Sonho de Domingos Rebêlo de “manter ligação entre os dois lados do Atlântico” concretizado com exposição em New Bedford

Onde há um açoriano, há obras de Domingos Rebêlo, sublinha Jorge Rebêlo, historiador e neto do pintor, que investiga e inventaria a obra do artista. É também o curador da exposição “The Azorean Spirit: The art of Domingos Rebêlo”, patente até 22 de setembro no New Bedford Whaling Museum

Domingos Rebêlo – Maria da Glória Pereira Rebêlo (irmã do pintor) – cerca 1912, óleo sobre tela, 93 x 137 cm, coleção particular. Esta pintura integra a exposição “O Espírito Açoriano: A Arte de Domingos Rebêlo”, inaugurada a 31 de março do corrente ano no New Bedford Whaling Museum, nos EUA © João Silveira Ramos/ Arquivo Jorge Rebêlo

“Há cem anos, Domingos Rebêlo queria fazer uma exposição em New Bedford [no estado norte-americano de Massachusetts], para a então chamada ‘colónia de emigrantes’”, conta ao DL Jorge Rebêlo, neto do pintor.

Na altura, a exposição andou a ser preparada durante dois anos, “mas, depois, acaba por não acontecer”.

Também agora, foram precisos quase sete anos para que se realizasse o antigo desígnio do artista, mas a mostra “The Azorean Spirit: The art of Domingos Rebêlo” pode finalmente ser vista, até 22 de setembro, no New Bedford Whaling Museum.

São 54 obras “representativas da obra de Domingos Rebêlo, em diversas técnicas, como óleo, aguarela, desenho e gravura”, explica Jorge Rebêlo, curador da exposição.

“Queria trazer 70, 71 obras, mas não foi possível, devido a toda a burocracia que implica”, confessa.

Para além das técnicas, esta exposição revela as “temáticas principais sobre que se debruçou: do retrato, da figura humana, e a questão da paisagem, tão importante para Domingos Rebêlo, e a interação da figura humana com esta paisagem”.

Jorge quis ainda mostrar o “trabalho por trás” das obras acabadas, com alguns estudos inéditos. “É como se as pessoas tivessem acesso a todo o processo para que se chegue a uma composição final”, afirma.

“Outra temática que vai ser focada é à volta dos emigrantes. O quadro mais famoso encontra-se no Museu Carlos Machado, uma composição de grandes dimensões, de 1926, só que o que descobri na investigação é que há dez obras sobre a temática”.

“O arco temporal desde que Domingos Rebêlo teve a ideia de conceber ‘Os Emigrantes’ começa em 1926 e, constantemente, volta a essa temática até 1956. É a última versão que faz de ‘Os Emigrantes’, já em forma de gravura em papel, a que vou levar para a exposição”, adianta.

A ideia é “dar a conhecer” a obra a um público que, “tirando algumas pessoas da comunidade açoriana, desconhece tanto o artista como a sua obra”.

Jorge acredita que “o sonho de Domingos Rebêlo era manter uma ligação entre os dois lados do Atlântico e fazer com que os emigrantes que se deslocaram para os Estados Unidos da América não perdessem a ligação às suas tradições, identidade e raiz”.

É por isso que Jorge Rebêlo traz a sua “interpretação, como neto e como investigador, da intenção [do pintor] em realizar a exposição há 100 anos”.

Um “trabalho para uma vida”

Com uma “obra gigantesca, espalhada pelo mundo”, o historiador esforça-se ainda por fazer um levantamento do trabalho do seu avô.

“Onde houver emigrantes portugueses e açorianos, há obras que as pessoas levaram. [Domingos Rebêlo] está listado em mais de 60 instituições. É uma obra muito grande, na casa dos milhares, com muita dispersão, quer em instituições, quer em particulares”, adianta.

Aproximou-se do trabalho do avô quando, em 1987, abordaram a família para fazer uma exposição na então recém-inaugurada Galeria Arco 8.

“Tínhamos o espólio familiar todo ali [na casa do artista em Ponta Delgada], ainda não tinha sido dividido pelos cinco filhos. Estar a acompanhar o meu pai e o meu irmão fez-me perceber que tínhamos um tesouro familiar”, confessa.

Daí, o historiador com especialização em História da Arte foi aprofundando a sua pesquisa. “Hoje, chego à conclusão de que serão quatro mil ou cinco mil peças, desde o mais pequeno esboço, até à pintura de maiores dimensões”.

“Há coisas perdidas, com certeza. Recebo contactos do Chile, da Austrália, Canadá, EUA, Brasil, depois aparecem obras em leiloeiras… Volta e meia aparecem em Lisboa”.

Ao fim de 30 anos dedicados ao estudo desse espólio, admite que “é realmente um trabalho para uma vida. Mas é um trabalho que a mim me desperta”, afirma.

Encara a missão como algo que vai além do interesse familiar, que promove um “património muito, muito rico” e que ainda tem muito a dizer.

“Por vezes, os acontecimentos mundiais – e passamos agora um momento dramático na Europa – ofuscam essa capacidade que temos de  perspetivar e relativizar a vida com esse contributo que a arte tem  de nos dar uma perspetiva maior, tanto interior, como exterior”.

Para Jorge, “uma das características mais curiosas em Domingos Rebêlo é que ele verte um olhar sobre a intimidade”.

“Há um lado muito profundo, de reflexão sobre si próprio, mas também do que está à volta. Há uma ligação que o artista faz sobre a natureza interna e a natureza externa, seja do ser humano, seja do ecossistema que nos rodeia”.

O curador destaca que, “mais do que nunca, quando a natureza à nossa volta está ameaçada, a arte também pode ser uma forma de nos sensibilizar, despertar, permitir-nos salvaguardar algo que é importante”.

Em vida, Domingos Rebêlo teve “obras nos cinco continentes: teve exposições individuais ou coletivas em São Francisco, na Califórnia, em Nova Iorque, no Rio de Janeiro duas vezes, em Paris, Sevilha, Veneza, Lisboa, Porto, São Miguel, Terceira, Moçambique, Goa… Durante a vida tentou fazer o máximo possível da divulgação do trabalho que realizava”.

Agora, o seu neto lamenta que “há muito tempo” não se vejam exposições do avô em Lisboa e que, além das iniciativas do Museu Carlos Machado no centenário do artista e, depois, pelos 125 anos, também nos Açores escasseiem grandes exposições, como a que está patente em New Bedford.

Este trabalho vai-o aproximando de uma pessoa de quem se lembra pouco, e, como “uma pessoa reservada, que não era muito de se expressar por palavras”, contrastando com a avó, “que era beirã, de Viseu, e falava pelos cotovelos”.

“Da minha parte, há também a curiosidade em saber quem era este avô, Domingos Rebêlo, o que fez, o que pretendeu fazer e qual o legado material e espiritual que nos deixou. É algo que me alimenta, que me enriquece, que me faz descobrir-me a mim mesmo. Permite-me manter esta ligação com o meu antepassado, que pretendo transmitir às próximas gerações”, remata.

Domingos Rebêlo nasceu em Ponta Delgada, em 1891, e aí viveu os primeiros anos da infância e juventude.

Aos 15 anos, foi estudar para Paris, onde conviveu com Amadeo de Souza-Cardoso, Santa Rita Pintor ou Dórdio Gomes.

Trabalhou toda a vida como pintor e professor, deixando um vasto legado.

Morreu em 1975, aos 83 anos, em Lisboa.

Inês Linhares Dias

Reportagem publicada na edição impressa de abril de 2022

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