Salvem o património!

Joana Simas
Museóloga

Nas últimas semanas instaurou-se a polémica em torno da destruição do património cultural. Os casos reportam-se à destruição de uma Anta do período do Neo-Calcolítico numa herdade no Concelho de Mora, no distrito de Évora, alegadamente durante a movimentação de solos para plantação; o segundo caso, refere-se à possibilidade de destruição dos vestígios da mesquita medieval encontrados na Sé de Lisboa durante as obras de requalificação e restauro do Claustro da Sé por “não ser compatível com a execução da obra em curso”.

O burburinho levantou-se de imediato, não só por alguns especialistas na matéria, mas também por cidadãos que se preocupam com a História, com a Memória e por inerência com a Identidade do Ser Português. Depressa nas redes sociais, e não só, a polémica alastrou-se, gerando debates, petições e surtindo alguns efeitos positivos: a sensibilização para a preservação do Património Cultural, um tema que deve estar cada vez mais presente na sociedade. Por Património Cultural entende-se o conjunto de “todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização” (Lei nº107/2001, artº2). O elemento determinante que define este conceito é a sua capacidade de representar simbolicamente uma identidade, fenómeno pelo qual os indivíduos assumem e/ou aderem a determinados elementos que selecionam para serem preservados.

O Património não está exclusivamente fechado em museus, que desempenham a função de salvaguardá-los. Está um pouco, passo a expressão, “ao virar da esquina” e porventura à mercê dos ataques à nossa herança cultural. Reporto para o caso dos restauros desastrosos que são, também, um atentado ao património. No campo do património religioso existem exemplos horripilantes. Quem não se lembra do polémico pseudo-restauro da pintura do Ecce Homo em 2012, em Espanha, protagonizado por uma “pessoa de boa-fé”? Neste caso, como noutros, prevalece a boa-vontade de voluntários que, por não serem especialistas na matéria, realizam intervenções que acabam por ser destrutivas e muitas vezes irreversíveis, sobrepondo-se às orientações para a conservação e restauro de bens seguidas pelos profissionais da área.

Voltando à questão inicial. Depois de tanta insistência na preservação dos achados arqueológicos da Sé, até à data da redação deste artigo, ao que parece, a Ministra da Cultura determinou a conservação das referidas ruínas, musealizá-las e integrá-las no projeto de recuperação e musealização, uma decisão sensata, que em parte, creio eu, se deve à voz ativa e colaborativa da sociedade civil e académica preocupada com estas questões. Esta destruição levaria à perda de vestígios de uma mesquita almorávida do século XII, apontados alguns exemplos como únicos no contexto ibérico e marroquino, e que fazem parte da nossa Cultura.

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de novembro de 2020)

Categorias: Opinião

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