Opinião: O Mundo e o Tempo

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“Que o diga o tempo, pois, embora mudamente surdo, ele é o único que, sem dizer nada, diz tudo!… (Pedro Calderón de la Barca).

Escrevo a crónica deste mês em Hamilton, na ilha norte da Nova Zelândia. É uma “pequena” cidade na comparação com as grandes urbes mundiais, mas, para os neozelandeses, com 150 mil habitantes, ela torna-se a quarta maior do país.

Um país que, para muitos, é um mito, é místico, ou faz parte das recônditas possibilidades para uma viagem de sonho.

Estou aqui, nos antípodas dos Açores, pela segunda vez. E pela segunda vez tenho a sensação de que, afinal, o mundo pode ser um local fantástico para se viver.

E pode sê-lo por razões exclusivamente culturais. Mas também por razões comunicacionais. Sobretudo, por algo a que, muito prosaicamente, chamamos “boas práticas”, “bons hábitos” de convivência, percebendo que o mundo só pode mesmo ser um local extraordinário se o for para nós mas, também, para o que connosco se cruza.

A estrutura e a organização de uma sociedade revelam-se nos mais básicos pormenores, em detalhes que, muitas vezes, só de soslaio olhamos. E o neozelandês preocupa-se com a sua vivência e convivência.

Olha para a limpeza como um fator diferenciador. Encara-a como uma responsabilidade coletiva.

Sublinha o civismo como um fator revelador. Demonstra-o no respeito pelas regras de trânsito, que todos (condutores e peões) cumprem escrupulosamente, ao pormenor quase ínfimo de esperar – ainda que não se vislumbre veículo a quase meio quilómetro… – pela libertação de um sinal verde para atravessar a rua.

Sustenta a simpatia com um fator motivador: um sorriso desencadeia um sorriso. E sorri. A cada movimento, a cada esquina, em cada estabelecimento. E fala pelos cotovelos de coisas simples como o tempo, a paisagem, o trânsito ou a família.

Vê-se que anda feliz. Vê-se que tem tempo para ser feliz. Que, a si próprio, concede a benesse do tempo como se dela e dele dependessem – e dependem – o seu conceito de qualidade de vida.

Aqui há tempo. Nos diversos “tempos” da nossa vida, quantas vezes nos questionamos sobre ele próprio, o “tempo”? Aquele que passamos connosco, com os nossos, com as nossas pequenas-grandes fagulhas de felicidade que carecem de tempo e não se compadecem com a marcação de (pouco) tempo com que nos debatemos, dia-a-dia…

Aqui o tempo para. Para pensar, para olhar a paisagem ou, simplesmente, para piscar o olho e sorrir a quem passa. Esta dimensão encontro-a muito poucas vezes nas centenas de viagens e nos muitos milhares de quilómetros que, todos os anos, acrescento ao passaporte.

E é esta dimensão que nos faz também parar para refletir sobre as boas práticas de ter tempo. Com tempo percebemos que a vida, como a conhecemos, é tão efémera que só pode ser aproveitada como uma permanente conquista. Com ele entendemos que não seríamos ninguém sem o outro, o que está ao nosso lado, o que nos dá sentido ao verdadeiro conceito de sociedade e de comunidade. Não somos um sem o outro, não vivemos isolados, não nos socializamos se o pensarmos, apenas, numa dimensão egoísta e fechada.

Esta é a lição da Nova Zelândia. Longe de tudo e de todos. Atirada pela geografia para o extremo sul do mais recôndito continente do planeta, uma Oceânia onde o tempo continua a permitir que, apesar dos milhares de quilómetros de distância, aqui se possa beber o melhor de todos os mundos.

Que aqui se possa perceber que o mundo é pequeno porque o tempo tecnológico do longe faz perto e faz um fuso parecer um instante.

Que aqui se possa entender que o mundo é suficientemente grande para abarcar todos os tempos, os de cada um de nós, os dos que connosco se cruzam, os tempos certos para que a vida continue a sorrir em qualquer um dos lados do mundo.

E assim, do longe se faz perto.

Rui Almeida

Categorias: Opinião

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