O Presépio do sapateiro do Cabouco anda

“Lagoa – cidade Presépio, de outubro a janeiro”

Roberto Medeiros

Norberto é um grande homem. Normalmente mudamos de semblante e temos de levantar os olhos, quando o queremos olhar de frente, pois é alto. No entanto e, não obstante ser um grande artista, ter muito talento e chamar a sua casa muita gente, durante a quadra do Natal, para verem o seu presépio, nunca foi fácil a sua vida. Mas uma coisa é certa, tem enorme orgulho de ter conseguido manter a tradição, e ser o único no concelho da Lagoa, com um presépio movimentado.

Um sapateiro que quis construir uma vila presépio com os seus ofícios e atividade social, comercial e até industrial, como a Lagoa FOTO DR

Filho de gente humilde e trabalhadora, experimentou vários ofícios
Desde camponês, guardador de animais ou lavrador, vendedor de pão e sapateiro, foi esta última profissão que lhe proporcionou a oportunidade de se afirmar como artista. Na família havia um sapateiro, mas tal como diz o ditado, “santos da casa, não fazem milagres” e foi mesmo preciso descer ao Rosário, para encontrar lugar de aprendiz, na oficina do Tio Mané Ventura, que ficava em frente da tenda do ferreiro Benevides, ao pé da ribeira que separa aquela freguesia da de Santa Cruz. Atualmente aquela oficina deu lugar a um beco com algumas novas habitações, em frente do Museu do Ferreiro Ferrador do senhor João Benevides.

Norberto aprendeu a ser sapateiro. Seis escudos, era quando ganhava por dia, mas só após saber reparar sapatos. Isso mesmo, só arranjar! Fazê-los não. Só os mais experientes o podiam fazer. A verdade era outra. O patrão Ventura, deu pela malha, que é como quem diz, pela esperteza de Norberto e sendo ambos da mesma freguesia, temia a concorrência no futuro, caso lhe ensinasse demasiado. Norberto ralava-se quando havia clientes para novas encomendas. Eram sapatos para pregões e para casamento, mas Norberto só os via na bancada dos colegas de profissão.

Um dia, por insistência dum familiar seu, o patrão deixou-lhe fazer os sapatos para o irmão que já tinha casamento prometido e anunciava-se os pregões de casamento para breve. O calçado para os pregões do irmão poderia ele fazer, mas os da cerimónia de casamento, o patrão, é que os iria fazer, aceitou resignado Norberto.

Para fazer a história curta, os sapatos que Norberto fez, ajeitou-se bem ao pé do irmão, já os que o patrão fez, mesmo na hora da “boda”, já o irmão os tinha fora dos pés, debaixo da mesa. Norberto aceitou o desafio do destino e numa próxima e conturbada confusão na Sapataria, deixa o Rosário e abre a sua própria oficina no Cabouco.

Um segmento do presépio movimentado do Cabouco FOTO DR

Norberto cresce na sua atividade e tem de fazer serão, por vezes para dar conta das encomendas de sapatos para reparar. Uma noite a sua mulher, estranhando que Norberto trabalhava demasiado e até tarde, vai à oficina e diz-lhe diante do que vê: – “então penso que estás a trabalhar, a restaurar e a concertar sapatos e estás a fazer brinquedos?” Foi então que reparou que ao lado da sapataria tinha nascido um presépio. Não um presépio qualquer, mas um que “andava!”

Aquele era um sonho que Norberto acalentava no pensamento desde sempre, mas que nunca pudera concretizar antes. O seu Cabouco havia de ter um presépio que mais nenhuma freguesia do concelho tinha. Os que haviam antes, e que se movimentavam, que ele gostava tanto, tinham desaparecido, já há anos atrás. Era verdade que Norberto não era eletricista, também é verdade que não era carpinteiro, no entanto, queria construir uma vila com os seus ofícios e atividade social, comercial e até industrial, como a Lagoa.

Tudo tinha de ser feito com vida própria, onde o quotidiano insular aceitasse os heróis da ficção e o menino com a sagrada família na gruta pudesse conviver com o progresso e a evolução dos séculos, desde então até ao novo milénio. Reunindo uma diversidade de materiais, construiu um estrado, levantado do chão, cerca de um metro e vinte centímetros, e foi distribuindo as diferentes personagens que iam dando vida à sua vila presépio. Algumas feitas de madeira, outras de pano e mesmo ainda outras representadas pelos bonecos de barro dos bonecreiros da Lagoa.

Uma série de correias transportam ou deslocam pessoas e bens das
unidades industriais que concebeu para o presépio
FOTO DR

Uma série de correias transportavam ou deslocavam, pessoas e bens das unidades industriais que concebeu. Os artífices movimentam os membros que exemplificam diferentes artes e ofícios, quer do passado, do presente e até do futuro. Desde a enxada, ao arado, à carroça e à viatura mais ligeira ou de estrutura longa, tudo tem a sua funcionalidade no seu presépio movimentado. Amanhar a terra, vindimar e fazer o vinho, ordenhar a vaca ou transportar o leite no veículo longo com autotanque, ou então ver passar a coroação do Espírito Santo a caminho do Império, isto e muito mais é possível ver no presépio movimentado do senhor Norberto Gaspar.

Mas dar uma espreitadela debaixo do presépio é que é um enorme desafio à inteligência de qualquer engenheiro que precisou de queimar as pestanas noites a fio à volta dos livros. A série de correias e polites, de motorzinhos e motorzecos que alavancam os membros dos bonecos, para que subam e desçam e se movimentem em determinada velocidade, ou em determinada direção – é obra!! É uma maravilha da ciência que ganhou saber e forma na cabeça do senhor Norberto. É de se lhe tirar o chapéu!

Um dia o artista plástico famoso, Eduardo Nery disse ao meu amigo, pintor Tomaz Vieira que ao lhe oferecer o vídeo deste presépio, que eu lhe tinha cedido, enviou o recado de que este tinha sido um dos melhores presentes que recebera.

No frontal da entrada para a sala onde está o presépio exposto, o senhor Norberto tem colado à parede uma coleção de azulejos da cerâmica Vieira, pintados com a lista de primeiros prémios, que foi ganhando ao longo dos tempos, em concursos de presépios, levados a efeito pela Câmara Municipal de Lagoa, entre 1990 e 2009, período e que eu fui vice-presidente e vereador da cultura e muito próximo dos artistas bonecreiros da Lagoa.

(Crónica publicada na edição impressa de novembro de 2020)

Categorias: Opinião

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