Os vendedores da praça não escapam à crise da covid-19. “Essa pandemia é uma desgraça”

Os comerciantes do Mercado da Graça sentem a falta dos locais e dos turistas, queixando-se das quedas nas vendas. Os vendedores naturais da Lagoa defendem que não se justifica um mercado no concelho

António da Silva tem 78 anos e é um dos vendedores mais antigos da praça © RUI PEDRO PAIVA/ DL

Sábado é dia de ir à praça. É um ritual que reúne gente de toda a ilha. Logo de manhã, pela fresquinha, o Mercado da Graça, em Ponta Delgada, ganha vida. Por entre as bancadas labirínticas, onde reluzem legumes frescos, clientes atentos escolhem cirurgicamente os produtos. Intervém depois os comerciantes entusiasmados, num diálogo franco de amizade. “É essa a diferença da praça, a gente aqui somos todos amigos”, começa por explicar ao Diário da Lagoa, António da Silva, que com 78 anos é um dos comerciantes mais antigos que por ali anda.

A conversa é interrompida pela passagem de uma freguesa. “Não queres levar bananas dessa vez?”, interroga o comerciante, de rosto vincado pelo tempo e de olhar cheio de vida. Perante a reticência da cliente, António da Silva leva-a a uma banca ali mais ao lado, mostrando as suas majestosas bananas regionais. Oferece uma à criança que a acompanha e a cliente acaba por sair com um cacho debaixo do braço.

É a experiência de vendedor a funcionar, dir-se-á. São muitos anos a virar frutas. “Já tenho 78 anos e com a idade de 12 anos já vinha para aqui. A partir daí nunca mais deixei isso”, explica. António da Silva, natural do Rosário, na Lagoa, é conhecido entre vendedores e entre clientes. É um rosto da praça. Nota-se o gosto por aquilo que faz, quase como se fosse uma inevitabilidade inata: “a minha vida é essa, sou produtor agrícola, produzo e vendo, produzo e vendo”. Por isso, é que do alto dos seus 78 anos, continua a estar ali, a vender e a conversar, como se aquele fosse o seu lugar natural: “Eu podia estar em casa, mas não quero. Também é preciso distrair um bocado, porque isso sempre em casa também não é bom”.

O negócio, esse, é que já viu melhores dias. A inevitável pandemia da covid-19 afetou todos os ramos da sociedade e os vendedores da praça não são exceção. Existem locais com medo, restaurantes fechados e turistas que não viajam. “O negócio está mal, essa pandemia é uma desgraça. O pessoal está com poucos recursos, a ganhar menos e têm medo de sair de casa. Depois não há turistas e a restauração está fechada, está tudo ruim”. Consequências de uma pandemia, que continua imprevisível e que teima em ir embora. António da Silva, no seu tom direto, expressa o sentimento geral: “é acabar com essa doença. Se essa doença acabasse isso vinha ao normal, até lá é sofrer isso”.

O vizinho da frente corrobora a tese. Também para Eduardo Bernardo, natural da Lagoa, residente em Santa Cruz, o Mercado da Graça não tem segredos. Tem 66 anos, está na praça há 36 anos. “É muito tempo, não é?”, questiona retoricamente entre risos. A longa experiência permite-lhe uma opinião contextualizada sobre o momento atual. E a opinião espelha bem as dificuldades da crise da covid-19.

Eduardo Bernardo tem 66 anos e vende no mercado de Ponta Delgada há 36 anos © RUI PEDRO PAIVA/ DL

“Nunca houve momentos difíceis como esse agora. Qualquer pessoa percebe isso. As pessoas estão desempregadas, não têm dinheiro, eu nunca vivi uma crise como essa agora”, declara, reforçando que “muitas pessoas não vão à praça por medo da pandemia”. Num negócio que “está péssimo”, apenas existe uma maneira para resolver a crise: é preciso contribuir para “baixar o número de casos” ativos da doença. “A gente só sai disso se as pessoas se respeitarem umas às outras. E com essa nova estirpe, que é mais perigosa, as pessoas têm de ter muito respeito porque com a saúde não se brinca”.

O negócio não anda fácil para ninguém. Ali mais à frente, próxima de uma das entradas laterais, Mauro Sousa diz sentir “muita falta” dos turistas do continente. “Os estrangeiros não afetam assim tanto. As pessoas do continente é que mexem com a gente”. Mauro – ou ‘Marim’ como é carinhosamente chamado pelos clientes que por ali passam e parecem todos saber o nome dele – vende na praça há 10 anos e ostenta uma linhagem monárquica: é o ‘Rei dos Ananases’, ou não fosse ele natural da Fajã de Baixo. “Essa banca já devia estar mais vazia a essa hora”, diz, apontando para uma extensa banca repleta de caixinhas de ananases geometricamente ordenados. Também fazem falta os locais: “muitos têm medo”, outros “compram tudo nos supermercados ao pé de casa”. Para manter o negócio assim, “só com muita força”. “É preciso ter muitos sustos, com muito trabalho para ver se isso vai dar certo”.

Um mercado na Lagoa?

Perto da banca de Mauro, uma cliente, Maria Sousa, está indecisa entre os ananases. O vendedor ajuda-a: pergunta quando pretende comer o ananás, para quantos pessoas é e se prefere mais “docinho” ou com um “toque ácido”. Maria Sousa acaba por levar dois. É um hábito que não dispensa.

“Para mim não há nada como fazer compras aqui na praça”, diz, justificando com os produtos “sempre frescos”. Maria é natural da Atalhada e todos os sábados vai fazer compras ao Mercado da Graça. E se existisse um mercado na Lagoa? “Sinceramente, nunca tinha pensado nisso”, confessa. Pensando um pouco, conclui: “era capaz de ser uma boa ideia porque para mim seria mais fácil, mas acho que não poderia ser feito ao sábado para não competir com este”.

Em 2016, a Câmara Municipal da Lagoa apresentou a intenção de construir um mercado municipal na zona do Parque Tecnológico. A presidente Cristina Calisto estimou a obra em 1,5 milhões de euros que contemplaria, além do mercado, um espaço cultural e de lazer. Cinco anos depois, não se sabe em que ponto está a obra. Mas os comerciantes lagoenses no Mercado da Graça não têm dúvidas: não se justifica um mercado no concelho. “Na Lagoa não vale a pena, a Câmara teve a ideia, parece que se esqueceram, também não vale a pena”, defende António da Silva, acrescentado ainda que a zona em causa não seria a ideal: “ainda por cima tem ali o hiper tão perto”. O vendedor lembra-se bem quando existiu um mercado na Lagoa, na zona do Rosário, perto da escola primária e onde hoje é um campo de futebol. “Chegou a haver anos e anos, vendi lá imenso tempo. As pessoas chegaram a aderir, mas aquilo foi morrendo com os anos”.

Eduardo Bernardo também se lembra do mercado municipal no Rosário. Foi lá que começou a vender. “Eu acho bem que essa ideia fique na gaveta, não se justifica um mercado na Lagoa”, diz, defendendo que os comerciantes ganham em concentrar tudo no atual Mercado da Graça. Até porque hoje, ao contrário de antigamente, existem as grandes superfícies e toda a gente tem carro para se deslocar. “Para mim e acredito que para a maioria dos comerciantes, não faz falta um mercado na Lagoa. Há outras prioridades”.

Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição impressa de abril de 2021

Categorias: Reportagem

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