Onde te posso encontrar?

Matilde Dias Pereira Sabino
Psicóloga Clínica e da Saúde

Ainda te tenho no pensamento. O relógio para quando recebemos uma notícia carregada de dor… Passou- me tudo à frente, como um comboio que me atropelava carregado de memórias, cheiros, palavras, risos, lágrimas, aniversários, olhares e cumplicidade. Sentimento. Saber que nunca mais te poderia ver, tocar ouvir e sentir foi inconcebível para mim. Sim sou egoísta. Sofro de um mal terreno chamado Apego. Nós seres humanos agarramos o que amamos com toda a nossa força, de tal modo, que o ser amado ou querido, se torna parte de nós. E como saber viver pela metade? ou sem algumas partes de nós? Eu não sei. Ensina- me. Não sei bem onde estás, mas sinto- te comigo.

Os anos passaram e ainda te sinto. Como no último dia em que estivemos juntos. Uma memória tão viva que até dói quando me lembro. Hoje era o dia em que farias o teu aniversário e, como és parte de mim, a outra parte comemora e celebra. Mas não se celebra um aniversário chorando por dentro. Falo contigo. Em pensamentos e no coração, pois sei que me ouves.

Procurei- te na praia, na igreja, no jardim onde brincamos, em tua casa, na minha e onde o teu corpo jaz, mas não te encontrei.

Existe Céu? Deve existir, porque não imagino um Céu sem ti. Em festa por te ter. Sinto-te na brisa como que a contar-me coisas ao ouvido e a beijar-me a face.

A morte é cruel, porque separa as almas que se amam. Será que pensas o mesmo? Onde estás? É bonito aí? Estás feliz? Será que voltaremos a estar juntos?

Lembro-me do dia em que me disseste que era a tua melhor amiga. Fiquei tão feliz, porque o meu coração sentia o mesmo. Dois corações unidos para sempre. E sou devota a essa amizade e a essa promessa. Não me levaste tudo afinal. O meu sentimento ficou a alumiar a tua memória.

Muito se passou desde que partiste, mas tenho a certeza que assististe a tudo e, comemoraste, que choraste e me abraçaste sem que eu te pudesse ver.

A Vida é assim. Cheia de chegadas e partidas. Comemoram-se os nascimentos, mas não a morte, que afinal, é também uma passagem.

Não posso ser egoísta, porque ninguém é de ninguém e, cada um vem fazer o seu Caminho. Os Caminhos é que se cruzam e duro é ver o comboio chegar e depois partir, tantas vezes, sem aviso.

Se calhar é mesmo assim. Como numa peça de teatro. Uns continuam a atuar e os outros também, mas num palco escondido em que o pano, não nos deixa ver uns aos Outros.

E somos felizes. Cada um no seu palco, na sua dança de liberdade. Sorrindo e mandando Amor uns aos Outros.

Já encontrei o Céu. Fica no meu coração desde o dia em que entraste nele. Então, estás vivo! vamos celebrar, porque o coração é o nosso Lar e o Amor a nossa Verdade.

Afinal, nunca me disseste adeus, estás só do outro lado do pano a rir e a brincar como sempre fizeste. E eu continuo aqui, no palco que por enquanto conheço a fazer o melhor que consigo.

Já sei onde te posso encontrar. Dentro de mim, porque nenhum Caminho se cruza por acaso e eu, tive a sorte de me ter cruzado com o teu. Até um dia, de novo ao vivo, quando os nossos corações baterem juntos, ao ritmo do nosso Amor.

Em memória de uma pessoa muito especial.

Categorias: Opinião

Deixe o seu comentário