Por todas as Marias do mundo…

Malvina Sousa
Professora e escritora

Chama-se Maria.

Tem no olhar o azul do céu e todos os sonhos do mundo.

Cresce. Numa infância cinzenta, confusa e atribulada, rodeada de monstros. Monstros reais! De carne e osso!

Chama-se Maria. E começa a perder a cor da alegria e os sonhos que a fariam ser mais e ir mais além. Mas ela, a Maria, continua a sonhar e a acreditar. Ainda.

Maria cresce. Continua rodeada de monstros e sem entender o que a circunda e menos ainda algumas aproximações. “Não têm mal, as aproximações”, dizem-lhe as vozes abafadas e cheias de maldade, cheias da aspereza e do nojo que as envolve.

A alegria dá lugar ao silêncio e ao olhar vazio, cinzento, que se perde tantas e tantas vezes no horizonte, em busca de asas que a possam levar dali para fora. As asas tardam. O voo desaprende a liberdade e envolve-a numa prisão… de vozes, de gestos, de gritos surdos e agonias profundas. “Está sempre a cismar, essa rapariga!”, dizem outras vozes que teimam em não ver os monstros disfarçados…

Maria torna-se mulher. Há muito que deixou de olhar para o horizonte e de esperar que as asas ganhem coragem e se façam voo alto, caminho longínquo, esperança escondida! Há muito que arrancou a voz e se calou, habituada a ser silêncio e ausência de vontade e querer.

Maria sente-se sozinha. Perdida. Não percebe como a estrada se tornou tão quebrada, tão cheia de pedras e de muros, tão cheia de nadas. Perdeu os sonhos, num caminho sem retorno. Perdeu tudo.

Apenas os monstros não largam Maria. E as mãos destes monstros, enormes, negras, a envolvem, magoam, se apoderam do seu ser e da sua vida.

Maria morreu. Dos que a rodeiam… todos disseram não saber porquê. Até os monstros! Maria morreu… apesar de já ter morrido, tantas vezes, aos poucos… Maria morreu!

Maria não conheceu a outra Maria.

Aquela que, como ela, tinha todos os sonhos do mundo e o azul do céu no olhar.

Aquela que, sem infância cinzenta e sem monstros à sua volta, cresceu feliz e cheia de vida para dar, cheia de histórias para contar, cheia de momentos para construir e acarinhar.

Aquela Maria que se fez mulher e se apaixonou, bendizendo o dia em que este amor surgiu na sua vida, para, num instante, o amaldiçoar. Porque este amor, disfarçado de ternura e querer, era apenas a voz que mandava e desmandava e que, sem explicação alguma, virava o seu mundo do avesso e transformava a sua existência em dor. Esse suposto amor, monstruoso no ser, que lhe levantava a mão e a feria, para logo depois lhe pedir perdão e jurar que tal nunca mais aconteceria. E como mentia, esse suposto amor! E como se repetia em gestos iguais e cheios de cobardia, cheios do nada que era!

Aquela Maria que queria acreditar no remorso e no arrependimento falso, e, pior, que começava a acreditar já não merecer mais da vida. Aquela Maria que, para além das pancadas, também era abafada, magoada, maltratada e ferida por palavras imundas e que a cravavam como punhais, disferindo um golpe e mais outro, sem retorno da paz, sem retorno do ser. Aquela Maria que era destruída porque não fizera o que ele quisera, respondera de forma indesejada, sorrira demais, ou, simplesmente,… porque ali estava!

Aquela Maria que também foi morrendo aos poucos por não conseguir dizer não, por não saber onde ele estava…, por não saber dizer “basta”, abafada e encolhida pelas palavras de uma sociedade que aceita a podridão e nada faz para a parar. Essa Maria também morreu. Às mãos do monstro que “a amava” e que nunca mais a voltaria a magoar…, para dor sua!! Às mãos sangrentas e podres do monstro, igual a tantos e tantos monstros!

E já vos falei da outra Maria? Aquela que teve a força de dar o passo, o tal, mostrando que os monstros existem para serem destruídos, enfrentados e para se reduzirem a nada? E que nos ensina que as Marias podem ser mais fortes, e dizer não, e agarrar nas rédeas da sua vida, e lutar pelo direito básico de qualquer ser humano, que é o de ser feliz?

Aquela que gritou basta!…, ” e que fez do basta o mote para mudar a sua vida e ser a força e a vontade de quem luta e acredita que merece mais? Aquela que fechou a porta e deixou, por detrás dela, o monstro que a encolhia, que a fazia tornar-se irreconhecível, até para ela mesma, que a fizera perder o gosto pela vida e ser quem nunca desejou, quem nunca procurou ser?

Essa Maria está viva!!! E, todos os dias, percebe que é forte e que merece mais e melhor! E luta pelo que merece. E não deixa que ninguém lhe diga o que é, o que deve fazer, como deve agir!

Essa Maria está viva! Quando ninguém a ajudou, ela lutou e fez-se força e esperança!

Essa Maria está viva… por ela… e por todas as Marias do mundo…

Esta Maria vive e está viva e ávida de viver! Porque não é a qualidade do caminho que determina a qualidade de vida…, mas o facto de sermos nós a caminhar o que escolhemos como caminho. E caminho rima com carinho…, que é a admiração que aprendemos a ter por nós próprios.

Categorias: Opinião

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