Romaria Quaresmal: À conversa com o Mestre Fernando Maré

Adriano Couto e Fernando Maré recebidos pelo Papa João Paulo II, na sua visita à ilha de São Miguel, em 1991 © D.R.

Celebrando-se este ano os 500 Anos das Romarias Quaresmais, a EBI de Lagoa propôs-se também comemorar esta tradição religiosa micaelense. Na disciplina da História e Geografia de Portugal foi-nos pedido para fazermos trabalhos sobre esta manifestação de fé. Para realizar o meu trabalho fui conversar com o Mestre dos romeiros da Ribeira Seca da Ribeira Grande, Fernando Maré. Aqui fica o seu testemunho.

O senhor Fernando começou a fazer romarias para cumprir uma promessa. No dia em que fez 16 anos, o seu pai caiu inanimado na rua. O senhor Fernando foi numa correria chamar o médico para o vir ajudar. Não sabia se ele iria recuperar, por isso, prometeu ir numa romaria a pão e água. Felizmente, o seu pai recuperou e o senhor Fernando cumpriu a sua promessa indo de romeiro no rancho de Santa Bárbara, pois não havia um rancho de romeiros na Ribeira Seca, porque não havia Mestre.

Rancho de romeiros de Santa Bárbara, no primeiro ano que o romeiro Fernando foi na romaria, em 1958 © D.R.

Naquele tempo, Santa Bárbara era um lugar da Ribeira Seca e era costume os homens deste lugar integrarem o rancho de Santa Bárbara. O senhor Fernando foi na romaria e gostou tanto que dois romeiros, que estavam naquele rancho há vários anos, o convidaram para ir como ajudante do Mestre no ano seguinte. E foi o que aconteceu, naquele ano foi como ajudante e no ano seguinte já foi como Mestre e nunca mais parou, até aos dias de hoje.

Já fez 37 romarias a pé tendo preparado muitos homens para o substituírem. Por razões físicas deixou de poder ingressar o rancho a pé, indo desde então no seu carro de madrugada até à noite.

Para o senhor Fernando Maré uma romaria, quando bem preparada e bem orientada, é o melhor retiro espiritual que um cristão pode viver. Certamente que depende muito do seu mestre e da sua equipa. O senhor Maré diz que é difícil explicar as emoções que sentimos durante a romaria, só vivendo-as.

Para este senhor, ser romeiro não é mais do que ser uma pessoa que acredita e vive o cristianismo. Ser romeiro não é ser um homem perfeito, porque todos são pecadores, é ser uma pessoa que acredita na oração, no perdão e em Jesus Cristo.

Ano em que Fernando foi como ajudante do Mestre dos romeiros da Ribeira Seca, Manuel Aguiar © D.R.

O romeiro leva um xaile pelos ombros, um lenço por cima do xaile, um bordão numa mão, um terço na outra mão e um outro ao pescoço, e um saco às costas por debaixo do xaile. O xaile é usado para se cobrir e abrigar-se das intempéries; o lenço é usado para cobrir a cabeça nas madrugadas frias; o bordão serve para se apoiar nas subidas e descidas íngremes; um terço para rezar e o outro para oferecer a reza do terço às pessoas que lhe dão pernoita; e um saco para levar alguma comida e algumas mudas de roupa.

Romeiros da Ribeira Seca na passagem por Ponta Delgada, nos primeiros anos em que já era permitido passar em Ponta Delgada © D.R.

Há quem atribua a este vestuário os símbolos da Paixão de Cristo. Assim, a saca aos ombros significa a cruz de Cristo; o lenço na cabeça significa a coroa de espinhos; o xaile significa a túnica com que cobriram o Senhor; e o bordão significa a cana que puseram na mão do Senhor.

Termino este texto com um agradecimento muito grande ao senhor Fernando Maré que, com todo o gosto, partilhou comigo um pouco da sua vida e da sua fé.

Gonçalo Martins,
6.º B, EBI de Lagoa

Categorias: Opinião

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