Um “garimpeiro” Pauense na Corrida ao Ouro da Califórnia

“(…) tenho orgulho e “proa” naquilo que aprendi de grandes homens prezados com quem me sentei a ouvi-los falar sobre a história da Vila de Água de Pau”

Roberto Medeiros

Para se falar sobre Água de Pau, não bastam as bases históricas que vêm nos livros de Gaspar Frutuoso, “Saudades da Terra” ou no livro “A Vila da Lagoa e o seu concelho” numa recolha do Padre João José Tavares com edição melhorada e coordenada pelo professor Dr. Francisco Carreiro da Costa e publicada pela Câmara Municipal da Lagoa.

Um dia explicarei melhor porque afirmo isso. No entanto, deixarei aqui algumas notas de como, ao longo dos anos, fui adquirindo e consolidando os meus apontamentos de recolha e pesquisa para publicar ainda um livro sobre a história da minha Vila de Água de Pau.

Se ainda o não publiquei foi porque ainda continuo a juntar mais informação junto de quem nasceu e viveu antes de mim e cujas gerações acumularam e passaram testemunhos históricos sobre a terra e o seu povo e, que eu fui ouvindo, retendo e gravando, quer na memória quer no papel ao longo dos meus anos de vida desde a minha infância até hoje.

Nos serões de família, com os primos e amigos de meu pai e, com os dois ilustres professores João Ferreira da Silva e Luciano da Mota Vieira, ligados por raízes familiares e pela escrita à minha Vila de Água de Pau, de quem eram acérrimos amantes e defensores, aprendi e reforcei minhas convicções e amor pela história e importância desta Vila.
Os dois fizeram parte da lista dos “conhecedores” que consultei ao longo da minha vida para reunir elementos históricos e fotos do passado para todo o meu conhecimento empírico, etnográfico, metafórico, sociocultural, geofísico e outros.

Graças a meu pai, Manuel Egídio de Medeiros, e a outros que enuncio a seguir, como as minhas fontes mais antigas e recentes, tenho orgulho e “proa” naquilo que aprendi com estes grandes homens prezados com quem me sentei a ouvi-los falar sobre a Vila de Água de Pau. E cito-os; Quintiliano Augusto Vieira, António Inácio Vieira, Dona Lurdes Lima Vieira e irmã Letícia Vieira, Manuel Pedro de Sousa, Evaristo Amaral de Sousa, Rodolfo Pamplona Ferreira (faleceu com 85 anos em Rio de Janeiro), Maria da Costa (Austrália), Antero Pacheco Amaral, João de Matos Costa, Augusto Pacheco Agostinho (Pacheco-da-Preta), António de Amaral(até aos 99 anos em New Bedford), todos já falecidos e ainda os/as pauenses em contacto privilegiado comigo, portanto, vivos; Dona Amélia Nabinha com 108 anos em New Bedford), Tobias Teixeira (com 98 anos no Brasil), George Silva e irmã Ana Silva Male (ambos octogenários, na Austrália), Manuel Machado (EUA), Alfredo Soares e outros de idade também avançada mas que a memória ainda não lhes falta.

Meu pai guardava todos os recortes de artigos dos jornais escritos pelo professor João Ferreira da Silva e eu relia-os e depois recortei eu os do professor Luciano da Mota Vieira que eu adorava ouvir falar da nossa vila e das gentes ilustres do nosso povo. Jamais esquecerei o que disse o professor Luciano da M. Vieira antes de meu pai baixar à cova no cemitério em 1982. Debaixo de uma chuvinha miúda, na hora, ninguém arredou pé enquanto o professor fez questão de proferir uma despedida a meu pai, fazendo-lhe uma distinta homenagem enquadrando-o na história da Vila de Água de Pau, que eloquentemente narrou resumidamente aos presentes.

