Que lutas se levaram para as eleições autárquicas? As que realmente importam?

Miriam Rebelo Ponte
Advogada/ Empresária

Este mês que passou, fomos chamados a decidir sobre o futuro dos nossos concelhos.

Chegados ao início da vida adulta, deparamo-nos já com a segunda grande crise das nossas vidas: pandémica, económica, política e social.

Os preços exorbitantes da habitação, a instabilidade laboral e a crise climática deixam-nos antever um futuro sempre adiado e hipotecado. Sabemos que a alternativa de que precisamos se constrói nas ruas, nos locais de trabalho, nas escolas e faculdades e nas nossas freguesias e concelhos. Nestas eleições autárquicas, uma resposta justa à crise começa com garantir o direito à cidade e habitação, direitos laborais, acesso à mobilidade e à cultura nas nossas autarquias.

Em 2021, a especulação imobiliária fecha portas a tantos e tantas jovens que procuram uma casa para começar uma vida ou para prosseguir os estudos. Comprar uma casa torna-se, então, numa miragem cada vez mais distante, com a especulação imobiliária desenfreada e a precariedade laboral que se tornaram a regra nas nossas vidas. Precisamos de investimento na habitação pública, a preços acessíveis e controlar rendas através do combate à especulação imobiliária.

Nas grandes cidades e mais tarde nos Açores, com o eclodir da pandemia, vimos as ruas encherem-se de centenas de jovens com mochilas verdes ou amarelas, montados nas suas bicicletas e a caminho ou de regresso de mais uma entrega, da qual recebem uma pequena parte. Quer seja com as novas ou as velhas formas de precariedade, sabemos o que nos espera: trabalhar a mais e receber a menos. A instabilidade e a precariedade, que alimentam os lucros das grandes empresas e enriquecem o 1%, pesam cada vez mais nas costas de uma geração que olha para um futuro incerto. Não queremos mais esta receita do empobrecimento, da desigualdade e da austeridade. Queremos luta contra os baixos salários, contratos precários e pelo direito à dignidade no trabalho, não só no período das eleições autárquicas.

Não é tudo. Ao mesmo tempo, importa reforçar a resposta e a prevenção da violência de género a nível local. Milhares de mulheres partilham o teto com os seus agressores, particularmente desde o início da pandemia. Nos Açores, os inquéritos por violência doméstica aumentaram cerca de 15% durante a pandemia.

Está na hora dos nossos municípios encetarem um combate sério à violência de género, investindo em casas abrigo e na formação de forças de segurança melhor preparadas para lidar com as vítimas.

O 25 de Abril de 1974 conquistou-nos o direito à participação democrática e ao envolvimento direto na vida política do sítio onde vivemos. O seu projeto era o de garantir habitação digna, trabalho com direitos, acesso à saúde e à educação. Ainda falta caminhar muito para que lá cheguemos. Quero, enquanto jovem, dar continuidade a esse projeto, fazer esse caminho que Abril abriu. Agora, e mais que nunca, precisamos de levar a justiça social e um projeto de um futuro digno para todos os jovens aos nossos concelhos, não podendo ser um projeto apenas para quatro anos.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de outubro de 2021

Categorias: Opinião

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