Obesidade, diabetes e urbanismo

João Anselmo
Médico-endocrinologista

Nas últimas décadas a prevalência da obesidade e da diabetes tem vindo a aumentar um pouco por todo o todo o lado. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a diabetes possa atingir em 2030 cerca de 640 milhões de pessoas em todo o mundo, ou seja cerca de 2 milhões em Portugal e aproximadamente 40.000 na Região Autónoma dos Açores. Para fazer face a esta crescente onda epidémica de doenças crónicas não transmissíveis, cujas repercussões na saúde e bem-estar das populações são já alarmantes, médicos, investigadores e decisores políticos têm vindo a colaborar no sentido de serem estabelecidas e implementadas medidas preventivas eficazes. O planeamento urbano é um dos aspetos que tem merecido a maior atenção nos últimos anos. E faz todo o sentido se tivermos em conta que nos anos cinquenta do século passado cerca de 1/3 da população mundial vivia em áreas urbanas, número que ultrapassa atualmente os 50% da população global e poderá mesmo atingir os 80% em algumas regiões do globo. Torna-se assim imperativo repensar o planeamento urbano e adequar o espaço de construção a novos padrões de urbanidade que têm demonstrado uma influência não negligenciável na prevenção daquelas doenças. Após décadas de culto do automóvel, eis-nos perante uma nova cultura orientada no sentido de formas ativas de transporte como andar a pé ou de bicicleta. A chamada “cultura do automóvel ” que teve o seu apogeu nas décadas de 60 e 70 do século passado, promoveu a expansão urbana, que valorizou os subúrbios como áreas residenciais privilegiadas, distanciando assim a habitação dos restantes aspectos do quotidiano das pessoas, como fazer compras, ir à escola ou para o trabalho, tarefas que obrigatoriamente envolviam o carro. E assim surgiram expressões como “no parking no business”, “drive in” ou “drive-thru”. Mas os tempos são de mudança. A escalada da obesidade e da diabetes resultante, entre outos fatores, do excesso de sedentarismo associado ao transporte automóvel, dos múltiplos choques petrolíferos, o mais recente dos quais em consequência da guerra na Ucrânia, e até do condicionamento decorrente das alterações climáticas, mudaram o paradigma do nosso tempo.

Nas últimas duas décadas o conceito de walkability, forjado ainda nos anos 60 do século XX, ganhou um novo fôlego no planeamento urbano, em consequência do crescente número de evidências científicas que têm demonstrado um papel ativo da mobilidade pedonal na prevenção da obesidade e a diabetes. Confesso que apesar de intuitivamente perceber o significado da palavra walkability, não tinha a certeza de qual a sua melhor tradução em português. Mas recentemente ouvi de um médico autarca, neste caso o Prof. José Manuel Silva, antigo Bastonário da Ordem dos Médicos e atual presidente da Câmara Municipal de Coimbra, aquela que considero tradução em português que me parece mais adequada. A palavra pedonalidade ajusta-se ao conceito de walkability, ao contrário de caminhabilidade, esta última muito ao gosto das traduções brasileiras. Tem lógica que tenha sido um médico-autarca a definir uma tradução mais rigorosa na língua de Camões, isto porque ao fazer a ponte entre a medicina social e o urbanismo, deve ter-se apercebido da inconsistência da tradução brasileira, ultrapassando assim um neologismo que corria o risco de impregnar a linguagem técnica, não só na área da medicina mas também na arquitectura e planeamento. Podemos definir pedonalidade como um conjunto de características de uma determinada zona ou região urbana em que a mobilidade pedonal assume um papel fundamental, ou dito de outra forma, a facilidade com que um indivíduo pode circular a pé e resolver na sua área de residência aspectos primordiais do quotidiano como fazer as compras, ir e regressar a casa do trabalho ou da escola, frequentar estabelecimentos de lazer como bares, ginásios, piscinas, frequentar locais de culto etc. É conveniente reforçar a ideia de que fomentar a pedonalidade não é necessariamente sinónimo de proibir a circulação automóvel, uma confusão de que padecem alguns autarcas pouco familiarizados com os trabalhos publicados e que sustentam a modificação urbanística no nosso tempo.

Estudos realizados ao longo da última década em muitas cidades da América do Norte, desde Toronto no Canadá a São Francisco nos Estados Unidos, passando por diversas capitais europeias, têm demonstrado que as áreas urbanas com elevados índices de pedonalidade estão associadas a uma maior atividade física espontânea, também designada por atividade física não programada da população residente, o que diminuiu o risco de doenças como a obesidade e a diabetes, isto em oposição aos subúrbios residenciais com casario isolado e dificilmente acessíveis a outro meio de transporte que não seja o automóvel. Abriu-se assim uma brecha no conceito clássico de que a transferência da população das zonas residenciais urbanas para vivendas uninominais nos subúrbios das cidades estaria associada a ganhos de saúde e bem-estar. Pelo contrário, a mudança da população da primeira para a segunda tipologia residencial mostrou estar associada a uma deterioração dos indicadores metabólicos, isto com os necessários ajustamentos para idade, para o status sócio-económico e etnia.

A divulgação dos resultados destes estudos, alguns deles envolvendo mais de um milhão de residentes, mobilizou muitas sociedades científicas na área da diabetes e da obesidade e da saúde em geral, incluindo a OMS, que têm pressionado os decisores políticos no sentido de aumentar os meios ativos de transporte nas zonas residenciais. Como consequência, traçaram-se ciclovias em zonas em que elas eram simplesmente impensáveis; inventaram-se circuitos pedonais que ganharam um estatuto privilegiado nos centros urbanos, da mesma forma que se multiplicaram os trilhos pedestres um pouco por todo o lado; Reforçou-se a segurança e a acessibilidade dos peões nos centros urbanos. Tudo isto contribuiu para melhorar a mobilidade pedestre nas cidades. Mas o conceito de pedonalidade é mais vasto do que o simples mover-se a pé, implica uma mudança na estratégia urbanística das cidades de forma a que elas se mantenham atrativas como áreas residenciais e não apenas como simples circuitos pedonais de fim-de-semana ou para turistas.

O que a pandemia COVID-19 tem vindo a demonstrar é que a saúde das populações depende muito de como os especialistas de vários sectores da sociedade são capazes de congregar os seus esforços e de trabalhar em conjunto para o bem-estar de todos. Certamente que uma estratégia similar será também necessária na abordagem da obesidade e da diabetes. O primeiro ponto que necessita de ser convenientemente explicado às populações é que as mudanças urbanísticas não têm apenas funções recreativas ou são a expressão de uma qualquer moda, mas têm, isso sim, um impacto direto na saúde de todos, na própria saúde dos decisores e da população em geral. Mais, estas decisões urbanísticas não são uma consequência da especulação imobiliária, mas o resultado de uma nova visão com base científica de como se pode melhorar a qualidade vida da população através da prevenção de doenças crónicas que ameaçam reverter os ganhos em saúde registados ao longo das últimas décadas. Indicadores da qualidade de vida e a própria esperança média de vida, apresentam indícios de regressão.

Categorias: Opinião

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