O verão é sinónimo de recuperação para o comércio? “As coisas ainda estão muito estagnadas”

Em tempos, o verão de 2021 foi apontando como o momento de recuperação económica pós-pandémico. Já se sente uma tímida melhoria, mas as dificuldades ainda persistem

Em cima: Natércia Rego e Rita Moniz da Casa Batista e Pedro Rodrigues de A Decoradora.
Em baixo: António Reis da HB Phones e Teresa Furtado da loja Terezinha.
© D.R.

As baladas da igreja do Rosário, no coração da Lagoa, pontuam a vida na cidade. São poucas as pessoas que circulam na rua. Na praça central, há homens nos bancos de jardim, com a máscara abaixo do nariz, a recordar velhas histórias. O sol vai espreitando por entre as nuvens densas, com raios que escapam entre as folhas das árvores. É uma entrada tímida do verão.

Por esta altura, já se esperavam dias mais claros e reluzentes. Por esta altura, também já esperava que a pandemia da covid-19 fosse uma miragem distante e que o verão de 2021 trouxesse consigo a tão aguardada recuperação económica. Uma recuperação que, tal como o sol, vai espreitando timidamente entre os comerciantes da Lagoa.
“Ainda estamos em pandemia. O negócio está a recuperar devagarinho”, começa por dizer ao Diário da Lagoa (DL) Teresa Furtado, responsável pela loja Teresinha, localizada ali perto da praça do Rosário. Vivendo sobretudo da venda de roupas para cerimónias, a comerciante ressentiu-se do ano anterior. “Estive fechada, completamente fechada, não havia festas”, diz, quando questionada sobre se a quebra foi muito grande.

Agora, o mundo vai retomando progressivamente a normalidade. Apesar de longe de atingir os volumes de vendas de anos passados, já existem indicadores positivos. “Visto que minha loja só vende para cerimónias, já há casamentos, comunhões, batizados, umas festinhas… claro que não é como em 2019, mas devagarinho vamos recuperando”, explica Teresa, defendendo que se pode “fazer tudo” em período de pandemia desde que “haja segurança”. Para os próximos tempos, as previsões é que se “continue a recuperar passo a passo”, sempre com a esperança de que o “pior já passou” e de que “devagarinho se vai longe”. “O dinheiro é que faz girar mundo, não havendo festas a gente não vende. Eu vivo disso”.

Em outros ramos de negócio, a retoma parece mais lenta. Em frente à Loja Teresinha, o espaço A Decoradora vende mobiliário, artigos para casa e artes decorativas. “Ainda não se sente uma recuperação e quem disser o contrário não está a ser 100% sincero. Neste momento, as coisas ainda estão muito estagnadas, é este o termo correto”, diz o gerente Pedro Rodrigues.

O empresário exemplifica: basta ficar cinco minutos a “olhar para a rua” para se verificar que o “movimento de pessoas é pouco ou nenhum”. Pedro Rodrigues diz, ainda assim, que existe uma “melhoria” em relação ao ano passado, “mal seria” se assim não fosse. Contudo, é uma “ligeira recuperação”, que não chega para compensar os “custos de manutenção” inerentes a uma empresa, como a água, a luz, as contribuições à segurança social e o pagamento a fornecedores. “O movimento atual não sustenta essa necessidade de ter uma empresa aberta”, afirma.

Como é que se mantém então um negócio aberto perante essas dificuldades? “Aguenta-se com aquilo que já se trabalhou e com alguma ginástica financeira”, responde. Se o cenário atual é complicado, para o futuro as previsões “só podem ser melhores”. Pedro Rodrigues, que já foi presidente do Núcleo Empresários da Lagoa (NELAG), enaltece o trabalho daquele núcleo em parceria com a Câmara Municipal da Lagoa, que dá um “ânimo aos empresários” e permite ter “uma perspetiva positiva em relação ao futuro”. “Esperemos que daqui para a frente as coisas melhorem”.

“As pessoas não estão a comprar como compravam antes”

No meio da imprevisibilidade provocada pela crise da pandemia, os estabelecimentos comerciais não foram todos afetados da mesma maneira. Se para a maioria das empresas o ano de 2020 foi péssimo e o de 2021 representa a retoma possível, para a HB Phones a situação é diferente.

“Nós fomos o contrário dos outros porque quando no ano passado, em março, em abril e mesmo nos meses seguintes rebenta a covid nós disparamos as vendas”, recorda António Reis, da HB Phones, loja de informática e comunicações. É que uma das consequências da pandemia foi a adoção em massa do teletrabalho e do ensino à distância. Foi uma aceleração da vida digital.

“Ficando em casa”, as “pessoas precisavam de tablets e de computadores” para dar resposta às novas necessidades. A procura foi tanta que tiveram dificuldades em encontrar soluções. “Houve uma enorme procura neste aspeto. Nós tivemos muita rutura de stock, tivemos de procurar várias parcerias até fora do país, porque, na altura, muitos portáteis e tablets deixaram mesmo de existir no mercado”.

Por isso, a HB Phones não foi arrastada para a turbulência da crise pandémica. Para eles, o verão de 2021 significa uma retoma à normalidade, depois de uma subida em flecha das vendas. “Naqueles primeiros meses houve uma grande adesão e uma grande procura. Agora já começa a estabilizar e a voltar ao normal”.

Contudo, para a maioria dos negócios a esperança reside no verão deste ano, que se afigura como a oportunidade de as empresas subirem à tona da água para respirar, depois de meses de aflição. O problema é que a normalidade teima em chegar. E, quando chega, vem devagarinho. “Está um bocadinho melhor, mas não é nada comparando com o antes da pandemia”, diz Rita Moniz, da Casa Batista, localizada em plena avenida infante Dom Henrique, dedicada a todo o tipo de roupa e calçado. “Temos a perfeita noção de que as coisas estão um bocadinho fracas porque as pessoas não estão a comprar como compravam antes. É totalmente diferente”, conclui.

Rita Moniz também faz questão de frisar que o ponto de partida para uma recuperação é “muito baixo”, uma vez que 2020 foi um “ano assustador” devido à “quebra enorme”. Para já, neste verão, são poucas as pessoas que andam pela rua. A falta de eventos, sejam públicos ou privados, também “afeta os negócios”. “Não tendo eventos, as pessoas não precisam de comprar”, diz, dando um exemplo concreto: “as crianças, por exemplo, quando ficam em casa, gastam muito menos roupa e sapatos, e depois, claro, mesmo nos adultos, nós notamos diferença quando surgem eventos ou festas”.

Num cenário tão imprevisível, não vale a pena fazer planos a longo prazo. “É viver um dia de cada vez” à espera que os clientes – tal como o sol – apareçam neste verão. “Acho que todos nós tínhamos a esperança de que este ano já tivesse um bocadinho melhor. Sempre ouvimos que o verão era a altura é que as coisas iriam ficar melhor. Vamos ter esperança que ainda melhore”.


Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição impressa de agosto de 2021

Categorias: Reportagem

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