“Passo mais horas aqui do que em casa, chama-se amor à camisola”

Balbina Silva lidera uma equipa de nove mulheres que produzem artesanalmente massa e biscoitos. Para além de exportar os seus produtos, a única cooperativa de panificação do concelho de Lagoa promove a inclusão social

Todos os dias as 10 funcionárias da Megasil fazem vários tipos de biscoitos © DL

“Dai-nos Senhor o pão nosso de casa dia”. A súplica está escrita num pequeno azulejo do número seis da Rua do Machado, em Santa Cruz. Dentro de portas, já não se coze pão, mas a frase também pode ser a metáfora que procura, quem aqui trabalha, todos os dias.

Às segundas e quintas-feiras, Balbina Silva está abrindo as portas da Megasil, quando o relógio marca as cinco da manhã ­– são os dias mais atarefados na única cooperativa de panificação da Lagoa, os de cozer massa sovada, e agora, pela altura da Páscoa, folares. “Já estou habituada. Hoje vim às cinco da manhã e vou para casa há uma, duas da manhã”, explica Balbina Silva ao Diário da Lagoa. É a líder e uma das 10 mulheres que trabalham na Megasil. “São só mulheres, homens só o meu marido que sempre fez a distribuição, optou-se assim, damo-nos todas bem”, garante. A presidente da cooperativa e responsável pela produção fez parte do grupo que fundou a instituição há 34 anos, junto com Nélia Tavares, surda desde que nasceu, que trabalha atualmente na cooperativa. “Isto abriu por pressão da senhora Elvira, a mãe da Nélia, e da mãe da Zita. Elas estavam na escola da Arquinha e depois quando chegaram aos 18 anos deixavam de ir. A senhora Elvira ficou preocupada, o que é que a filha ia fazer em casa todo o dia? Então falou com a dona Fátima Sousa, assistente social, na altura. Ela lembrou-se de fazer uma cooperativa para pessoas assim”, promovendo a integração, no mercado de trabalho, de pessoas com necessidades especiais.

Balbina Silva chega a trabalhar 20 horas nos dias em que coze massa sovada © DL

Balbina era doméstica, na altura, mas aceitou o desafio e pôs mãos à obra, como continua a fazer, todos os dias. Com ela vieram Beatriz Moniz, Eduarda Costa, Manuela Mendes, Manuela Tavares e Zita Gouveia. Os nomes constam de uma tela que se encontra no interior das instalações da Megasil, junto à zona de embalamento de produtos. “No início, umas trouxeram umas panas, outras a panela. Fizemos biscoitos, massa, bolos lêvedos, chegámos a fazer rissóis, doces e fomos sempre andando, conta a presidente da cooperativa.

Atualmente, a Megasil tem produção diária de biscoitos e dedica-se à produção exclusiva de massa, duas vezes por semana. Os biscoitos podem ser caseiros, de canela e de coco.

Cheiro a canela desce a rua e invade imediações da cooperativa

As receitas que dão fama e nome à cooperativa, Balbina trouxe-as quando deixou a casa da mãe mas garante que ao longo dos anos foi sempre “aperfeiçoando com mais açúcar ou mais farinha” e agora têm a “própria receita”, garante a responsável.

Os biscoitos são a principal fonte de rendimento e sucesso da cooperativa. Por dia, são feitos e embalados entre 250 a 300 pacotes que seguem para várias lojas da ilha e também para o continente. Significa que das mãos de dez mulheres saem todos os dias milhares de biscoitos feitos de forma inteiramente artesanal. O aroma caseiro, sobretudo a canela, desce a Rua do Machado e chega à rua perpendicular anunciado, a metros de distância da cooperativa, que as fornadas estão a sair enquanto outras continuam a entrar.

A mesa de inox, instalada no meio de uma das salas da Megasil, é pequena para tantas mãos. Cada funcionária apodera-se de um bocado de massa e dos tabuleiros, dando forma a cada biscoito, um a um, num trabalho minucioso. Balbina não tem dúvidas de que a grande mais valia da sua funcionária mais antiga, Nélia Tavares, conhecida por todos como Nélinha, é a agilidade. “O que ela faz melhor é os biscoitos, ela é muito rápida a moldar. E ela é o nosso teleponto. Se a gente se está esquecendo de alguma coisa, ela lembra-nos. Às vezes estamos à procura de um caneco, e estamos caladas, mas ela vê e logo a seguir traz, não sei como é que ela sabe do que estamos à procura, é impressionante”, sublinha Balbina. 

