Um (bom) exemplo

Alexandre Pascoal
Gestor/Produtor Cultural

A baía de Santa Cruz é um espaço emblemático da freguesia e da cidade da Lagoa, o qual carece, há já algum tempo, de uma intervenção que o reabilite e devolva ao usufruto da comunidade. É com este propósito que a Câmara Municipal da Lagoa submeteu um projeto de requalificação desta zona balnear à apreciação do Governo Regional, o qual foi (justamente) considerado de interesse público. Este anúncio visa a valorizar um espaço subvalorizado mas cujo potencial é, por todos, reconhecido.

Importa sinalizar a necessidade de intervenção numa área natural, com enormes potencialidades em actividades ligadas ao mar, como o mergulho, o surf ou a canoagem (através, por exemplo, de uma extensão da acção desenvolvida pelo Clube Náutico).

Para além da componente balnear que amplia a oferta já existente, na cidade e no concelho, é de realçar a edificação de uma infraestrutura com reduzido impacto visual (e paisagístico) de apoio aos banhistas, a criação de solários, bem como, a construção de uma nova zona de lazer para desportos colectivos. Este intento revela a atenção crescente por iniciativas de sensibilização ambiental, pela utilização (e reutilização) de materiais endógenos, com vista ao desenvolvimento comunitário de actividades ao ar livre, quer de lazer e bem-estar físico.

Ao contrário de projectos imobiliários que densificariam uma zona ambiental (e urbana) sensível, a opção tomada denota cuidado pelas características sociais e históricas do lugar, historicamente ligado ao início do povoamento da ilha de São Miguel.

São múltiplos os factores que distinguem a freguesia de Santa Cruz, a começar pelas suas fortes raízes nas tradições populares, pelo casario em escadaria que ladeia a baía ou pelos particularismos do seu património arquitectónico. Em anos mais recentes, assistimos ao surgimento de múltiplos investimentos relacionados com projectos turísticos e de alojamento local, num processo de gentrificação, o qual tem contribuído para a valorização imobiliária e para a recuperação de património devoluto ou degradado.

Ao contrário do lado mais negativo associado a este tipo de intervenção, esta integração na paisagem (urbana) tem sido feita de forma pouco evasiva, respeitando a população local, fazendo confluir novos residentes, em saudável convivência e contribuindo, invariavelmente, para o rejuvenescimento populacional do concelho (em dados a comprovar nos Censos 2021).

A reabilitação da baía de Santa Cruz é um anseio antigo da população e deve servir de motivação (adicional) para a importância de reabilitar zonas nobres da malha urbana, como forma de melhorar a qualidade de vida de quem (já) aqui habita, assim como, aumentar a atratividade de novas gerações de residentes e de visitantes.

O crescimento populacional, a melhoria das condições de usofruto do espaço público, a existência de serviços públicos de qualidade, o reposicionamento da restauração como foco de atracção privilegiado, a par com a intensificação e notoriedade da oferta cultural (sem perder a sua matriz identitária e ligação entre tradição e a modernidade), constituem desafios com que a Lagoa terá de se confrontar, por forma a solidificar o caminho (de futuro) que tem vindo a trilhar.

Este projecto constitui (apenas) um exemplo daquilo que de bom tem vindo a ser realizado.

Por opção, o autor escreve segundo a antiga grafia.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de junho de 2021

Categorias: Opinião

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