“Tenho noivas que me dizem que vão casar, com padre ou sem padre, com convidados ou sem convidados”

Única loja de noivas da Lagoa não sente quebras. Vestidos de baixo custo são importados de vários países da Europa e já chegam a várias ilhas dos Açores

Raquel Andrade tem 32 anos e abriu a Vanity Fair Store na Atalhada em 2017 © DL

A contrariedade de um despedimento durante a segunda gravidez acabou por transformar a vida de Raquel Andrade, agora com 32 anos. “Estava a trabalhar há 15 dias, a empresa onde estava, aqui da Lagoa, descobriu que estava grávida e fui despedida”. Nessa altura, Raquel estava à procura do seu vestido de noiva em Ponta Delgada mas aquilo que encontrou não foi de encontro às suas expectativas. “Fiquei um pouco assustada com os valores que me pediram, mais de três mil euros por um vestido”, conta a empresária. Não perdeu tempo. Pegou no telefone e começou a fazer contactos. Falou com vários fornecedores e acabou por ter não um mas dois vestidos de casamento por mil euros, contas totais. No próprio dia começou a curiosidade sobre quanto tinha pago pelos dois vestidos. Depois de vários pedidos que teve, de pessoas conhecidas, o marido acabou por dar o empurrão que precisava para fazer chegar vestidos mais baratos a mais noivas. “No primeiro mês comprei quatro vestidos e nas primeiras três semanas já não tinha nada. Temos vestidos que vão desde os 100 euros até aos 700 euros”, explica. Raquel é natural dos Arrifes mas foi na Atalhada, em 2017, que abriu a Vanity Fair Store, a única loja de vestidos de noiva da Lagoa que também vende vestidos de cerimónia e roupa casual.

À primeira vista, e com tanta restrição e mudança que a pandemia trouxe, acaba por ser legítimo pensar que o setor dos casamentos não escapou às malhas da crise trazida pla covid-19 mas Raquel garante que, no que toca aos vestidos, felizmente, isso não aconteceu.

Até junho, 19 noivas vão casar com os vestidos que Raquel importa de Inglaterra, França, Polónia ou Alemanha. E até ao final do ano, tem “mais de 70 noivas para casar”. “O ano passado houve uma ligeira diminuição mas atualmente tenho noivas que me dizem que vão casar, com padre ou sem padre, com convidados ou sem convidados. As pessoas estão tão cansadas que não querem adiar mais”, garante a proprietária contando logo de seguida que tem noivas que já adiaram o casamento duas vezes.

“Tivemos noivas que ficaram dois ou três meses sem pagar”

Apesar de continuar a “vender bem”, Raquel sentiu os efeitos da pandemia sobretudo nos vestidos de cerimónia onde aí sim teve quebras a rondar os 60 por cento. O cancelamento de casamentos, batizados e comunhões acabou por afetar este segmento do seu negócio ainda para mais numa ilha onde o clima dificulta e muito a conservação de tecidos delicados. “Temos agora vestidos a 15 euros para escoarmos os modelos porque o nosso clima é muito complicado e estraga as peças facilmente. Meti 17 vestidos para o lixo por causa do bolor, começam a ficar amarelados”, lamenta a empresária.

Para além disso, conseguiu ver bem a dimensão dos efeitos da pandemia na vida dos açorianos quando começou a ter noivas a ligar e a perguntar se podiam adiar o pagamento da prestação. “Umas estiveram muito tempo em layoff, outras foram despedidas, tivemos noivas que ficaram dois ou três meses sem pagar. Felizmente como temos vários vestidos que foram logo pagos se uma ou outra não pagar conseguimos suportar”, destaca Raquel.

Saem vestidos de noiva da Atalhada para várias ilhas dos Açores

Para que pudesse funcionar normalmente, Raquel teve de fazer um investimento extra. Não podia impedir que as clientes experimentassem os vestidos — tratando-se de um dos elementos mais importantes de um casamento — nem se podia dar o luxo de ter de colocar os vestidos em “quarentena”. Para contornar isso, foi à procura de soluções e encontrou-a. “Fizemos um investimento e temos umas luzes próprias de esterilização para passar nos vestidos e matar as bactérias porque se não a pessoa só podia experimentar um ou dois vestidos e depois eles tinham de ficar de quarentena e isso para nós era impensável”, assegura. Com tecnologia de raios UV, passa o pequeno aparelho por cada um dos vestidos sempre que é alvo de prova.

Sobre as peripécias que soma ao longo dos últimos quatro anos, Raquel conta várias. Já teve uma noiva que demorou quatro horas para escolher um vestido e acabou por não levar nenhum. Depois, quando voltou atrás, o vestido já tinha sido vendido a outra pessoa e foi preciso encomendar outro. Mas também já teve uma noiva que em 15 minutos escolheu um vestido, experimentou e não quis experimentar mais nenhum. Confirma que há muitas noivas que se emocionam quando encontram o vestido certo e que por vezes, até ela própria tem dificuldade em não se emocionar também. “Encontra-se de tudo. Algumas são mais frias mas já tivemos noivas que também já trouxeram garrafas de champanhe para comemorar, já fizeram vídeo-chamada para a América, Canadá, Bermudas para pedir opiniões”, conta. E o rol de “assessores” da noiva também pode acrescentar mais problemas a uma decisão, que por si só, tende a ser difícil. “Normalmente vêm as mães, as madrinhas mas também as amigas. Já tive uma noiva que trouxe umas dez pessoas mais duas ou três crianças, já não tinha mais espaço para pôr ninguém”, assegura, explicando que muitas vezes há uma boa dose de indecisão em algumas noivas mas por vezes “as amigas e as madrinhas são piores que as mães. Já tive aqui noivas que saíram quase a chorar porque a opinião da mãe era oposta à delas mas amigas e as madrinhas são mais corisquinhas para opinar”, conta.

Da pequena loja da Rua direita da Atalhada já saíram vestidos para todos os concelhos de São Miguel e para várias ilhas dos Açores. “Acabamos de casar uma noiva na Terceira, temos uma para a Graciosa, uma moça que nos vai mandar as medidas do Faial. Desde que abrimos só não mandámos vestidos para as Flores, Corvo e São Jorge”, assegura a empresária. A maioria das noivas que não está em São Miguel trata de tudo através da internet, envia as medidas, faz o pagamento e recebe o vestido na sua ilha pelo correio. ”Tive uma moça que me disse que apesar de ter vindo cá a São Miguel comprar o vestido ainda lhe saiu mais barato do que se tivesse comprado nas lojas de lá”, garante.

Na verdade, Raquel nunca pensou fazer o que faz. Começou por tirar um curso profissional de design de moda mas não lhe deu seguimento porque era preciso ir para o continente. Mais tarde tentou ser educadora e tirou Educação Básica na Universidade dos Açores. Ficou-se pela licenciatura porque quando fez o estágio percebeu que não era bem aquilo que queria e nem valia a pena tentar o mestrado. Entretanto trabalhou em outras áreas mas foi no desemprego que encontrou a mola que precisava para arriscar e ir mais longe num negócio que, com gosto, ergue diariamente com a ajuda preciosa das redes sociais.

Sara Sousa Oliveira

Reportagem publicada na edição impressa de maio de 2021

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