Nélia Tavares é surda e umas das fundadoras da cooperativa © DL

Nélinha é surda desde nascença. Fala por gestos e com alguns sons. Com a ajuda de Balbina, perguntámos do que gosta mais de fazer na cooperativa. A resposta surgiu logo. “Ela diz que não gosta de estar em casa porque diz que aqui está sempre falando com a gente todas e em casa está sempre sozinha”, traduz Balbina: “ela de férias fica toda stressada ela não gosta”, garante a responsável. Nélia é atualmente a única pessoa com necessidades especiais na cooperativa. Consegue comunicar com toda a gente, por gestos, e mesmo sem utilizar a Língua Gestual Portuguesa. Por causa disso, e para poderem comunicar com Nélia, as trabalhadoras da cooperativa estão dispensadas de usar máscara nas instalações da cooperativa. “Já tivemos cá a inspeção do trabalho e o senhor da segurança e higiene e do trabalho” que validou a exceção.

10 funcionárias fazem todos os dias milhares de biscoitos de forma inteiramente artesanal © DL

Produzidos 400 bolos de massa e folares num dia

A funcionária mais nova da Megasil tem 21 anos. Este é o primeiro trabalho de Sara Ferreira, que concluiu o 10º ano e não quis prosseguir os estudos. Ao Diário da Lagoa, explica que já nada lhe parece difícil mas o que custa mais é mesmo “estar em pé”. A opinião é partilhada por Maura Gouveia, uma das três filhas que trabalha com a mãe, Balbina, na cooperativa. “Eu dormia aqui os soninhos da tarde”, conta a rir, Maura. A irmã, Gabriela Martins, confirma: “lembro-me de dormir naqueles prateleirinhos [na sala de embalamento da cooperativa], muito criança”. Balbina tem seis filhos e uma vida inteira dedicada à Megasil. Conseguiu conciliar a maternidade com o intenso volume de trabalho que sempre teve na cooperativa. “Passo mais horas aqui do que em casa, chama-se amor à camisola”, garante. Quem também alinha praticamente todos os dias com a mãe é Graça Gata. A frequentar o terceiro ano do curso de Educação Básica na Universidade dos Açores, a filha mais nova de Balbina herdou o gene do trabalho da mãe e diz que não consegue estar em casa e não vir ajudar. “Fico ‘entenicada’ em casa porque não tenho nada para fazer. Eu é que oriento os papéis todos e como passo as faturas tenho de ficar até ao fim para saber quantas faturas é preciso passar para as encomendas do dia seguinte”, por isso fica até a porta se fechar. Garante que, regra geral, não estuda: “vou para as frequências sem estudar. Às vezes dou uma vista de olhos só por descargo de consciência”. E é assim que consegue terminar o segundo ano do curso com média de 19.

“Houve uma Páscoa em que minha mãe teve aqui os seis filhos a ajudá-la”, conta a filha Maura. A irmã, Gabriela, explica que o trabalho exige bastante, em termos físicos, mas garante que fá-lo “com gosto” e isso acaba por se refletir no trabalho artesanal da cooperativa. “Muitas pessoas de vários sítios do continente, ligam para cá a perguntar onde podem comprar a massa e os biscoitos”, conta Maura. Para já, só mesmo os biscoitos podem ser encontrados à venda, além fronteiras, na zona da Grande Lisboa. A massa sovada, por ter menor tempo de validade, ainda não, mas pode ser que um dia, isso aconteça.

Duas vezes por semana são cozidos 800 bolos de massa sovada © DL

“Quando tiver 100 anos venho para aqui com a bengala na mão ensinar vocês a fazer biscoitos”

Por estes dias, a azáfama é ainda maior. Para além da massa sovada, os folares são muito requisitados. “A massa é a mesma, a única diferença é que pomos dois ovos em cima que vão a cozer, nos dias antes da Páscoa, fazemos quase mais folares que bolos de massa”, garante Balbina. O processo é trabalhoso e demorado porque depois de amassar, é preciso esperar a massa levedar durante cinco horas. Depois, cada pedaço de massa é pesado (aproximadamente um quilo cada), formando uma bola que é colocada dentro da respetiva forma. A responsável pela produção passa as mãos por quase tudo. Enquanto pincela os 400 bolos de massa e os folares que vão ao forno numa das quintas-feiras de março, Balbina vai sempre falando mas nunca pára de trabalhar. É assim há mais de 30 anos e vai continuar a sê-lo. Está a apenas quatro meses da reforma. A pergunta é inevitável: vai-se reformar? “Não!”, responde, entre risos, ainda antes de terminarmos a pergunta. “Só mesmo quando não puder. Deixem-me cozer massa e biscoitos, se for para casa vou envelhecer muito depressa. Às vezes digo na brincadeira, ‘quando tiver 100 anos venho para aqui com a bengala na mão ensinar vocês a fazer biscoitos’”, garante, rindo-se.

Massa sovada pode ser encontrada em vários sítios à venda na ilha de São Miguel © DL

Em todos estes anos diz que nunca tirou um mês seguido de férias, e os dias que tira, são sempre calculados, tentando não coincidir com os dias de mais trabalho (as terças e quintas). Sempre foi assim e vai continuar a ser, até poder, sempre com o tal amor ao trabalho que não a deixa longe da casa de barras azuis da Rua do Machado.

Sara Sousa Oliveira

Reportagem publicada na edição impressa de abril de 2021

Categorias: Reportagem

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