Poker: um fenómeno português que (ainda) não chegou aos Açores

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O poker não é apenas um fenómeno português. É um jogo que faz parte do repertório dos principais casinos da Europa há mais de 100 anos e que é extremamente popular em países como os Estados Unidos ou o Brasil. Mas ao longo da última década, o crescimento do poker em Portugal tem sido notório. Num momento em que os portugueses gastam cerca de 600 mil euros por hora em jogos de sorte e azar através da Internet, o poker tem-se vindo a assumir como um novo desporto nacional. O jogo de cartas conta com milhares de adeptos amadores em Portugal e com uma vibrante comunidade de jogadores profissionais, alguns dos quais têm vindo a receber bastante atenção no contexto competitivo internacional. Extremamente popular em cidades como Lisboa, Porto, ou Coimbra, o poker ainda não é um fenómeno nas ilhas dos Açores. Hoje, vamos olhar para os motivos que podem estar por detrás desta realidade e analisar de que modo podem os açorianos vir a ser afetados por algumas das vantagens (e desvantagens) associadas ao poker.

Os campeões portugueses do poker

Um país pequeno e com uma modesta população de pouco mais de 10 milhões de habitantes, Portugal tem o hábito de se destacar num bom número de desportos. O futebol é, de longe, a modalidade em que o talento único dos portugueses mais é reconhecido no exterior. Mas existem outros casos de sucesso em Portugal, que passam não só por desportos tradicionais como o atletismo ou o hóquei em patins, mas também por novos tipos de jogos, entre os quais se incluem os e-sports e… o poker.

Motivados pelo crescimento de uma comunidade de jogadores profissionais, um leque de talentosos jovens portugueses tem sido notícia dentro e fora do país devido à sua habilidade para o poker. O melhor exemplo é provavelmente o de João Vieira, que recentemente se tornou no segundo jogador de poker online mais premiado de sempre. Com uma fortuna avaliada em mais de 20 milhões de dólares em prémios, João Vieira é um dos grandes representantes do poker em Portugal, mas não é o único.

O também português Manuel Ruivo destacou-se no panorama internacional do poker em 2018, quando venceu aquele que era à altura o maior prémio da história do poker online: 2.3 milhões de dólares. Mais recentemente, em Dezembro de 2020, Ruivo provou que a sua histórica conquista não foi de todo um acidente, ao ganhar mais de 700 mil dólares num competitivo torneio internacional da WSOP.

Então e os açorianos?

Os jogadores profissionais de poker em Portugal têm, na sua maioria, um perfil bastante típico. São jovens com uma educação superior que se sentiram desiludidos com as opções que encontraram no típico mercado de trabalho e que decidiram optar por uma carreira à margem da sociedade. Jogam poker online de forma praticamente exclusiva, e dedicam-se durante a maior parte do tempo ao texas holdem poker, um dos vários géneros de poker que se encontram à disposição dos jogadores. Além disso, todos eles partilham o mesmo ponto de origem: vivem ou viveram em cidades litorais do continente, na sua maioria marcadas por um forte espírito universitário.

Nos Açores, a história é um pouco diferente. O poker português continua à espera de ver surgir um grande jogador nos Açores, que não possuem uma tradição forte na modalidade. O maior exemplo de sucesso é provavelmente o de Nuno Araújo, conhecido pelo nickname ‘Azorean82’, que chegou a vencer um prémio de mais de 40 mil dólares num torneio de poker online organizado em 2014. Desde então, o poker açoriano praticamente “desapareceu do mapa.”

Faz sentido apostar no setor do jogo nos Açores?

As ilhas dos Açores são marcadas por uma baixa aposta no setor do jogo, sendo que o único estabelecimento açoriano que disponibiliza mesas de poker é o casino do Azor Hotel, em São Miguel. Mas será que a aposta no setor dos jogos de sorte e azar é uma boa ideia no contexto de uma reabilitação económica do arquipélago?

Se por um lado a aposta no setor dos jogos de sorte e azar traz grandes vantagens em termos de turismo, alguns especialistas acreditam que também pode pesar negativamente sobre uma economia local. Num artigo editado em 2014, o autor/cientista político David Frum utilizou a cidade norte-americana de Baltimore como exemplo para defender a tese de que a aposta no setor do jogo é (quase) sempre negativa no contexto de uma economia local empobrecida.

Frum defende que um grande casino pode ser muitas vezes uma influência negativa para uma economia local, principalmente se dita economia se encontrar num momento de fragilidade e contar com uma elevada taxa de desemprego. Tendo em conta o atual clima de incerteza que se vive nos Açores e no resto do país em 2021, a aposta turística no setor dos jogos de sorte e azar parece ser uma má ideia. Ainda assim, está mais do que na hora dos açorianos se associarem à excitante tendência do poker, que tantos novos milionários tem feito no continente.

Texto Fabricio Rodriguês
Criador de Conteúdos

Categorias: Opinião

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