Pauense Amélia Furtado Sousa [Nabinha] festejou os seus 108 anos

“Eu sou do tempo em que em Água de Pau, não havia nem carros, nem sapatos…”

Roberto Medeiros

Eu sou do tempo em que em Água de Pau não havia carros nem sapatos, disse-me uma emigrante, sentada na berma da estrada a ver passar a Procissão de Nª Sª dos Anjos na vila de Fairhaven, Massachusetts, nos Estados Unidos, já com a idade avançada… de 104 anos. Estávamos no primeiro domingo de setembro de 2017, altura em que se realizam as festas religiosas daquela padroeira, levadas a cabo por emigrantes saídos de Água de Pau há mais de 100 anos.

No dia 4 do mês de abril passado completou a senhora Amélia Furtado Sousa “Nabinha” a bonita idade de 108 anos de idade e é ainda a pessoa mais idosa da Vila de Água de Pau, ilha de S. Miguel, Açores.
Antiga bordadeira da Vila de Água de Pau, atualmente, ainda borda e faz croché sem necessidade de óculos. Faz a sua higiene pessoal sozinha esta centenária pauense que frequentou a catequese na nossa igreja de Nossa Senhora dos Anjos quando ainda a mesma nem tinha bancos.

A idosa Amélia Nabinha de Água de Pau celebrou seu 108º aniversário com a família em New Bedford, USA © D.R.

Transmitiu-me que aos sete anos as meninas, como ela, sentavam-se no chão da nave central da igreja, de pernas cruzadas, à frente, no lado esquerdo e os meninos à direita. As senhoras vinham atrás a seguir, também sentadas no chão e os homens atrás em pé.

Contou-me ainda que se recordava daquelas que foram as primeiras famílias que ofereceram a madeira e mandaram fabricar os primeiros bancos corridos da igreja e as pessoas que tinham suas cadeiras próprias confortáveis e lugares cativos na igreja no primeiro quartel do século XX. Por isso lembra-se ainda dalguns como, Filomena Moura e João Soares do Amaral, os pais da benemérita que deu nome a uma rua da Vila de Água de Pau, Maria dos Anjos Amaral, Teófilo Tavares do Canto, Francisco Ferreira da Silva, Francisco da Costa Branco, por exemplo. As cadeiras e os bancos mandados fazer ao popular mestre-marceneiro Fausto Amaral, por exemplo, pelos fiéis anteriormente citados, teriam de ser providenciados lugares, nos mesmos, para eles nas missas em que participassem.

Amélia Nabinha, vive agora na Rodney Street, número 18, na cidade baleeira de New Bedford. Nasceu em New Bedford em 1913 na Nelson Street, 80. Tinha 16 meses quando partiu para S. Miguel com seus pais para a Vila de Água de Pau onde estes eram naturais e assumiu a cidadania portuguesa quando se casou, e em 1965, regressou com o marido aos Estados Unidos, com 52 anos de idade.

Cresceu nos Barrancos, junto a uma ribeira que corria, ao tempo, com um caudal forte de água, depois das duas ribeiras, do Santiago e do Paul, que atravessavam a vila se juntarem na Praça Velha, despenhando-se ao lado do fontenário, em cascata pelos Barrancos abaixo alimentando vários moinhos e dando vida a duas fabriquetas de curtidores de pele de vaca e a um açougue de gado bovino e suíno.

Em Água de Pau, foi doméstica e com sua mãe aprendeu e fez rendas e bordados para a Fábrica de Bordados de Ponta Delgada. Segundo a centenária, nunca teve doenças, e recordou-se que quando era rapariga, ela e a mãe foram algumas vezes contratadas para as matanças-de-porco na casa de meu pai, e, recordou-me ainda aos 104 anos o percurso comercial que o Manuel Egídio de Medeiros [meu pai] teve desde que em 1936 abriu o seu primeiro estabelecimento de mercearia e ferragens – A Cova da Onça -, na praça de Água de Pau.

Orgulhosa da sua atividade como bordadeira e exímia a fazer naperons, pediu à filha que me mostrasse, na sua casa, alguns dos seus trabalhos. Tomei conhecimento que é da autoria da senhora Amélia os naperons que cobrem o altar e outros espaços de destaque da sua Igreja de Nossa Senhora Monte Carmo em New Bedford. Fotografei e filmei alguns dos seus trabalhos bordados e perguntei-lhe se ainda bordava? Acenou-me afirmativamente que sim e, antes de eu lhe manifestar que queria vê-la a trabalhar num dos trabalhos que tinha em mão, foi em busca da sua caixinha de bordadeira. A filha ainda se prontificou em ir à cave buscar, mas a centenária tomou de imediato a iniciativa e ela mesma desceu as escadas e minutos depois trazia já o seu “cabinho”, o mais novo que havia adquirido para mostrar no vídeo. Sentou-se e colocou em cima das suas pernas uma pequena toalha que tinha começado há algum tempo e, para minha admiração vi-a a trabalhar em bom ritmo até, para quem já tinha deixado há alguns anos para trás os 100 anos de idade. Nem necessitava de óculos, para meu espanto. Desde 1999 que acompanho e coordeno a presença de artesãos e artesanato nas Comemorações do Dia de Portugal em New Bedford e outras cidades da Nova Inglaterra e do Canadá, por isso, ao vê-la a trabalhar, eu sabia que estava perante uma exímia bordadeira dona das suas plenas faculdades artísticas ainda.

Em 2018, por alturas das comemorações do Dia de Portugal, a jornalista da Rádio Difusão Portuguesa dos Açores, Cármen Ventura disse-me na Portugalia Marketplace em Fall River, que se encontrava a cobrir a deslocação de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa aos Estados Unidos. Tendo solicitado a minha colaboração para entrevistar emigrantes que possam testemunhar sua experiência de vida, levei-a a casa desta senhora pauense mais idosa do concelho de Lagoa, a viver nos EUA.

Foi quando a jornalista também conheceu a centenária que também lhe mostrou as suas rendas e bordados depois da entrevista.

Para ter a felicidade de chegar à bonita idade de 108 anos em 4 de abril de 2021 perguntei-lhe como era viver num casebre pobre nos Barrancos, antiga rua dos moinhos d’água, e fábricas de curtumes, há 80 e 90 anos atrás? Disse-me que só se sabe se se viveu infeliz quando se sente infeliz e como nunca passou por tal situação, só tem boas memórias da sua vida em Água de Pau. Uma das perguntas que lhe fiz também foi sobre o que comia que lhe permitiu chegar a centenária? – Tudo o que a minha mãe colocava na mesa para se comer… respondeu-me.

Amélia Nabinha com familiares e amigos durante as Festas de Nª Sª dos Anjos na vila de Fairhaven, USA © D.R.

Constitui a família da senhora Amélia Furtado Sousa, seus filhos, todos nascidos em Água de Pau e a viver ou já falecidos nos Estados Unidos, Maria de Jesus Pereira (casada com Manuel dos Anjos Pereira), Conceição Baganha (casada com Luís Baganha), Franklin Sousa e nora Germina de Sousa (ambos falecidos) e Manuel Amâncio Sousa (falecido) e nora Maria Ana Sousa.

A Vila de Água de Pau dá os Parabéns à sua filha mais velha, Amélia Furtado Sousa [Nabinha] pelo seu 108º aniversário e deseja-lhe muitas repetições felizes.

Crónica publicada na edição impressa de maio de 2021

Categorias: Opinião

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