Palma Rolim. 24 anos ao serviço do Santa Clara que já lhe guardou um cantinho da história

António Palma Rolim é vice-presidente do Santa Clara e é dirigente do clube há 24 anos. Foi treinador, secretário, diretor. Foi o “bombeiro de serviço”, assume

CORTESIA CDSA

No desporto-rei, há uma velha máxima, que se tornou ainda implacável face às leis do mercado: no futebol tudo muda de um dia para o outro. Ou quase tudo. O Santa Clara não é exceção. Com uma gloriosa história centenária, o clube açoriano também se foi transfigurando ao longo dos últimos anos, até ser, hoje, um dos clubes a marcar presença nos mais importantes palcos do futebol lusitano. Mas há coisas que parecem não mudar – ao mesmo tempo que dão ideia de sempre terem existido. Pessoas, sobretudo, qual missão hercúlea de resistir ao imediatismo efémero.

Já é uma tradição. Todos os jogos do Santa Clara em casa, pelo menos duas horas antes do jogo, lá está ele: António Palma Rolim, de bigode branco afiado, calvo na frente e sempre agitado para confirmar se está tudo orientado para o encontro decorrer sem percalços. Quem costuma ir ao estádio de São Miguel, já notou certamente na presença do diretor de campo dos ‘encarnados’ de Ponta Delgada. Um homem que está ligado ao Santa Clara há 24 anos. “É uma paixão, é a vontade, é o esforço, é a dedicação e o acreditar, que também é muito importante”, explica Palma Rolim ao Diário da Lagoa, questionado pelo segredo se servir um clube há mais de duas décadas.

Uma história que começa em 1997. No mundo, Bill Clinton iniciava o segundo mandato como presidente dos Estados Unidos; nos Açores o PS cumpria o primeiro ano de governação de Carlos César após 20 anos de PSD. Natural de Portel, distrito de Évora, Palma Rolim, militar de carreira, estava desde 1993 nos Açores, tendo chegado para cumprir uma comissão de serviço da Marinha.

Interessado por futebol, Palma Rolim assinava a crónica desportiva no jornal Açoriano Oriental, numa altura em que o mais antigo jornal do país era liderado por Gustavo Moura. “Eu estava ligado à comunicação social, ao Açoriano Oriental e tirei o curso de treinador para melhorar e para escrever as crónicas desportivas. Foi essa a minha intenção”, conta.
Mas o curso acabaria por ter outras utilidades. Face ao que escrevia e com um canudo de treinador, acabaria por receber um convite do Santa Clara para orientar a equipa de infantis. Do banco das redações, para o banco dos suplentes: e “foi aí que tudo começou”.

Palma Rolim assume que tinha “curiosidade” para experimentar o futebol. E começou em glória. Pergunta: quando é que o futebol passa de uma curiosidade para um lugar central na sua vida? “O futebol começa a crescer na minha vida quando comecei a treinar e comecei a ganhar. Nesse ano de estreia, nos infantis, ganhamos tudo o que havia para ganhar”, responde, ressalvando que, acima de tudo, preocupava-se em “formar os homens do amanhã” e não “os jogadores do agora”.

“Bombeiro de serviço”
Não largou mais o futebol, mesmo que o Santa Clara o tenha largado. A sua ligação ao clube sofreu um interregno entre 2000 e 2002, decisões da direção de então. Passou pelo Águia, pelo Operário e pelo Vitória do Pico da Pedra, mas, como bom filho à casa torna, haveria de regressar ao Santa Clara. “Depois do regresso, nunca mais saí”.
Nunca mais saiu, mas acabaria por alterar de funções ao longo dos anos. Tirou um curso de massagista no entretanto e haveria de assumir funções no secretariado. Durante muito tempo estava inscrito como treinador e diretor. “Era, entre aspas, o tapa buracos, para o que fosse necessário. Era o bombeiro de serviço”, diz, soltando uma gargalhada sincera e assumindo que com o tempo foi se afastando do treino para assumir as funções de dirigente. Agora, com a devida distância, não tem dúvidas: “o bichinho do dirigismo superou o do treino”.

Ao longo dos anos, foram várias as funções que teve no clube, das quais destaca o de diretor dos escalões de formação. Atualmente, também é vice-presidente do clube. Um clube que mudou bastante ao longo dos anos. “Há uma evolução que vejo pela positiva. Mudou muita coisa, quanto maior o nível, maior é a exigência”, assinala.

A ele já ninguém lhe tira o lugar na fase mais histórica do clube, que tem arrecadado presenças na primeira liga de futebol época após época. “É um orgulho. Hei de ter sempre esse orgulho de fazer parte da história do clube. Quem não gosta?”. A pergunta retórica é seguida da defesa do património do clube. Um património que não deve ser descurado, apesar das mudanças exigidas pela alta competição. “É importantíssimo manter o património de um clube. A história faz-se disso, a história é feita de pessoas, o clube é dos sócios e os sócios fazem o clube”, afirma.

Com tantos anos ligados ao Santa Clara, Palma Rolim hesita quando questionado pelo melhor momento ao serviço dos ‘encarnados’. Depois, o olhar reluzente e a voz orgulhosa indicam que já escolheu o momento: a subida de divisão em 2018. “Foi a subida de divisão, o que aconteceu foi um momento histórico muito bonito. E depois o desafio de conseguir criar estabilidade e ver a equipa crescer e a projetar a região ao mais alto nível”.

Já o pior momento, pelo oposto, foi a descida de divisão em 2002/03. Foi um “percurso no deserto”, marcado por “muitas dificuldades”. “Foi preciso muito trabalho e esforço para conseguir superar as dificuldades. E alguma sorte, no futebol também é preciso sorte”, diz, apontando também a pandemia da covid-19, que obrigou os açorianos a jogarem em Lisboa na condição de visitado como uns momentos mais complicados.

Com tantos anos, apanhou dezenas de dirigentes, de treinadores e jogadores. Histórias não faltam: como quando cozinhou favas com entrecosto para Vítor Pereira, então treinador do Santa Clara, que viria a ser bi-campeão pelo FC Porto. “Ainda hoje ele fala nas favas, guardo com muito carinho e muita paixão a passagem do treinador Vítor Pereira”. Até porque a culinária é também uma das suas paixões, juntamente com o dirigismo – além de vice-presidente do Santa Clara, António Palma Rolim preside ao Clube Açoriano de Pesca Desportiva. E claro, entre as paixões da sua vida – onde a família, óbvio, está em primeiro lugar – encontra-se, evidentemente, a ilha que escolheu para viver e onde já nasceram os seus netos. “Paixão pelo Santa Clara, paixão pela ilha, paixão pelos Açores. Quando se faz as coisas que se gosta e coloca-se lá paixão é bom. É isso que dá vida”.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2021)

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