Patrões concretizam sonho de criança de dois mecânicos lagoenses

Os mecânicos Ruben Borges e Ruben Silva realizaram o sonho de participar no Azores Rallye com a ajuda dos patrões Ricardo Pereira e Paulo Pereira. Para estes cabouquences o Azores Rallye foi um “abre olhos” e o Além Mar Rali uma grande vitória

Ruben Borges e Ruben Silva são apaixonados pela velocidade das quatro rodas © D.R.

Numa manhã de segunda-feira o Diário da Lagoa (DL) foi até à Auto Central onde Ruben Borges e Ruben Silva mostraram-nos onde trabalham no seu Skoda Fabia RS TDI e contam-nos um pouco sobre eles e a participação no Azores Rallye 2021 e no Além Mar Rali, que passou pela Lagoa.

Ruben Borges, 37 anos, é um mecânico apaixonado pelo que faz, e piloto de rali. Ambos os jovens mecânicos são naturais do Cabouco, Lagoa, e juntaram-se para concretizar o seu sonho de criança ao integrar o Azores Rallye. Após esta participação, Ruben Borges e o seu co-piloto, Ruben Silva, admitem que foi uma subida na carreira por ser muito dispendioso frequentar este tipo de provas, sendo que esta teve um investimento de quase 8.000 euros. Apesar de terem patrocínios, os mecânicos afirmam que não foi suficiente, “mais de 50% é tirado do nosso bolso”.

Esta corrida convida sempre pessoas de todo o mundo para virem até à ilha de São Miguel e o grande objetivo era terminar os troços e “darmo-nos a conhecer” admitem. No segundo dia de prova despistaram-se ao fazer uma travagem tardia. O piloto comenta que ainda lhe custa relembrar o dia do acidente, “estava imenso nevoeiro, muita chuva, muita lama, nunca conseguimos andar à velocidade que queríamos” para além de ser uma enorme responsabilidade para chegar com o carro intacto até ao fim.

No segundo dia, Ruben Borges admite que andaram um pouco melhor, mas infelizmente “acabou por exagerar” travando muito tarde numa curva onde o piloto admite que o seu co-piloto sinalizou, “travei muito tarde o carro saiu de frente e a partir daí não deu para continuar”. O amante de rali confessa que quando chegou a casa foi “como se tivesse vindo de um velório”.

Ruben Silva é o co-piloto desta dupla e a figura que indica ao piloto as questões a ter em atenção durante todo o troço. Tem 31 anos, é natural do Cabouco, Lagoa, e é mecânico desde os 16 anos. Admite que namora o rali desde os seus 15 anos, mas que sempre soube que “é necessário muita responsabilidade, muito conhecimento, investimento e talvez uns padrinhos que nos ajudem. Nós temos os nossos patrões que alimentaram esse namoro, eles é que nos deram a namorada para podermos caminhar”. O co-piloto não consegue esconder que quando vai dentro do carro está num pico de adrenalina e que se consegue abstrair de tudo. “O carro quando pára, a emoção vem toda, é o descarregar de energia, as lágrimas vinham-me aos olhos eu não estava a acreditar que estava a fazer aquele rali”, assegura.

Ao entrar na oficina só se ouve o barulho das ferramentas a cair no chão, todos os trabalhadores muito focados, cada um no seu trabalho. No piso superior encontramos a tal “menina” que os levou às pistas do Azores Rallye, e onde o DL teve a oportunidade de perguntar a quantos quilômetros por hora normalmente andam. Ambos responderam que carros como o caso do Skoda Fabia RS TDI por serem “antigos não contam os quilómetros, por um lado é bom para não sabermos a que velocidade vamos”, garantem.

“(…) tivemos de parar o carro,
inclusive ainda tenho as marcas
de tentar resolver o problema”

 

A última prova realizada pelos jovens cabouquences foi a 26 de novembro, o Além Mar Rali, que já ronda um investimento de 2.700 euros. A conversa com o DL aconteceu ainda antes desta data. Os amantes da alta velocidade estavam já confiantes que iriam terminar mas sabem que, “numa fase de aprendizagem do carro ainda não conhecemos os pormenores, não sabemos por exemplo até que ponto podemos travar tarde. Nós treinamos mas temos muita pouca rodagem no carro porque a nossa equipa é composta por nós os dois” ao mesmo tempo são eles quem sujam as mãos de graxa e que trabalham no carro.

Os patrões, Ricardo Pereira e Paulo Pereira, são quem lhes faculta a tal “namorada Skoda” e as instalações para trabalharem no carro quando terminam o seu trabalho.

Numa outra conversa, já depois do Azores Rallye, fomos novamente ao encontro de Ruben Borges e Ruben Silva, desta vez para falar sobre o Além Mar Rali. Os dois amigos asseguram que a diferença entre uma prova e outra foi a confiança, “sentimo-nos mais confiantes, tanto um no outro como no carro”.

Nos passados dias 27 e 28 de novembro Ruben Silva e Ruben Borges competiram no Além Mar Rali e venceram na classe X4. Infelizmente na manhã de domingo o carro chegou ao final do primeiro troço do Pico da Pedra, com a temperatura a subir: “tivemos de parar o carro, inclusive ainda tenho as marcas de tentar resolver o problema, acabamos por perceber que não era possível resolver porque tínhamos um fio partido”. A equipa iniciou outra forma de arrefecimento do carro, tirando a pressão, despejando água conseguindo assim terminar os outros dois troços da manhã, perdendo mais de um minuto de corrida. De 22 carros apenas 16 chegaram ao fim do rali. O co-piloto confessa que quando viu que o carro estava a sobreaquecer “só conseguia chorar por achar que aquele era início do fim”.

Ruben Silva relembra que receberam algumas críticas no Azores Rallye que foram um “abre olhos”, mas garante que após o Além Mar as pessoas vieram “ter connosco dizer que viemos a voar por aí fora, o ego aumentou imenso” confessa.

Os apaixonados pelas quatro rodas já pensam na próxima prova e contam ao DL que já estão a pensar no próximo Azores Rallye: “estamos em fase de reunir todo o financiamento que é necessário” não esquecendo também que é necessário abrandar e “esta é a fase para isso”.

Sofia Magalhães
com Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2022

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