos cânticos, o seu peito enchia-se de Alegria e sentia Jesus nascer de novo no seu coração. A Alegria contagiante das cores, os cheiros a incenso e a cedro levavam-no à sua infância feliz. Todos iguais naquela hora a celebrarem o nascimento do filho de Deus.
A Missa terminou e José voltou para o seu lugar habitual, frio e nas sombras. O senhor com quem falara saiu e José apressou-se a chamá-lo para ir a sua casa. O senhor parecia intrigado, mas aceitou o convite. Ao fundo da rua principal entraram numa ruela sem luz e, dirigiram- se a uma casa muito velha, onde se podia ver a luz de uma vela acesa.
Quando entraram, várias crianças vieram recebê-los com Alegria, José viu o senhor sorrir pela primeira vez, chorando. Uma doce senhora, de trajes simples, convidou-o a sentar-se e beber um chá quente e uma fatia de pão.
O senhor contou perante tantos olhos atentos que, trabalhara muito toda a sua vida e enriqueceu muito. Mas no decorrer da vida, e por dedicar-se com grande ambição ao dinheiro, não esteve presente no crescimento dos seus quatro filhos. A primeira perda foi vê-los sair para as suas vidas. A segunda, foi ver partir o amor da sua vida nos seus braços, cansada de lutar contra uma doença cruel. Depois disso, os seus filhos nunca mais voltaram. Escreviam de vez em quando, mas postais de Natal deixara de receber há muito tempo. Não conhecera nenhum dos seus netos.
Chorando e olhando José nos olhos disse: “Solidão. Muita solidão no coração e uma enorme casa vazia.” Uma pequenita muito ruiva e com uns grandes olhos verdes pediu-lhe colo. Limpando as lágrimas, sorriu e sentou a pequena no seu colo que encostou a cabeça ao seu peito e o beijou dizendo: “Fica feliz coração!” – Todos riram com aquele gesto e o ambiente pobre e frio desapareceu e eram só eles o chá e o pão, muitos risos e histórias bonitas.
Tardando a hora, o senhor despediu- se e disse: “Muito, muito obrigada por esta noite maravilhosa, Jesus está onde há bondade e Amor. “- e saiu noite a dentro.
Os dias passaram e a Primavera já queria aparecer. Bateram à porta de José e entregaram-lhe uma carta que dizia: “ O Senhor Francisco da Casa Grande faleceu e deixou-lhe todos os seus bens.” José cheio de tristeza, por não se ter despedido de tão nobre e dorido coração, aceitou grato a doação.
Passados uns dias encontravam-se numa grande casa com todos os confortos e comodidades, grandes jardins para os pequenos brincarem. Eram muito felizes ali. Um dia, José acordou e foi ao escritório onde o senhor passava a maior parte do seu tempo. Sentou- se a olhar para a janela e a lembrar-se daquela noite de Natal especial. Olhou para a gaveta da secretária e abriu-a com sentimento de estar a mexer em algo que não era dele. Quando a abriu encontrou grandes quantias de dinheiro e uma carta a ele endereçada.
“Meu bom e genuíno amigo… apesar de seres rico acolheste este ser pobre em tua nobre casa. Os teus filhos felizes e a vossa família ensinaram-me a lição de toda uma vida. Dar. Dar sem olhar a quem. A Vida é isso. Dar, dar, dar. No fundo todos somos iguais e, precisamos muito uns dos outros. Ensinaste-me tu e a tua querida e amorosa família como é o Amor. Puro, genuíno, que não espera nada em troca. Sei que partirei em breve e, não me ocorre mais ninguém para vir encher esta casa de Amor e Partilha pelo menos uma vez, senão a vossa doce família. Aceita este meu presente, mas mantém-te como és.”
As lágrimas de José corriam pela cara, molhando a carta mais bela que recebera. Cheia de Amor.
José com o dinheiro, mandou construir ao lado da dele, uma Casa Enorme, onde viveriam crianças sem lar e famílias pobres. E lá trabalhava com a sua família, ajudando os Outros.
No Natal desse ano, toda a família de José foi à Missa do Galo. Com a pequena a dormir no colo, olhou para aquele canto onde passara tantas noites ao frio. Sorriu. Quando a Missa terminou voltou a fitar o canto escuro, mas agradeceu por ali ter estado naquela noite em que conheceu o senhor. No entanto, desta vez, viu algo que era claro e iluminava o chão frio. Voltou atrás e encontrou uma nota. Sorriu por ter visto escrito na mesma: “Deus seja louvado”. Arrumou-a no bolso chorando agradecido, e disse: “(…) E que Deus nos abençoe a todos…

Desejo a Todos um Santo e Feliz Natal.

(Artigo publicado na edição impressa de dezembro de 2020)

Categorias: Opinião

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