A Vila de Água de Pau tem tanto de curiosidade como de eloquente e sua história é cheia de factos indeléveis com gente que, saindo dela, na cata da sua ventura, emigrando ou em missão régia ou da república deixou sempre para a sua terra méritos e pergaminhos que não os querendo para si, ofereceu-os à sua igreja ou à sua “quirida” terra natal.

Não me é difícil falar de vários personagens que saíram da sua vila de Água de Pau para várias partes do mundo onde conseguiram vencer e conseguir um estatuto social e riqueza. Falarei então dum pauense que obtendo esse estatuto nos Estados Unidos da América, país rico e de futuro, preferiu regressar à sua terra e nela viver e desfrutar do seu sucesso, melhorando a forma de viver com maior qualidade de vida para a sua família, na vila de Água de Pau.

O sonho dourado…

© D.R.
© D.R.

O nome Califórnia, nos EUA, ficou relacionado permanentemente à Corrida do Ouro desde meados do século XIX. A febre do ouro catapultou a Califórnia para o centro da imaginação global, convertendo-a no destino de centenas de milhares de pessoas, de novos começos e grandes oportunidades, de onde o duro trabalho e um pouco de sorte podiam ser recompensados com enormes riquezas. Estima-se que milhares de pessoas do mundo todo correram para a Califórnia e tiraram de suas entranhas toneladas de minério (em dinheiro de hoje, algo como biliões de dólares). Embora biliões de dólares em ouro fossem extraídos, poucos mineradores ficaram ricos. O ouro que brotava na Califórnia era generoso. Nos primeiros meses depois da descoberta, era possível recolher as pepitas diretamente do solo. Bastava agachar e pegar. O metal precioso era encontrado em leitos de rios e em ravinas aos borbotões.

Na última década do século XIX, um grupo de futuros “garimpeiros” chegaram a New York num navio oriundo de Amesterdão, com escala em Lisboa, porto onde João de Matos Albino, ainda jovem, e começou a sua aventura, as viagens por terra, as preferidas de quem vinha do leste dos EUA, demoravam meses – não existiam ainda boas estradas e ferrovias. A distância entre Nova York e São Francisco era de 4,1 mil km. Gente que preferia deixar a família e partir sozinho, como João de Matos Albino, foi de navio. Ele embarcou com destino ao Panamá, fez o trajeto com o resto do grupo europeu por terra – o canal só seria inaugurado no século seguinte – e embarcou em outro barco no Pacífico. A viagem demorou um mês.

A sua história na Califórnia é igual a de tantos que para ali foram em busca do metal precioso que lhe retiraria alguns anos de juventude e convívio familiar, mas que valeu a pena. Nisso mesmo vinha pensando o pauense João de Matos Albino a bordo do seu camarote, na viagem de regresso com escala em Lisboa e depois à ilha de S. Miguel nos Açores, passados que foram, os primeiros dez anos do século XX.

Deixaria de subir a ladeira do “Salto-do-Bode” para a sua antiga casa pois adquirira duas casas interligadas entre a esquina do Santiago com a rua do Boqueirão e a esquina da rua do Outeiro. Recuperou-as, mas na que tinha a frente principal virada para o Santiago mandou construir uma grande e vistosa varanda, a maior de todas nas casas da rua do Santiago.

Por baixo dela, estacionou o seu carro novo, demonstrando de forma elucidativa, o duplo poder económico, então alcançado.

Casa de João Matos Albino no Salto-do-Bode” em Água de Pau © D.R.
Casa nova de João M. Albino na rua do Santiago em Água de Pau © D.R.

Por altura das festas de 15 de agosto da sua padroeira Nª Sª dos Anjos a varanda enchia-se de familiares à sua volta e sua esposa Augusta Tavares, para verem passar a Procissão… e poder assim serem vistos também por todos, exibindo seus vestígios de sucesso e riqueza. De forma sucinta e resumida conta-se assim em poucas palavras a história do “garimpeiro” da Vila de Água de Pau na Califórnia.

Crónica publicada na edição impressa de agosto de 2021

Categorias: Opinião

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