Passeio Marítimo teve vários atrasos, mas é para inaugurar “no máximo até final de julho”

Falhas na aplicação do piso obrigaram a novas intervenções ainda antes da inauguração oficial. Caso não existam mais “contratempos”, inauguração é para decorrer antes de Agosto, avança Cristina Calisto

Obra no valor de um milhão de euros foi financiada em 85 por cento por fundos europeus © RPP/ DL

No início, a designação apontava apenas para uma ciclovia, mas rapidamente passou a ser um passeio marítimo, que se estende ao longo de 270 metros quadrados ao longo da orla costeira da Lagoa. Nos últimos meses, aquele passeio já se tornou num local repleto de gente, mesmo sem ter sido inaugurado oficialmente.

“Desde há uns meses para cá tenho vindo praticamente todos os dias”, assume Rosa Filipe, de 39 anos, que o Diário da Lagoa (DL) encontrou a caminhar no passadiço. Naquele dia, estava sozinha, mas normalmente vem acompanhada: “tornou-se dos meus sítios preferidos para as caminhadas com o meu marido. Trazemos o nosso filho de sete anos e também é bom para ele”, explica.

Rosa vive na freguesia do Livramento, ali mais ao lado. Passou a vir à Lagoa por causa do passeio marítimo. “Isto ficou muito bonito, gosto muito de vir aqui desanuviar”, considera. Mas nem tudo são rosas: o passeio ainda não foi inaugurado mas já há problemas com o pavimento, que esburacou em certas zonas.

“Pode-se até dizer que o passeio está engraçado, mas isso não está bem feito. O rossio do mar come essa resina”, considera Arnaldo Dias, natural da Lagoa, que passa muitas vezes por ali. “Esse material para o chão não foi bem feito. Até pode ser que o material esteja só mal misturado, mas isso desta maneira não pega aqui por causa do mar”, conclui.

O pavimento é só mais uma das complicações que parecem teimar em não deixar aquela obra. Apesar de agora o passeio marítimo estar frequentemente repleto de gente, a construção daquela via paralela ao mar não foi consensual para os moradores da zona. É o caso de uma cidadã estrangeira que tem uma casa que dá diretamente para o passeio marítimo. “Comprei uma casa aqui porque antes isso tinha uma atmosfera diferente. Isso era só rocha”, começa por dizer ao DL a moradora que não quis revelar o nome. Desde a obra, tudo mudou. Perdeu privacidade e, pior, perdeu segurança. “Já me tentaram entrar na estufa por seis vezes e conseguiram arrombar e roubaram-me tudo o que tinha lá dentro”, diz, apontado para a casa de vidro que se vê desde o passeio. Desde daí, retirou “tudo do interior” da casa. “Toda a gente vê o que estou a fazer e não tenho segurança. Estou a pensar mudar-me por uns tempos, porque realmente gosto da tranquilidade e da privacidade”, explica.

“Sucessivos atrasos”

Do lado da Câmara Municipal de Lagoa, a previsão é que a obra seja inaugurada “na pior das hipóteses até ao final de julho”, caso não haja “mais nenhum contratempo”. “A inauguração oficial é quase irrelevante porque sentimos que ela já foi feita por todos os lagoenses que por ali já passaram”, assinala, contudo, a presidente da Câmara, Cristina Calisto, em declarações ao DL.

A autarca não esconde que o “piso sempre foi o maior constrangimento” da intervenção, mas defende que as reparações que estão a decorrer no pavimento fazem parte de um “procedimento normal”. “O piso que está que a ser reposto é o mesmo que consta do projeto que foi viabilizado pelo Ambiente que é um piso drenável. O que foi acontecendo é que a obra foi sofrendo vários atrasos”, explica, apontando em seguida as várias fases da intervenção.

O primeiro atraso decorreu devido à primeira fase da pandemia, em 2020, que impediu a vinda de técnicos especializados na aplicação do pavimento. Depois, os “técnicos acabaram por vir”, mas o “piso não ficou bem aplicado”. “Foi pedida a reparação do piso e nessa altura por duas vezes sucessivas as matérias-primas que são necessárias para a composição do piso não vieram em condições”, acrescenta.

O empreiteiro procurou então outro fornecedor no mercado e “recentemente recebeu os materiais necessários para refazer o piso e é isso está a decorrer”, assinala a presidente da Câmara, realçando que o responsável da obra “tem sido correto” ao estar “pronto para resolver as situações”. “É um processo normal que decorre das obras: quando não está bem feito, é preciso fazer direito”. Independentemente dos processos, Cristina Calisto refere que as novas intervenções “não têm qualquer custo adicional para a autarquia”, pelo que o valor da obra continua o mesmo de antes: um milhão de euros (85% financiando por fundos comunitários).

Sensibilidade ambiental?

Sobre as críticas de alguns moradores, a presidente da CML diz compreender que tenha existido um “sentimento de invasão do seu espaço”, porque aquela era uma “zona que ninguém frequentava. “Acho que esses ruídos estão diluídos porque a intervenção parece-me ter sido feita com bastante qualidade na integração paisagística e na forma como deu a descobrir uma frente marítima que era inacessível”.

Nem toda a gente concorda. O presidente da Associação Amigos do Calhau, José Pedro Medeiros, que desde a primeira hora se insurgiu contra a obra, considera que o passeio “não deveria ter sido feito da maneira como foi feito”. “O que foi destruído foi a natureza. Nós nos Açores se não tivermos cuidados acabamos por destruir a natureza toda”, alerta, condenando, por exemplo, os “pilares de betão” e os “três metros de largura” do passeio.

“Uma coisa é fazer um passeio pedonal devidamente enquadrado na paisagem não mexendo no património natural e outra coisa é fazer uma ciclovia de três metros de largura com dinheiros comunitários afirmando ser uma via alternativa ao trânsito”, acrescenta. Devido a essa justificação – de ser uma alternativa ao trânsito – José Pedro Medeiros ainda escreveu à União Europeia (UE) sobre o que diz ser uma “mentira e uma falácia”, mas “nunca” teve “uma resposta concreta” da UE.

Estando a obra (quase) concluída, o responsável por aquela associação ambientalista refere que, agora, a única coisa a fazer é tirar ilações para o futuro. “Agora o que se pode fazer é uma chamada de atenção para que não se repita mais esta situação em outros pontos da ilha”, afirma, criticando a “total falta de sensibilidade ambiental” da CML.

A presidente da Câmara Municipal responde às críticas, advogando que o passeio marítimo “nem passou perto”, “nem muito menos passou por cima” das “pedras vulcânicas únicas” daquela orla marítima. “Os lagoenses reconhecem a importância da obra que veio valorizar a nossa costa”. Visões distintas que fazem parte da história de uma obra que ainda não está encerrada.

Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição impressa de julho de 2021

Categorias: Reportagem

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