O que significa ser saudável?

Catarina Rola
Nutricionista
A Sua Saúde Sempre

Saúde não é um “estado de completo bem-estar físico, mental e social”. E também não é “meramente ausência de doença ou enfermidade”. A primeira parte desta formulação está consagrada na famosa constituição fundadora da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotada em 1946. Ela deveria fornecer uma visão transformadora de “saúde para todos”, que ia além da concepção negativa prevalecente de saúde baseada na ausência” de patologia. A importância do tema ganhou projeção internacional a ponto de, a partir de 1950, a OMS definir o 7 de abril como o Dia Mundial da Saúde.

O Dia Mundial da Saúde é uma oportunidade de alertar a sociedade civil para temas-chave na área da saúde que afetam a humanidade, além de desenvolver atividades com vista à promoção do bem-estar das populações, tal como a promoção de hábitos de vida saudáveis. Mas afinal o que é a saúde? O que significa ser saudável?

Diferentes visões e definições acerca do que se tem de saúde e doença permeiam a história da humanidade, sobretudo a inserção desses conceitos sob os contextos cultural, social, político e económico. Dito isso, a conjunção do físico, psicológico e social permanece fortemente relevante até hoje. Na verdade, esse quadro deve ser estendido em duas dimensões mais. Primeira, a saúde humana não pode ser separada da saúde da biodiversidade do meio ambiente. Os seres humanos não existem num vácuo biológico. Vive-se numa existência interdependente com a totalidade do mundo vivo. A segunda dimensão está no reino inanimado. O mundo vivo depende de uma interação saudável com o mundo inanimado. Graças à ciência das mudanças climáticas, agora entende-se bem como o bem-estar humano depende da “saúde” dos sistemas de troca de energia da Terra. Coabita-se, portanto. Ser mais humilde quanto à experiência dos indivíduos, em vez de simplesmente elaborar boletins reduzidos ao seu estado de saúde, abre a possibilidade para uma compreensão mais realista do que significa ser saudável. O fato é que ninguém pode ser saudável numa sociedade doente. Este princípio foi estabelecido com maior clareza por um médico francês, Georges Canguilhem, no seu livro The Normal and the Pathological, no qual o médico rejeitava a ideia de que existissem estados de saúde normais ou anormais. Ele via a saúde não como algo definido estatisticamente ou mecanicamente. Em vez disso, Canguilhem via a saúde como a capacidade de se adaptar ao ambiente. A saúde não é uma entidade fixa, variando de indivíduo para indivíduo, dependendo das circunstâncias a que o mesmo está sujeito. A saúde é definida não pelo médico, mas pela pessoa, de acordo com as suas necessidades funcionais. O papel do profissional de saúde é, assim, ajudar o indivíduo a adaptar-se às suas condições únicas prevalecentes. Este deve ser o significado de “medicina personalizada”. A definição de saúde deste médico é igualmente libertadora. Ao usar a adaptabilidade como teste de saúde, torna-se possível abordar as circunstâncias variáveis da doença, permitindo responder às doenças globalmente, levando em consideração o contexto das condições num determinado lugar e tempo. A saúde é, desta forma, definida como uma ideia elusiva e também motivadora, pois ao substituir a perfeição pela adaptação, aproxima-se de um programa de medicina mais compassivo, reconfortante e criativo – um programa para o qual todos podem contribuir.

Contamos juntamente com o progresso da ciência – novos tratamentos e tecnologias – que levam a uma melhor gestão de doenças crónicas e melhores resultados de saúde. E isso fez uma diferença significativa na esperança média de vida. Hoje em dia, a ausência de algumas doenças é tida como certa. Por exemplo, doenças infantis frequentemente devastadoras, como poliomielite e sarampo, foram amplamente erradicadas por meio da vacinação. Além disso, os avanços na detecção precoce, medicação, tecnologias e estratégias de tratamento agora existentes, possibilitaram às pessoas sentirem-se saudáveis – não porque a doença esteja ausente, mas porque a mesma pode ser controlada de forma mais eficaz. Tal como acontece no caso de doenças cardiovasculares e metabólicas, por exemplo, hoje em dia tão prevalentes.

O conceito de bem-estar também mudou com o tempo. Alguns fatores relacionados à saúde e bem-estar são relativamente universais: Dieta com baixo teor de açúcar, gorduras saturadas ou alimentos processados e com alto teor de hortícolas, gorduras saudáveis e proteínas magras. Hidratação. Evitar comportamentos prejudiciais à saúde, incluindo o uso excessivo de álcool, tabagismo, estilos de vida sedentários – ou alternativamente, muito stressantes. Ser ativo ou praticar exercício regularmente. Dormir o suficiente. Saúde mental. E estabilidade económica. Obviamente, muito do que foi dito anteriormente é mais fácil dizer do que fazer. Mas a maré continua a mudar no sentido do bem-estar, à medida que a indústria do fitness, a ciência e a legislação se atualizam. Além disso contamos hoje com o avanço tecnológico, qual veio transformar totalmente a maneira como se trabalha, se comunica e se entretém. À medida que a tecnologia diminui a carga física associada ao trabalho – repare como é mais fácil cortar a relva hoje do que há 70 anos – as pessoas alcançam maior liberdade para se envolverem em atividades recreativas. Ainda o acesso fácil a aplicativos e dispositivos através dos quais se pode rastrear passos, contar calorias consumidas, monitorizar padrões de sono, praticar meditação ou controlar o stresse motiva o indivíduo a participar ativamente na sua jornada de saúde e bem-estar.

Todo este conjunto de ideias evidencia uma evolução da saúde humana, uma vez que passa a ser considerado um maior grau de complexidade de interseções desses ideais. Ainda, vale ressaltar que o significado de evolução aqui atribuído está associado a uma visão darwinista do processo. Ou seja, não traduz, necessariamente, um cenário de constantes melhorias ao longo da história. Enfatizo, assim, a responsabilidade de cada indivíduo em mudar os seus comportamentos para melhorar a sua saúde. Tal como, a responsabilidade dos serviços de saúde pública e respetivos profissionais, na priorização dos cuidados de saúde primários.

(Artigo publicado na edição impressa de abril de 2021)

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Categorias: Opinião

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