Perdemos a memória?

Matilde Dias Pereira Sabino
Psicóloga Clínica da Saúde

Se há algo que me preocupa profundamente como cidadã, mãe, profissional e portuguesa Açoriana, é o estado em que a nossa Sociedade está presentemente. A minha geração ainda viveu em família, já com algumas mudanças, conviveu com os seus avós e com aquelas pessoas que povoam o nosso passado e as nossas memórias, que em grande parte fizeram de nós o que somos hoje.

Tenho vergonha? Tenho. Tenho medo? Tenho. Tenho voz ativa? Tenho!

Há algo que no passado ditou a conduta de várias gerações, tocou a minha e eu faço por que chegue ainda aos meus filhos. Alguém se recordará ainda do que fazia de nós portugueses como que uma grande família? “Deus, Pátria e Família”? Neste momento, muitos estarão a pensar já na Revolução do 25 de Abril e na falta de Liberdade que se sentia. Mas há algo muito importante que não podemos esquecer e por em prática diariamente: Devemos ter Deus, Pátria, Família e Liberdade na nossa mente, no nosso coração, nas nossas escolhas, no exemplo que damos e naquilo que queremos transmitir às gerações do futuro.

É certo que, as relações com Oriente, Ocidente e todos os pontos do Globo, trouxeram novas influências culturais, novas crenças e outros modos de ver Deus, Pátria, Família e a Liberdade. Os avanços tecnológicos e, um mundo que se via nos mapas e se tornou Global trouxe vantagens, mas consequências.

Deus, uma Entidade Divina que nos criou e quer apenas o nosso Bem. Na nossa cultura e tradição católica secular, Trino, com Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

Pátria, quem nós somos enquanto povo heroico, nobre, nação valente e imortal que, entre as brumas da memória se lhe sente a Voz. Que marcha se necessário for para defender a nação contra os canhões.

Família, o que nós somos, a origem de cada um de nós, o que defendemos acima tudo. O nosso Sangue e a nossa génese. Onde encontramos o nosso porto seguro, o Amor, a Fraternidade e a nossa Esperança. Liberdade, um Direito que nasce connosco, que é nosso e pelo qual devemos lutar sempre. Podemos ser privados dela fisicamente, mas nunca mentalmente e psicologicamente.

Para onde foram parar estes Valores da nossa existência, da nossa Identidade enquanto Portugueses? Se o Mundo lá fora não os conheceu, se não lhes atribui a importância Vital com que fomos brindados, porque os desvirtuamos, lhe retiramos o Valor que têm e a prática dos mesmos em nome de qualquer coisa que nem sabemos o quê? Esta é a resposta a tudo o que vemos, sentimos e ouvimos falar: “A Família já não é o que era”; “Já não há respeito”; “Estamos entregues à bicharada”; “O povo já não tem voz”; “O mundo está perdido”; “Meu rico tempo…”. Mas fomos NÓS que colocamos tudo a perder quando se achou que a Liberdade era a única coisa que necessitávamos! Quando deixamos que a Liberdade se tornasse em Libertinagem e aí sim, fomos entregues às marés do novo, do moderno, do cada um por si, da falta de visão de futuro e da perda da esperança em tempos melhores.

A Espiritualidade é uma Dimensão do Ser Humano, que deve ser preservada, porque a Fé é uma âncora nos tempos difíceis e de incerteza.

A Pátria, é de onde nós somos, aonde pertencemos, é parte da nossa Identidade.

A Família é onde encontramos a Paz que o Amor traz, onde vivemos e ensinamos os Valores em que acreditamos e queremos deixar aos mais novos.

A Liberdade é um Direito com que todos nascemos e que devemos usufruir para o nosso bem e o dos Outros.

E sim, ainda temos Voz. Ainda temos Esperança. Ainda temos Valores. Ainda temos Fátima. Ainda temos Portugal, porque Portugal é nosso e por ele devemos sempre lutar! Se não perdemos a memória que é a nossa Raiz, vamos todos Juntos trazer de novo aquilo que nos define e orienta há séculos.

A quem se esqueceu, pergunte aos pais ou avós, porque são as melhores pessoas para o relembrar.

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de março de 2021)

Categorias: Opinião

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