Opinião: Elogio ao brinquedo popular

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Ainda com os olhos cheios de uma visita recente ao Museu do Brinquedo em Nuremberga e sendo o primeiro de junho dedicado a assinalar o Dia da Criança, tenho o pretexto perfeito para abordar um tema que me agrada: o brinquedo popular, aquele que é produzido pela criança ou por alguém próximo, sem recorrer a uma mão-de-obra especializada. O interesse pela área devo a João Amado, que tive a fortuna de ter como professor.

Certamente fará parte das memórias da infância de quem lê estas linhas, os tempos em que tudo servia para fazer um brinquedo. Com simples canas e folhas, um rapaz transformava-se num índio munido com o seu arco e flecha, ou num corajoso cowboy que desbravava os terrenos, montado num singelo cavalo de pau. As meninas aproveitavam a vegetação local para as suas brincadeiras de culinária, e recorriam ao desfolhar dos malmequeres para encontrar a resposta às suas curiosidades. Havia também as bolas, as de pano que inundavam as ruas, e as feitas com bexigas de porco que serviam de entretenimento na altura das matanças.

O que alguns que me lêem podem desconhecer é que boa parte destes brinquedos remontam a tempos imemoriais, alguns são universais, outros são específicos de determinada região, ambos têm como um dos seus propósitos o intento da criança se introduzir no mundo que a rodeia, muitas vezes miniaturizando-o. É sobretudo por isso que o brinquedo popular permite-nos conhecer contextos socioculturais de uma época, de um povo, de uma região e possibilita aceder a formas de pensar e a crenças. Não será a fisga uma alusão a instrumentos de caça de outros tempos, ou os carrinhos feitos com carrilhos de milho uma alusão aos carros de bois?

Mergulhar nas idades dos brinquedos, é conhecer os nossos antepassados. O arco e a gancheta, com função atualmente lúdica, na Antiguidade servia para prestar culto ao Sol. O jogo das saquinhas ou das pedrinhas na Antiga Grécia (200 a.C) ou na China (207 A.C. – 220 D.C), estava associado a práticas divinatórias. Já os papagaios têm o início da sua história no Oriente, e surgiram para fins militares.

Há muito que a importância do brinquedo e do jogo é reconhecida. Platão referiu que eram um veículo para conduzir à aprendizagem e favorecer a socialização. Comenius sublinhou as virtudes do faz-de-conta e defendeu que os brinquedos eram modelos inteligíveis do mundo. John Locke, inspirando-se nas ideias de Platão, realçou o contributo daqueles para a formação do espírito, valorizando o popular em detrimento do comercializado.

Estes brinquedos, que sobreviveram ao longo de séculos, estão a extinguir-se dos nossos lares,  ruas e recreios. Nas últimas décadas, para além do industrial ter ganho adeptos, assistiu-se a uma deslocação dos locais de produção: a indústria chinesa é responsável por mais de 70% da produção que circula no mundo, levando à existência de um fosso entre produtor e consumidor. O brinquedo tende a perder a sua característica de reflectir especificidades de uma região e as empresas têm apostado numa publicidade feroz direccionada aos mais novos para consumo dos seus produtos.

Não sei o que diria Platão, Locke ou Rousseau dos brinquedos dos dias de hoje. No entanto, sei o que dizem alguns dos idosos das formas de brincar dos dias de ontem. Sei o que dizem os meus afilhados e outras crianças quando, por um par de horas e num verdadeiro exercício de engenho, têm a ventura de fabricar os seus próprios brinquedos.

Enquanto agentes educativos urge que nos importemos e que dêmos continuidade à transmissão de saberes fazeres para a produção de brinquedos e no ensino das formas de brincar.

Termino recorrendo às palavras de João Amado que refere que “produzindo e utilizando estes brinquedos, toda a criança foi equilibrista e pintora, ceramista e botânica, arquiteta e caçadora, lavradora e escultora, tecedeira e investigadora… e tudo o quanto pôde aprender na principal das escolas – a RUA! Imitando, utilizando a imaginação criadora e cooperando na produção destes brinquedos, ela incorporava a memória cultural da sua comunidade”.

Teresa Viveiros

cronica teresa_Fotografia do Arquivo da Biblioteca Pública de Toronto

(c) Arquivo da Biblioteca Pública de Toronto, 1922

Categorias: Opinião

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