Sandra ocupa o lugar que já foi do pai: é a única guarda florestal do Parque da Macela

Lidera uma equipa de seis homens e mora com a família na mesma casa que em criança tinha ocupado. Conta que a pandemia fez aumentar o número de visitantes no Parque da Macela

Sandra Pires nasceu nas Furnas mas desde sempre esteve ligada à Lagoa onde é guarda florestal há oito anos © DL

Por aqui, o telefone nem sempre apanha rede e quando tocou, a conversa com o Diário da Lagoa tinha acabado de terminar. Decorreu numa das muitas mesas de madeira, rodeadas por um verde imenso e quase elétrico vindo das árvores e da relva. “Ele vai-me ligar até às quatro”, garantia antes. E ligou. Do outro lado da linha estava o chefe de Sandra Pires, 46 anos. Dera-lhe indicação para isolar com fita, todas as churrasqueiras da Reserva Florestal de Recreio da Chã da Macela, mais conhecida por Parque Florestal da Macela, na freguesia de Santa Cruz, na Lagoa, devido ao aumento do número de casos de covid-19 na ilha de São Miguel. Tudo para evitar os ajuntamentos que têm sido responsáveis por boa parte dos contágios.

Sandra é a única guarda florestal do maior parque florestal do concelho. Há vinte anos que exerce uma profissão muitas vezes invisível. Mas a relação com este emblemático parque, repleto de natureza, já vem de longe. O pai de Sandra já tinha sido guarda florestal durante 15 anos neste mesmo local. E quem toma conta dele tem de “abdicar da vida lá fora” para viver na casa instalada no parque, que não é de todo desconhecida para Sandra. “Já tinha morado aqui nesta mesma casa dos 12 aos 17 anos, foi um retomar das raízes porque voltei à casa onde me criei”, garante a guarda florestal. Por isso, quando recebeu o convite, e apesar de ter casa própria em Rabo de Peixe, não pensou duas vezes: “gostei tanto de morar aqui em pequena que quando me foi proposto voltar disse ao meu chefe que, se dependesse de mim, dizia logo que sim, mas claro que tinha de falar com o meu marido para saber se ele estava interessado em deixar a nossa casa e ir para um sítio isolado”.

A experiência correu tão bem que, entretanto, já se passaram oito anos. Mora na Macela com o marido e o filho de 17 anos — quer seguir engenharia mecânica mas também não exclui vir a seguir as pisadas da mãe. Garante que, até agora, nunca teve problemas de segurança e não tem qualquer receio pelo isolamento a que ela e a família estão vetados.

Trabalhar com e na natureza é um íman que, desde miúda, a atrai. Criou este “bichinho” pela profissão devido ao pai, numa altura em que a mesma casa, onde agora vive com a família, tinha outras condições. “Sempre me lembro da minha infância e adolescência aqui em cima e adorava, tinha cavalos e eu adorava isto mesmo não havendo canalizações, luz elétrica, caminhos asfaltados”, lembra. Para ter luz, ligavam um gerador quando anoitecia que funcionava até irem dormir.

Lidera equipa de seis homens num parque com 26 hectares

Apesar de ter nascido nas Furnas, Sandra Pires sente-se mais lagoense do que furnense. Garante que é preciso “muito amor” para viver 24 sobre 24 horas num parque florestal mas são mais as vantagens do que as desvantagens. “Aqui tenho mais liberdade e mais qualidade de vida e posso deixar a minha marca. Em Ponta Delgada o serviço que tinha era diferente. Aqui posso dizer que fui eu que construí isto, fui eu que plantei aquela árvore”, assegura.
Sandra é responsável por uma equipa de seis assistentes operacionais. Todos, em conjunto, fazem a manutenção do parque, o que inclui limpar, podar, alimentar e cuidar das dezenas de animais do espaço, o ex libris do parque — já iremos falar deles.

Confessa que quando assumiu funções, por parte de quem já trabalhava na Macela há mais tempo, sentiu alguma reticência por ser mulher. Antes de responder, ri-se: “fui bem aceite. No início havia quem me perguntasse se não queria ir para casa recolher a roupa, fazer as camas, e eu disse, ‘não, depois das quatro tenho tempo para isso tudo’”. Agora, assegura que “não há chefe e subalterno, somos uma equipa que se dá toda bem e o serviço é para fazer”, explica.

Os animais continuam a ser muito procurados por quem visita a Macela. As contas não são claras de se fazer, porque ainda são algumas dezenas. Só veados são 28. Depois existem as galinhas, os pavões, os perus, todas as aves do centro de cinegética e ainda as perdizes. Sandra e a equipa fazem reprodução de perdiz cinzenta: “criamos para fazer repovoamentos, colocando no terreno para ver se se adaptam. Depois há o descascar, o criar e quando elas têm 14 a 18 semanas vão para o terreno para ver se se adaptam”.

Pandemia fez aumentar número de visitantes

Com o confinamento a que a ilha e o mundo se viram obrigados devido à covid-19, a procura pelos espaços verdes aumentou e muito um pouco por toda a ilha. Quem o garante é Sandra que, em conversa com os colegas dos restantes parques de São Miguel, lhe transmitem o mesmo que ela própria tem assistido na Macela. “Há muita gente a visitar os parques, crianças, famílias, avós com netos. Saturados de estar em casa vêm para um local onde as pessoas podem estar distanciadas, não há o perigo de estarem muito perto umas das outras”, explica a guarda florestal.

Esse aumento do número de visitantes, aumenta também velhos problemas. “As pessoas muitas vezes põem o lixo no chão, infelizmente, não se sabem comportar e não tentam deixar da maneira que encontraram”, lamenta Sandra. E no verão a situação ainda é mais grave: “as pessoas atiram para dentro do jardim garrafas de cerveja, copos de sumo, para esconder e não sabem que não estão escondendo estão é dando ainda mais trabalho a quem vai limpar”.

Por outro lado, também vai recebendo elogios: “o reconhecimento das pessoas que vêm aqui é muito bom. Algumas dizem ‘ah já não vinha cá há 15 anos e isto está tão bonito, tão florido’, é bom recebermos esses elogios,” assegura. Também já estranhou quem lhe tivesse confidenciado que era ótimo se a Macela tivesse uma piscina. “Com tanta água salgada quem pode querer isso?” questiona.

Mesmo vivendo numa casa que tem como quintal um parque que é de todos, com todos os constrangimentos que isso acarreta, Sandra não se vê dentro de um gabinete e em frente a um computador. Garante que se não visse notícias, não fazia ideia que o mundo estava embrulhado e agastado por uma pandemia mundial. Não troca esta bolha de ar puro por outro sítio ou outra profissão. Vai continuar até lhe deixarem, cumprindo diariamente, o trabalho e a missão que em tempos viu o pai cumprir: zelar e cuidar de um dos mais valiosos patrimónios da humanidade, a natureza.

Sara Sousa Oliveira

Reportagem publicada na edição impressa de maio de 2021

Categorias: Reportagem

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