“Temo-nos tentado aguentar mas é muito difícil”

Empresários da restauração na Lagoa falam em quebras de 70%. Nem a época festiva compensa a falta de clientes que se arrasta há meses

João Paulo Costa é dono do Aromas das Ilhas | SARA SOUSA OLIVEIRA / DL

“Está a ser muito complicado” é a frase repetida por todos e por cada um dos empresários que falaram com o Diário da Lagoa. Dez meses depois do início da pandemia, os restaurantes do concelho não escapam ao momento difícil que o setor atravessa, um pouco por todo o país.

João Paulo Costa é proprietário do restaurante Aromas das Ilhas, na Atalhada. Garante estar habituado a crises. O seu espaço nasceu numa, em 2012, mas “agora está pior porque a crise associa-se ao medo de sair de casa”, garante.

Natural da Lagoa, desde os 14 anos que está ligado ao setor da restauração e hotelaria. Tem conhecimento de causa e experiência acumulada de uma vida inteira dedicada ao setor que não tem memórias de dias tão difíceis. Dá vários exemplos de clientes que foram e não voltam. Há mais de um ano que um grupo de 11 amigos, todos com mais de 60 anos, escolhiam a quarta-feira para jantar no seu restaurante. “Há duas semanas falei com eles e perguntei, ´mas vão cancelar o jantar porquê? Estão com medo de apanhar o covid aqui?´ Eles disseram-me: ´não estamos com medo de apanhar o covid aqui, estamos é com medo de nos juntarmos para ir aos restaurantes´. As pessoas estão com medo de se juntarem”, garante João Paulo Costa. O empresário diz que o verão de 2019 “foi o melhor dos últimos nove anos”, e que o alojamento local e o turismo, que estava em alta nos Açores, arrastavam muitos clientes. Agora, o cenário é bem diferente. “No ano passado termos 50 almoços aqui era um domingo considerado fraco, imagine ontem, domingo, termos dado só dois almoços”, desabafa. A comparação deste ano com o ano anterior é inevitável. Se antes a época do Natal e ano novo poderiam ser uma almofada para os meses mais fracos de inverno, também este ano isso não vai acontecer. “Em 2019 estávamos cheios com eventos de Natal, de empresas e particulares. Este ano, a meados de dezembro, abrimos o livro de reservas e não temos uma reserva que seja para uma festa de empresa”, lamenta João Paulo.

“Isto até dá vontade de chorar”
Aquilo que vai ajudando a manter o negócio são os almoços que vão “salvando” as contas já que os buffets temáticos – principal cartão de visita do restaurante – já quase não se realizam por falta de clientes. E essa ausência, notada nos restaurantes um pouco por toda a ilha, levou este empresário a ter de pedir ajuda aos próprios funcionários. “Tive uma conversa com eles e eles abdicaram de uma parte do seu salário, eles é que disponibilizaram logo uma parte”, conta João Paulo que para, durante uns segundos, visivelmente emocionado: “isto até dá vontade de chorar”, lamenta. Diz que nem na crise de 2012 teve de fazer tal coisa mas garante que tem tudo em dia: subsídios de Natal, férias e impostos.

No Aromas das Ilha o serviço de take away no Natal e ano novo vem dar algum alento mas “na última semana de outubro, os clientes caíram a pique, com quebras na ordem dos 70 por cento, à vontade, mais até, seguramente”, assegura o empresário que tem a seu cargo cinco funcionários. João Paulo diz que os apoios disponibilizados pelo Estado “não chegam”. “Se as coisas não melhorarem vou ter de fazer aquilo que não queria que é ir à banca. Como estas cinco famílias que eu tenho aqui há centenas por aí, os governantes têm de olhar para isto, não é brincadeira”, alerta. Ainda assim João Paulo diz que é preciso manter a esperança mas só dá para viver dia a dia.

Carla Pereira e o marido gerem o José do Rego | SARA SOUSA OLIVEIRA / DL

Empresários queixam-se que apoios são insuficientes
Quem também não consegue pensar a longo prazo é Carla Pereira. Ela e o marido são proprietários do restaurante José do Rego, também na Atalhada. Ambos fizeram um avultado investimento na ampliação do espaço que conta com uma nova sala com mais 100 lugares, que agora de pouco lhes servem. As obras terminaram em maio e desde então só somam cancelamentos. “Estávamos cheios de reservas para batizados, na época das comunhões, comida para fora, cancelaram tudo” lamenta a proprietária.

Por aqui as quebras ultrapassam e muito os 50 por cento. “Costumávamos servir 50, 60 almoços diários, fora os clientes de ementa. Agora com a pandemia as pessoas têm medo, nota-se uma quebra muito grande depois também não há turismo, é muito complicado”, diz Carla Pereira. Agora se chegar aos 20 almoços diários já não é mau.

Até o serviço de buffet, com comida regional, a pandemia alterou. Agora têm três pratos do dia à escolha do cliente porque o sistema que tinham não é viável tendo em conta as restrições e a própria afluência de clientes. “Uma casa deste tamanho tem muita despesa, tenhamos ou não clientes, temo-nos tentado aguentar mas é muito difícil, ficam sempre coisas atrasadas, não se consegue, temos fornecedores atrasados, não tenho vergonha de dizer, é verdade, vamo-nos ajudando uns aos outros”, desabafa a empresária. À semelhança de João Paulo Costa, Carla Pereira também se queixa da ajuda do Governo que não chega para compensar as perdas e as despesas. Ainda assim garante: “perante isto tudo não podemos fechar a porta, temos de estar a servir o melhor que se pode, o melhor que se consegue, temos que faturar pelo mínimo que seja, tudo é bem vindo”.

Abel Cabral é dono de dois restaurantes em Água de Pau | SARA SOUSA OLIVEIRA / DL

“Nesta vida tem que se correr riscos”
Abel Cabral, na área da restauração há mais de 40 anos, considera que estar de portas fechadas não deve ser opção. “Esta época sempre foi fraca. Agora sem os casais que vinham de lua de mel para o hotel da Caloura, ou Bahia Palace, pior. Havia muita mais gente, mais turistas, essa gente desapareceu toda, a nossa comunidade emigrante também que vinha para as festas do Natal, estamos vivendo connosco e com o nosso mercado”, explica o empresário dono do Bar da Caloura e da Casa do Abel, na praça de Água de Pau. Neste último estabelecimento diz que tem tido saída o “take out” mas em ambos os restaurantes as perdas chegam aos 70%. A esplanada na Caloura é uma mais valia, nesta altura, para o negócio, sobretudo se estiver sol.

Com 24 funcionários, o empresário teme pelos próximos meses: “o que está preocupando é o princípio deste ano, como vai ser. Se vai surgir mais apoios, ou subsídios, se os layoffs continuam. Se continuarem claro que vamos aderir porque temos uma equipa muito grande de profissionais”.

Apesar de reconhecer que o cenário é negro para todos, Abel vai lançar-se numa nova aventura no mundo da restauração: no final do ano espera abrir uma marisqueira na zona do Porto dos Carneiros, na freguesia de Nossa Senhora do Rosário, que terá uma linha de bacalhau, um sonho antigo. “Nesta vida tem que se correr riscos. Se a gente não arriscar e não tiver estas ideias malucas a gente não consegue, tem de se ter uma certa doidice para se meter numa vida destas”, diz a rir.

O empresário, natural de Água de Pau, mantém-se, ainda assim, otimista, apesar de tudo. “Isto é uma luta, é tu acreditares que as pessoas vão aparecer e manter uma certa alegria”, conclui.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2021)

Categorias: Reportagem

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