Secundária de Lagoa faz primeiro registo em Portugal do “Peregriana peregra”

Descoberta de molusco de água doce inserida em projeto que conquistou menção honrosa na Mostra Nacional de Ciência

Filipa Vieira, Diogo Sousa e Miguel Soares foram orientados pela professora Alexandra Seara | FOTO CORTESIA FILIPA VIEIRA

É um “caracolinho”. O termo era carinhosamente usado por Filipa Vieira, Diogo Sousa e Miguel Soares, ex-alunos da Escola Secundária de Lagoa (ESL), quando estavam a manipular, em laboratório, o Peregriana peregra, um molusco de água doce. Nessa altura, ainda nem sabiam que tinham feito uma descoberta e que ninguém a tinha, sequer, registado em Portugal.
“Era muito pequenino. Para fazer a extração do DNA tivemos que tirar a carapaça do ´caracolinho´, depois fizemos o PCR como se faz com a covid-19, fizemos a eletroforese e mandamos para sequenciação no continente”, começa por explicar Filipa Vieira, ao Diário da Lagoa.

A agora aluna do primeiro ano de Ciências Biomédicas Laboratoriais na Escola Superior de Saúde do Porto, sabe do que fala. Ela, os outros dois colegas e a professora Alexandra Seara, da ESL, com duas investigadoras da Universidade dos Açores (UAc) – Manuela Parente e Ana Cristina Costa – conseguiram um feito inédito. O grupo é responsável pelo primeiro registo, em Portugal, a partir dos Açores, do molusco Peregriana peregra no GenBank, a base mundial de registo de genética de milhares de seres vivos de todo o planeta. “Foi engraçado porque nós coletamos uma espécie, que era a Radix balthica. Depois os resultados do laboratório no continente vieram-nos mostrar que aquela espécie não era a que pensávamos mas outra identificada pela primeira vez aqui nos Açores, ainda ninguém tinha feito um estudo molecular e registado no GenBank em Portugal”, explica Alexandra Seara.

Espécie foi detetada nas Furnas
Mas como chegaram a esta descoberta? A viagem começa em 2018 com uma turma do 12º ano da ESL e um projeto de Erasmus+ que se concretizou entre a Lagoa e a Suécia. “Aqui nos Açores e na Suécia há um problema relacionado com um parasita que afeta o gado ovino e bovino. Como tínhamos esse parasita em comum nos dois países decidimos investigar esse tema”, conta Alexandra Seara. O tal parasita afeta a condição física do gado e é responsável por elevadas perdas económicas.

Na Suécia, surgiram várias dificuldades: “o clima deles limitou-os muito na recolha de amostras e das vezes que saíram para o campo para apanhar os caracóis não os encontraram”, sublinha a docente. Sorte diferente tiveram os alunos açorianos que arregaçaram as mangas e na zona das Furnas conseguiram encontrar o que procuravam. “Sabíamos que aqui nos Açores havia uma espécie de molusco terrestre que transmite o parasita fasciola hepática às vacas. A nossa ideia era verificar se haveria outras espécies de moluscos que também pudessem ser transmissores. Sabíamos que este molusco vive em pastagens em zonas com água, tipo os tanques das vacas, charcos, meios alagados”, prossegue Alexandra Seara. Está cientificamente comprovado que o molusco que transmite o parasita – a fasciola hepatica – às vacas é a “galba truncatula”. “Fazia-nos confusão como é que só um era responsável pela transmissão do parasita”, admite a docente responsável pelo projeto.

Entre o trabalho de campo e os resultados finais passaram-se quase dois anos. Contribuíram positivamente para a investigação, a chegada de material de laboratório de ponta à ESL. A Secundária da Lagoa é a única da região a ter um termociclador, uma máquina que permite fazer cópias de DNA, usada para os testes covid-19. Mas ainda antes de terem disponível o material de laboratório na escola, a professora e os três alunos foram várias vezes à UAc aprender com quem sabe. “O trabalho foi feito em parceria com o departamento de Biologia da UAc com a professora Ana Cristina Costa e a investigadora Manuela Parente, sem este apoio, este tipo de trabalho não se consegue fazer”, garante Alexandra Seara.

O grupo da ESL contou também com a ajuda do professor jubilado Frias Martins, malacólogo, um investigador que se dedica ao estudo dos moluscos, “um dos melhores a nível mundial”, garante a docente.

Secundária de Lagoa a única a representar os Açores
Nos últimos meses da investigação a pandemia, também neste caso, afetou o desenrolar do projeto levado à Mostra Nacional de Ciência. “Não pudemos aprofundar muito os resultados, trabalhamos com poucas amostras. Ainda assim, o que podemos concluir foi que não podemos descartar a hipótese da ´fizela´ não ser um hospedeiro intermediário”, explica Alexandra Seara. E também não é de descartar a possibilidade da Peregriana peregra, registada pela primeira vez pelo grupo da ESL, transmitir o parasita.

O momento da atribuição da menção honrosa ao projeto da Secundária da Lagoa foi acompanhado em direto por Filipa Vieira. “Tinha saído da universidade, estava no autocarro a ir para casa e só oiço, no telemóvel, que o projeto vencedor da menção honrosa é o projeto da fasciola hepática, e eu, ´ai meu deus não sou eu!´”, conta a aluna que diz ter ficado “emocionada” por ser “muito bom saber que, de entre todos os envolvidos, o nosso projeto foi um dos premiados”.

No total, participaram 54 projetos sendo a ESL, a única a representar os Açores. A menção honrosa que conquistaram, na Mostra Nacional de Ciência, é um passaporte para uma participação na Expo de Ciência do Luxemburgo que se irá realizar online em março de 2021.

Sobre a importância deste tipo de atividades, extra curriculares, Filipa dá um exemplo: “ainda ontem na universidade tive que utilizar uma micropipeta. Ao contrário de todos os meus colegas eu já sabia utilizá-la porque já a tinha utilizado com a professora Alexandra”. O trabalho foi moroso e enfrentou vários obstáculos mas os resultados não desiludem e o projeto coloca a Secundária da Lagoa no mapa nacional da biologia molecular.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2021)

Categorias: Educação, Reportagem

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