Se as trocas culturais e comerciais fossem canceladas pela guerra: um universo paralelo

Rita de Sousa Pereira
Mestranda em Gestão e Planeamento em Turismo

Por costume, ouço sempre que sou do contra. Duvidar, subir ao muro para ver o outro lado, pensar numa outra opção ou solução e validar a perspetiva alheia: todos grandes talentos meus. Sobre a invasão da Ucrânia pelos russos, continuo com o mesmo feitio antagónico e disruptivo, mas não no sentido que muitos esperam.

A guerra é condenável e não há complexidade geopolítica que nos valha o apoio a Putin. As verdadeiras vítimas são os ucranianos (porque aliás é o seu território a ser destruído) e, sem esquecer, os russos – aqueles que lutam obrigados e os que se opõem publicamente contra os crimes do regime.

A principal contradição passa pela hipocrisia e histerismo: começa com a desvalorização de outros conflitos, igualmente com um número de vítimas elevado; continua no desespero e imediatismo por mostrar apoio, por condenar sem contexto; e acaba, ufa, no aproveitamento político e grandes demonstrações públicas de anti-belicismo, mas com olhos fechados e exceções para “conflitos de bem” quando são chamados para votar.

Ainda de forma velada, ocorre a justificação da xenofobia. Existe realmente quem não saiba separar um déspota da cultura e contributo de um povo que, em muitas ocasiões, é igualmente vítima deste. No desespero por pertencer ao rebanho de condenação, talvez até por pressão pública, algumas “sanções” aplicadas, que deveriam ser realistas e afetar o poderio dos oligarcas, viraram chacota.

Em algumas universidades, obras seculares, contributos para a filosofia e pensamento moderno, foram banidas por serem russas, filmes foram também proibidos, o Ikea e o Grupo Inditex saem do país (nesta eu ri, confesso) e até um marketing Pepsi vs Coca-Cola é chamado para o barulho, porque a Pepsi decide deixar de vender na Rússia e a concorrente não.

Muitas vezes, para entendermos o ridículo é preciso ser do contra. Convido então os leitores a imaginar comigo um mundo paralelo de trocas culturais e comerciais canceladas pela guerra.

Acaba-se o McDonalds, o Mickey e a Frozen, a luz da vela dá preferência às lâmpadas, os quadros de Pollock saem das paredes do Tate e filmes só os de Manoel de Oliveira. A Ponte Luís I substituída porque é francesa e os croissants vão pelo mesmo caminho do cancelamento. As especiarias, tecidos, ouro e outras pedras não são comercializadas. Fernando Pessoa não se ensina no Brasil. Adidas fora das prateleiras e, já que entramos no tópico, quem usa Hugo Boss shame on you, quem tem carros Ford, Volkswagen e da lista extensa de afilhados de Hitler igualmente. Deslocações só a pé ou de bicicleta, mas é preciso ter cuidado, se for de origem holandesa, quem se lembrar dos genocídios em nome da colonização de África não compra. O sushi- ah, por favor, o sushi não! Neste universo paralelo, nem a própria escrita se salvava, nem este artigo era escrito.

Entende-se então a necessidade urgente de compreensão crítica dos eventos e que todos os povos têm esqueletos nos armários. Não será um conflito bélico que deverá justificar a xenofobia e as proibições ridículas que continuarão a ocorrer. Quem não é do contra chegará lá, levará apenas mais tempo. Não se preocupem, o tempo é amigo da História.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de abril de 2022

Categorias: Opinião

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