“Tive casos de pessoas que ficaram sem falar ou que desmaiaram”

O novo Delegado de Saúde de Lagoa explica que desafios a pandemia trouxe à sua vida profissional mas também pessoal. Diz que o mais difícil é conciliar as duas esferas e anunciar aos próprios doentes com covid-19 a sua positividade

Magno Silva é médico de família na Lagoa há mais de 10 anos e ex-Delegado de Saúde da Povoação FOTO DL

Magno Silva, 39 anos, nasceu na Madeira mas conhece bem a Unidade de Saúde de Lagoa. É nela que segue centenas de utentes desde 2009 como médico de família, especialista em saúde pública. Geriu um dos pontos nevrálgicos da pandemia nos Açores, na ponta da ilha, como Delegado de Saúde da Povoação.
Em quatro meses conta que perdeu 10 quilos. Os filhos pensavam que estava de férias, fora de casa, porque não conseguiam ver o pai que, ora estava no aeroporto, ora estava no olho do furacão, na Povoação.
Numa conversa aberta com o Diário da Lagoa, no seu novo gabinete e com novas funções, conta na primeira pessoa como a pandemia afetou um profissional de saúde com responsabilidades em saúde pública que é também pai e marido.

DL: Como é que surgiu o convite para ser delegado de saúde de Lagoa?
Em pleno covid, em julho, eu recebo um telefonema da Secretária Regional de Saúde a dizer “olha a partir de agora és delegado de saúde de Lagoa” e eu “ok, está bem”. Como eu resido em Ponta Delgada e trabalho aqui na Lagoa não tinha como dizer que não sabendo que ia trabalhar na mesma área em termos técnicos.

DL: O que é que faz um delegado de saúde?
[risos] Faz muita coisa. Neste momento a função de um delegado de saúde é quase supervisionar a saúde pública de um concelho, desde a restauração, fábricas, escolas, tudo o que é serviço de público poderá ter alguma influência da delegação de saúde.

DL: Relativamente ao concelho, quais é que são os principais desafios?
Para já conhecer melhor o concelho em termos de saúde pública que eu não o conhecia. Agora em pleno covid, parece que não há tempo para o resto, mas esse tempo tem que existir, isso é altamente prioritário também.

DL: Considera que a pandemia veio piorar a prestação de cuidados de saúde primários às populações?
Naturalmente que sim. A proximidade dos utentes com o seu médico de família não foi a mesma como era antes da covid. As consultas aconteceram mas de uma forma muito diferente, em teleconsulta, o número de consultas presenciais reduziu imenso, estamos agora a tentar recuperar.

DL: O número de pessoas com problemas de saúde que agora recorrem aos centros de saúde aumentou?
Para já não posso dizer que aumentou, tenho é a perspetiva de que vai aumentar. Pontualmente, mais na patologia psiquiátrica as pessoas descompensaram um pouco e estão a aparecer na consulta, pessoas que nunca tinham manifestado um problema de ansiedade. O confinamento traz à tona os problemas que as pessoas tinham mais ou menos resolvidos.

DL: A pandemia está a afetar psicologicamente as pessoas saudáveis?
Sim e os profissionais de saúde também [risos], mas isso é uma longa história.

DL: Considera que a pandemia trouxe novas fragilidades ao serviço regional de saúde ou só acentuou as que já existiam?
Um pouco das duas. Se nós estamos a afirmar que trouxe fragilidades ao nosso sistema de saúde, acho que estamos a ser hipócritas. Eu acho que este foi um desafio tão grande para todas as pessoas, para a Secretaria Regional de Saúde, Direção Regional de Saúde, para os delegados de saúde, para os médicos de família, que ninguém estava preparado para isto. Naturalmente que notou-se algumas fragilidades, houve problemas de comunicação e falo muito em comunicação porque as ilhas têm um problema. A Terceira é longe, não é perto, pelo mais que a gente esteja duas horas ao telefone, não é a mesma coisa que estar presencialmente. Fazíamos algumas telereuniões, mas é muito diferente. E acho que ninguém soube ultrapassar essa barreira da comunicação com uma barreira de mar entre duas ilhas.

DL: Que gestão faz, da covid-19, enquanto delegado de saúde?
O delegado de saúde recebe de imediato um SMS no telefone com o nome completo e o número de telefone da pessoa. Após entrar em contacto com o infetado identifica mais ou menos o contexto em que está, recomendamos o isolamento e que faça uma retrospetiva de onde esteve nos últimos 14 dias.
Relativamente aos restantes contactos, o delegado de saúde tem o poder de entrar em contacto com eles e identificar quem é de alto risco, quem é de baixo risco, quem deve fazer isolamento e quem não deve fazer isolamento, quem fica em vigilância ativa ou quem fica em vigilância passiva. Depois o processo é entregue a uma equipa que está na Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel para fazer os contactos diários, a tal vigilância ativa.

DL: O que é foi mais difícil durante a pandemia?
Conjugar a vida profissional e pessoal foi o grande desafio. Eu era dos poucos delegados de saúde com três filhos bebés. Saia de casa às seis da manhã e chegava à meia noite, os meus filhos não me viam. Chegava às vezes à meia noite, não comia, perdi 10kg em quatro meses, foi uma pressão psicológica muito grande com muitos telefonemas pelo meio. Eu falava com 80 pessoas por dia ao telefone, tinha um computador e dois telemóveis enquanto era delegado de saúde da Povoação. A minha filha de seis anos teve ataques de pânico, o meu filho de quatro ou cinco anos dizia “oh pai quando estavas de férias tive saudades tuas”, e eu não estive de férias. Essa gestão foi muito complicada. Para além disso o mais difícil era pegar no telefone e dar a notícia da positividade a um infetado. As pessoas ou não acreditavam ou estávamos a ligar a dar uma sentença de morte. Tive casos de pessoas que ficaram sem falar ou que desmaiaram, gritaram… falei com muitos positivos, é muito difícil.

DL: Há falta de profissionais?
Há muita falta de profissionais de saúde ainda, muita, muita, muita. Posso-lhe dizer que em pleno estado de emergência necessitamos de 50 a 100 pessoas e agora poderemos necessitar das mesmas e não temos.

DL: Qual é a sua perspetiva para os próximos meses?
Acho que agora poderá ser o verdadeiro desafio da covid em São Miguel. Sabemos que temos um controle que não tínhamos antes dos testes no aeroporto, temos ainda o teste do sexto dia como uma mais valia do controle da pandemia. Acho que vai aumentar o frenesim com a chegada do inverno, pode haver um aumento mas não será muito problemático.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de novembro de 2020)

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