Procura por marmitas saudáveis aumenta e leva empresa a diversificar negócio

A Eat This! healthy foods vende marmitas de comida saudável destinadas à ultracongelação. O sucesso já permitiu lançar outras duas marcas: uma destinada à confeitaria e outra ao brunch

Pedro Torres abriu a empresa uma semana antes do primeiro confinamento © D.R.

Março de 2020. A pandemia da covid-19 entrava pelas nossas casas adentro para não voltar a sair até hoje. Além das complexas questões de saúde pública, começava aí uma crise económica sem precedentes. Em teoria seria a pior altura para abrir um negócio. Mas foi naquele mês de março do ano passado que a Eat This! healthy foods – marca de marmitas de comida saudável – começou a laborar e desde daí só tem vindo a consolidar o sucesso.

“Tudo começou porque eu tenho uma ligação muito forte aos ginásios, eu sou personal trainer (PT) [treinador pessoal]”, recorda ao Diário da Lagoa (DL) Pedro Torres, fundador da marca. A família de Pedro já tinha um restaurante em Ponta Delgada o que lhe permitiu arrancar com a ideia. Primeiro, começou por criar umas marmitas saudáveis para vender apenas num ginásio em exclusivo. “Aí nós começamos a receber propostas de pessoas fora do ginásio a dizer que queriam adquirir essas mesmas refeições”.

Depois, face ao sucesso, Pedro Torres decidiu criar a “própria marca”, a Eat This! healthy foods, lançada a sete de março de 2020, num evento de fitness nas Portas do Mar. No início, a intenção era que as refeições fossem vendidas em ginásios, quase como produto de especialidade, mas a pandemia trocou-lhe as voltas.

“Uma semana depois do lançamento, fechou tudo, foi o primeiro confinamento. Tivemos de reinventar a marca completamente. Não havia ginásios para vender, tivemos de apostar em novos desafios”. Nessa reformulação forçada, investiram ainda mais no digital, através do site de vendas e da divulgação nas redes sociais – onde continuam a ter uma presença forte. “Nós temos de estar onde as pessoas estão porque não temos espaço físico. Se as pessoas estão nas redes sociais, nós temos de estar lá”.

Por isso, apesar do arranque conturbado pelas vicissitudes da pandemia, o sucesso foi imediato. É que naquela altura “toda a gente estava em casa” e o conteúdo publicado nas redes sociais pela Eat This foi “assimilado quase na totalidade”.

“Até hoje as vendas mais fortes foram as duas primeiras semanas da primeira quarentena, em março, não estávamos nada preparados para isso. Nós tínhamos uma estrutura já criada antes do lançamento, mas uma semana depois essa estrutura já não valia nada”, explica Pedro Torres, reforçando que foi necessário criar uma “estrutura completamente nova” para a marca “não ir ao fundo”.

Em vez de ir ao fundo, a marca ganhou asas. Em maio de 2020, através de uma parceria com uma transportadora, passaram a fazer entregas em todas as ilhas dos Açores. Em pouco tempo, já eram uma marca com implementação regional. “Demos um salto muito grande quando começamos a entregar nas ilhas todas”.

O modelo de negócio e a expansão

Negócio aposta na venda de packs de marmitas saudáveis para várias ilhas © D.R.

Mas afinal como é que funciona essa lógica de marmitas saudáveis? Pedro Torres explica: “Nós vendemos refeições em packs, ou seja, nós vendemos 10, 20, 30 ou 40 marmitas para as pessoas terem em casa no congelador. Assim é que é a forma correta de comer marmitas, porque temos a estrutura alimentar toda planeada durante algum tempo, até para não haver falhas na alimentação”.

Indo por partes. Existem packs de diferentes preços, caso a entrega seja em São Miguel ou nas restantes ilhas. A ementa difere conforme o pack. O pack Deluxe, por exemplo, é composto por 12 marmitas e traz refeições de lombo de salmão, de atum, de hambúrguer e almôndegas de bovino, courgette recheada com frango e frango tikka masala. “Muita gente pensa que comer saudável é comer duas latas de atum e uma folha de alface, mas não é assim. Comer saudável é comer comida não processada, basicamente”.

Ou seja, é possível ser saudável e comer bem. O objetivo da healty foods é que tal estilo de vida não seja apenas uma passagem efémera. Por isso, não é possível, por exemplo, comprar uma unidade (o mínimo são 10) para consumo no próprio dia. A intenção é que a pessoa desenvolva um plano de alimentação regular e saudável, com um planeamento a médio prazo, até porque as marmitas estando ultracongeladas aguentam três meses.

O preço também difere conforme as marmitas. Por exemplo, um pack de dez marmitas, entregues na casa do cliente custa 55 euros. Já se for 20 refeições, o preço fica a 99 euros com a entrega – nesse último exemplo cada refeição fica por 4,95 euros.

É um modelo de negócio diferente do habitual, o que muitas vezes gera confusão a alguns interessados. “As pessoas são um pouco resistentes à nossa forma de trabalhar”, assume Pedro. Uma resistência que muitas vezes se aplica à própria ideia da marmita. “Foi uma luta e ainda é”, diz, sobre a necessidade de convencer as pessoas sobre a utilidade da marmita. Uma luta, que em muitos casos, acaba por se transformar numa vitória. É que, depois de habituados, os clientes reconhecem a eficácia do modelo. “Muitos clientes depois dão-nos razão. Porque acaba por ser cómodo e elimina várias preocupações: elimina preocupação de ir às compras e de cozinhar”.

A prova disso acabou por ser a experiência dos próprios clientes. Inicialmente, Pedro pensou que as suas marmitas iriam ter maior saída junto de desportistas ou de empresas de atividade física. Afinal, grande parte dos clientes são pessoas que não têm tempo para cozinhar. “As nossas vendas aumentaram para pessoas que não têm muito tempo, porque ou trabalham por turnos ou de noite, essas pessoas é que são o nosso verdadeiro cliente. Não estávamos à espera disso”, afirma, revelando que a maioria dos clientes está em São Miguel e na Terceira, sendo as Flores a ilha que “mais surpresa causou”.

Face ao sucesso, sob o chapéu do Eat This decidiram lançar outras duas marcas: a Eat This Cookies, para fazer doçaria e pastelaria (porque às vezes também é preciso matar a gula); e o Eat This Brunch, onde confecionam um brunch completo para entregar aos domingos e onde despontam, entre outros, panquecas, fruta fresca, açaí e ovos benedict.
As outras marcam permitem que o negócio seja viável o ano inteiro, contornando a imprevisibilidade da comida saudável. “Nós temos uma balança: quando o lado da healthy foods sobe os outros descem sempre. Na altura do Natal ou noutras festas, as pessoas não estão preocupadas com comida saudável”. Seja como for, em qualquer dos casos, os produtos são quase sempre açorianos. “Em qualquer das marcas, tentamos ao máximo usar só produtos da região. Temos os nossos próprios produtores que produzem diretamente para nós”. Saudável ou talvez não: agora é só escolher.

Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição impressa de maio de 2021

Categorias: Reportagem

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