“Só falta baterem-nos na cara!” Ou será que já não o fazem?

Luís Furtado
Enfermeiro

Em vésperas de assinalarmos mais um Dia dos Açores e, assim, evocar a Açorianidade e a Autonomia, eis que um conjunto de distintas figuras do regime há meses instalado na Região decide fazer uso da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores para o lançamento de uma candidatura à Câmara Municipal da Horta, insultando, assim, com a naturalidade que lhes é tão característica, a Casa da Autonomia e, através desta, todos os Açorianos. Atrevo-me a dizer que até mesmo os mais beatos e devotos crentes desta cenosa coligação que governa os Açores devem ter ficado com os cabelos em pé com mais este episódio, cobertos do tão embaraçoso sentimento de “vergonha alheia”.

A este propósito, ouvia um comentário na rua sustentando que “só falta baterem-nos na cara”. Pois eu vou um pouco mais além, digo que que já nos batem na cara, e já o fazem há alguns meses! Batem, injuriam, troçam e, com todo o atrevimento, relativizam e assobiam para o lado como de nada se tivesse tratado.

O respeito que este Governo evidencia pelos Açores e pelos Açorianos, assim como o respeito que os parceiros de coligação e os parceiros que, no Parlamento dos Açores, suportam esta solução, é absolutamente inexistente. A falta de sentido institucional do Governo & Cia., expressa por aqueles que o constituem ou a ele estão associados, tem sido uma das grandes marcas da governação nos Açores desde novembro último, coisa a que não estávamos habituados.

Este episódio é em tudo comparável à desvalida figura que o desaparecido Presidente do Governo Regional dos Açores se prestou quando recebeu o líder nacional do partido da extrema-direita portuguesa no Palácio de Sant’Ana para tratar de assuntos de natureza político-partidária. Não aprendeu nada? Não lhe ficou suficientemente presente na memória o sentimento expressado pelo Açorianos sobre o ocorrido? Será apenas arrogância e prepotência? Ou, simplesmente, não ter noção de nada? Há um proverbio chinês que pode bem traduzir o que por aqueles lados vai: “os sábios aprendem com os erros dos outros, os tolos com os próprios erros, já os idiotas, estes, não aprendem nunca”.

Esta forma de estar nos cargos públicos é o estrume que faz germinar a semente da extrema-direita, do discurso de ódio, do descrédito nos atores e agentes políticos. Abre espaço para o discurso e para a ação que mina os alicerces da democracia. É importante não nos esquecermos de quem está profundamente empenhado em adubar esta realidade perversa!

O atual Presidente do Governo Regional dos Açores, em campanha eleitoral, e no seu discurso de tomada de posse, prometeu uma mudança, em toda a linha, na forma de fazer política, na forma de estar perante a coisa pública, perante os Açorianos. Francamente, nunca pensei que conseguisse, mas o facto é que superou todas e quaisquer expetativas, conseguindo inaugurar um registo que, em 45 anos de Autonomia, não havia sido ainda tentado ou conseguido, um registo que diminui as instituições da Autonomia, os órgãos de governo próprio da Região, os representantes do Povo Açoriano e, no seu conjunto, a própria Região Autónoma dos Açores.

Há uns meses foi o líder nacional da extrema-direita no Palácio de Sant’Ana, agora foi o anúncio de uma candidatura autárquica no Parlamento Açoriano. E amanhã, o que será? Uma churrascada e uma bejecas no plenário?

Até quando temos nós de tolerar isto? Até onde estamos, enquanto Açorianos, dispostos a aturar o desnorte que graça na governação dos Açores? Até quando vamos permitir que as instituições da Autonomia sejam continuamente desacreditadas e utilizadas para fins como este que todos presenciamos? Até quando?

Categorias: Opinião

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