“O seminário é a minha segunda casa”

Seminarista lagoense está a pouco mais de um ano de se tornar padre. Em entrevista ao DL, André Furtado, 25 anos, natural do Rosário, fala do seu percurso, nem sempre fácil, e do que entende que deve ser a Igreja nos tempos que correm

André é natural da freguesia de Nossa Senhora do Rosário, na Lagoa © D.R

DL: Como surgiu a vontade de ir para o seminário?
Bem, não é fácil de explicar, porque são vários acontecimentos ao longo da nossa vida que nos vão marcando. Mas o grande momento, foi o exemplo que tive dos párocos desde a altura em que era acólito. Desde pequenino sempre tive este gosto pelas coisas de Deus e de saber mais sobre Deus. Depois de ter discernido e ter concluído o décimo segundo, criou-se esta vontade de ir para o seminário. Porquê? Porque eu gosto de estar com as pessoas e de servir as pessoas. E vejo na figura do padre, a pessoa ideal para estar ao serviço dos outros. Isto para mim é onde vou encontrar a minha felicidade, por isso é que entrei para o seminário.

DL: Depois dá-se a separação da família e vai para Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Como foi esse momento?
Sair do colinho da mãe, do calor de casa, dos amigos, não é fácil. Para quem vai para a universidade, também não é fácil. Sempre fica uma ligação por via telefónica, por e-mail, por via dessas comunicações sociais, mas não é a mesma coisa. Ganhamos uma maior autonomia. Vir para o seminário deixando a família, deixando os amigos não foi uma tarefa fácil, não vou mentir, mas com a ajuda dos professores, do diretor espiritual do seminário, fui sobrevivendo a esta dificuldade e acredito que ganhei uma maior maturidade.

DL: A adaptação foi fácil?
Foi um pouco difícil porque no seminário nós temos regras rigorosas, horários a cumprir, não só o horário escolar, mas também o próprio horário da comunidade. Viver em comunidade também é um pouco difícil. Nós chateamo-nos com alguém na escola ou no trabalho, vamos para casa e aquele problema fica no trabalho ou fica na escola. Aqui não, aqui é ao contrário, se nos chateamos com alguém estamos a ver essa pessoa 24 horas sob 24 horas. Crescemos, basicamente nós crescemos.

DL: Sente que no seminário criou uma família?
Sim, o seminário é a minha segunda casa, é a minha segunda família e já costumo a dizer que a ilha Terceira é a minha família. Durante os fins de semana temos o trabalho pastoral, isto é, vamos para as comunidades aqui na ilha Terceira, trabalhamos com estas comunidades e criamos amizade. “Os nossos pequenos hoje vêm para cima”, dizem eles. Há sempre este calor humano que nós sentimos. O que muitas vezes nos dá força para continuar nas alturas de fragilidade, nas alturas de crise vocacional.

DL: Ao longo desse tempo em que está no seminário, sentiu alguma vez que não era esse o caminho?
Sem dúvida que há momentos que fazem pensar se é isto que eu quero para a minha vida. Houve alturas que eu vacilei e até posso dizer que as malas estiveram atrás da porta para ir para casa. Nas alturas em que temos o retiro e o retiro mensal, isto faz-nos pensar, se é isto que nós queremos para a nossa vida. Reconheço isso, mas isso é importante porque faz-nos crescer e ter os pés bem assentes na terra.

DL: Considera que a formação que uma pessoa tem no seminário, mesmo que não se venha a ser padre, é para a vida?
Sim. A formação no seminário é rigorosa, assenta em três pilares: ao nível da espiritualidade, ao nível humano e intelectual, e ao nível académico, porque nós também temos que estudar as sagradas letras e a teologia para podermos responder à espiritualidade e podermos formar os nossos leigos. Os leigos devem ser o centro da Igreja.

