Paradas e com perda de receita, filarmónicas do concelho de Lagoa sobrevivem com apoios

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Não há previsão de regresso, mas os músicos de Água de Pau, Santa Cruz e Rosário estão ansiosos por retomar a atividade

As três filarmónicas do concelho da Lagoa estão a sofrer com o impacto da pandemia. A atividade do setor encontra-se paralisada. Os ensaios estão cancelados, as sedes vazias, as luzes apagadas e os instrumentos parados. Agora reina o silêncio onde antes se ouviam clarinetes, trombones, saxofones, trompetes e bombos.

Graça Andrade é presidente da Fraternidade Rural desde 2008 © DL

Fraternidade Rural teve 30 atuações canceladas

É na sala de ensaios, com as cadeiras ainda alinhadas e as partituras nas estantes, que a presidente Graça Andrade, da filarmónica Fraternidade Rural conversa com o marido Marco, que é músico na banda há 24 anos. Foi por causa dele que ela ingressou na filarmónica, em 2002, quando já namoravam. Com o barulho de fundo do filho Francisco a tocar os bombos, que já ganhavam pó, fazem contas às atuações que tinham agendadas para este ano. Graça sugere que “fora da freguesia deviam ser umas 20”. O marido acrescenta: “mais os 11 serviços para a nossa paróquia que são gratuitos”. Um a um, foram sendo cancelados, e a dirigente começou a temer pela festa da padroeira. “Só pensava que quando chegasse à Nossa Senhora dos Anjos a banda tinha de fazer uma alvorada para alegrar o povo”. A 15 de agosto, a filarmónica não só fez a alvorada, como participou na eucaristia. Os 35 membros da banda formados em filas de três, em vez dos habituais quatro para assegurar o distanciamento, percorreram a freguesia a tocar o hino. Com vasos de plantas à porta para os receber, muitos foram os pauenses que, bem cedo, em pijama ou camisa de dormir, assistiram emocionados à passagem da filarmónica que já não ouviam há mais de meio ano.

João Machado é o músico mais velho da banda de Água de Pau © DL

Estrela d’Alva com ensaios por naipes

Ricardo Tavares é presidente da Estrela D´Alva há dois anos © DL

Ao contrário das outras bandas, a filarmónica Estrela d’Alva, em Santa Cruz, ainda retomou os ensaios. Primeiro com o maestro através da internet e depois presencialmente, mas de uma forma diferente daquela a que estavam habituados. A desinfeção das mãos à entrada da sede e o uso de máscara até à hora de tocar passaram a ser regra. Os 42 elementos que compõem a banda deixaram de ensaiar em conjunto para permitir o distanciamento. O ensaio semanal veio dar lugar a quatro ou cinco por naipes. “Um ensaio só de percussão, um só de trompetes e trombones, um de saxofones com clarinetes, e outro para as tubas e bombardinos”, foi a medida tomada pelo presidente Ricardo Tavares, mas que não durou muito devido ao aumento de casos positivos no concelho. A única vez que as fardas da Estrela d’Alva saíram do isolamento dos armários durante a pandemia foi no dia de Todos os Santos. Nem a máscara com o logótipo da banda esconde a tristeza com que o presidente recorda o cancelamento do calendário de verão que estava cheio, incluindo a viagem que iam fazer à Graciosa.

João Arruda é músico na Estrela D´Alva © DL

Lira do Rosário não celebrou o centenário

Também a filarmónica Lira do Rosário foi assolada pelos cancelamentos. Com os olhos claros a brilhar, o presidente Paulo Cordeiro conta como a banda, fundada em abril de 1920 passou o 100º aniversário sem celebração. A música Catarina Rodrigues relembra como estavam entusiasmados a ensaiar para “uma festa à altura” que, com a imposição dos cordões sanitários, nunca se chegou a realizar. Só em outubro, pela festa de Nossa Senhora do Rosário, é que aproveitaram a data para não deixar o centenário passar em branco. Tocaram o hino da filarmónica, mesmo sem ensaios, porque “toda a gente o sabe quase sem partitura”, brinca Catarina.
A rotina de ensaios e atuações era cansativa. Nuno Tavares, músico no Rosário há 16 anos, recorda os domingos que saía de casa às 8h e só regressava às 23h. Porém, depois de tantos meses sem tocar, já todos sentem falta da azáfama. É com angústia que João Machado, de 71 anos, fala sobre esta paragem. “Já estou numa idade avançada e qualquer dia vou ter de deixar de tocar. Gostava de estar a aproveitar este tempo, mas está tudo parado”. Para o “tio João”, como é conhecido o elemento mais velho da banda de Água de Pau, a sede tem um significado especial. Outrora foi a sua escola primária: “foi onde aprendi a ler e onde mais de 40 anos depois vim aprender a tocar”.

Paulo Cordeiro é presidente da Lira do Rosário há 22 anos © DL

Todos os músicos estão ansiosos por voltar e, para José Carlos, da Fraternidade Rural, a prova foi dada quando os músicos se tiveram de se juntar às 7h para tocar a alvorada em honra de Nossa Senhora dos Anjos. “Este ano acordar cedo deixou de ser um problema, porque já são muitos domingos sem tocar. Um músico não se sente um músico sem serviço ao domingo”. O saxofonista, que toca desde 1981, encontra no grupo um escape. “Quando estamos com dores de cabeça e vimos para a banda elas desaparecem”. É como um remédio milagroso também tomado por Catarina a quem a filarmónica do Rosário permite “abstrair dos problemas da vida pessoal”. Já em Santa Cruz, a sede é considerada uma “segunda casa”, quer para Nicole Melo que, apesar dos 23 anos prefere os serviços da banda a um festival, quer para João Arruda para quem, ao longo de 45 anos de banda, são raros os dias que não se desloca à sede.

Catarina Rodrigues toca na Lira do Rosário © DL

Filarmónicas têm prejuízo de 10 mil euros

A pandemia trouxe perdas desde os 5 mil euros que a banda do Rosário estimava fazer em serviços aos 10 mil de Água de Pau. Ambos os caixas ficaram a zeros, porque não têm como gerar receita. É com o apoio de 2500 euros, atribuído pelo Governo, de outros 2500 pela Câmara Municipal de Lagoa e a quantia variável cedida pelas juntas de freguesia que as filarmónicas têm sobrevivido. Os apoios servem para pagar as contas que continuam a chegar à porta de todas as bandas como a água e luz da sede e para investir em consertos de material. O marido da presidente da filarmónica de Água de Pau mostra como as dezenas de instrumentos encostados há meses criam “genebra” e ficam selados. A cada reparação que “é sempre para cima de 100 euros” junta-se a necessidade de adquirir fardamentos “que rodam os 300 euros por pessoa”. Cerca de 10 músicos devolveram a sua farda. Não pela falta de uso, mas porque deixou de servir, especialmente às crianças.

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O futuro é incerto, mas nenhuma filarmónica pondera fechar portas. Para a dirigente do coletivo de Água de Pau “uma freguesia sem uma banda é uma freguesia morta”.

Sara Sousa Oliveira
com Maria Leonor Bicudo

Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2021

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