DL: Recentemente teve um momento importante. O que significou para si e em que consistiu?
No passado dia 1 de novembro fui instituído, juntamente com dois colegas, no ministério de leitor, na Sé Catedral de Angra pelas mãos de D. João Lavrador, atualmente bispo de Viana. Foi o dia em que também D. João se despediu da diocese de Angra para um novo projeto. Esta instituição de leitor, e futuramente de acólito, é o primeiro grande passo para a ordenação presbiteral. Estas instituições de acólito e de leitor, são instituições laicais, para os leigos, que qualquer pessoa pode receber. Até ao ano passado somente os homens o podiam receber, mas o Papa Francisco mudou esta regra e agora estamos a entrar numa fase em que as mulheres também poderão ser instituídas. Mas no meu caso e dos meus colegas, foi o nosso primeiro grande sim à ordenação de diácono. Futuramente, para o próximo ano civil [2022], ainda não se sabe quando, haverá a próxima instituição de acólito. Depois, se Deus quiser, e os Homens deixarem, serei ordenado diácono e depois é a ordenação presbiteral.

DL: Sonha com esse dia?
Sim, atualmente ainda mais porque já estou há seis anos no seminário e para o ano será o último ano letivo. É claro que o sonho que eu tinha há uns anos atrás está mais perto e a responsabilidade é outra, perante os meus colegas, aqui no seminário, perante a sociedade, na ilha Terceira, e na minha terra, na Lagoa, porque já me vêm como futuro padre.

DL: Há falta de padres?
Na nossa região não há, a meu ver. Mas estamos a caminhar para a realidade de Portugal continental que já está com falta de padres há alguns anos.

DL: Considera que isso, em parte, se deve a um afastamento das pessoas em relação a Deus?
Não digo tanto a Deus mas pelos exemplos que a Igreja atualmente está a dar, afasta muita gente da Igreja. E nós como jovens, futuros padres, temos essa missão de reconstruir essa má fase que a Igreja está a passar. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maiomé porque as nossas igrejas, ano após ano, estão a ficar um pouco vazias e o padre tem a responsabilidade de ir ao encontro.

DL: A Igreja tem de se reinventar?
A Igreja tem de acompanhar a evolução do mundo. Costumamos dizer que o nosso tempo não é o tempo de Deus. Aquilo que queremos, muitas vezes, não é o momento ideal de fazermos uma renovação. A pandemia veio abalar a fé. Muitas pessoas questionaram se isto não era um castigo de Deus, claro que foi um desafio, com as igrejas fechadas. Depois de passar a pandemia é que vamos ver o que é que ficou. Quando isto passar, vamos assistir a uma crise a todos os níveis.

DL: Isso não será um motivo para que as pessoas procurem ainda mais a Igreja?
Penso que será motivo para pararmos e refletirmos no que queremos da nossa vida. Isto é incerto, este tempo de duração da pandemia. Será um grande desafio e temos de ir ao encontro. A igreja é mãe e não gostamos de ver nenhum filho sofrer. Nenhum filho gosta de ver a sua mãe sofrer também e a Igreja deve ir ao encontro. Se é aquela que se fecha, esqueceu o seu caráter de missão, evangelização, deixou de ser Igreja. Tem de ir à periferia que tanto fala o Papa Francisco.

DL: Vê com bons olhos uma maior participação das mulheres na vida da Igreja?
Sim, concordo com a visão do Papa Francisco. Se repararmos, atualmente, a maioria que está na Igreja são mulheres, nos grupos corais, catequistas, na assembleia. Se isto é a realidade porque não a mulher ter um papel mais importante na Igreja? É muito importante deixarmos de pensar que só o homem é que é importante. E o Papa Francisco está a dar atenção às mulheres realçando isso.

DL: A futura atribuição de uma paróquia fora de São Miguel assusta-o?
Desde o Corvo a Santa Maria, uma delas poderá calhar. Se me mandarem para o Corvo, uma ilha pequenina, sei que vai ser um trabalho difícil, mas é povo de Deus. Se for para São Miguel, é povo de Deus também. Se eu tenho esta finalidade de ser feliz e dar a minha vida aos outros, claro que implica riscos mas quero servir este povo de Deus, seja onde for.

Clife Botelho

Entrevista publicada na edição impressa de janeiro de 2022

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