Um inverno agreste e pescadores em terra. “Como é que um homem vai sustentar uma casa?”

A pandemia da covid-19 não afeta a pesca, mas os pescadores do Porto dos Carneiros queixam-se do mau tempo, que os impossibilita de sair para o mar. E quando saem, o retorno é pouco

João Costa (à esq.) e Joseph Perry (à dir.) são pescadores no Porto dos Carneiros / FOTO RUI PEDRO PAIVA

Naquele início de tarde não parecia inverno. O sol aberto reluzia e fazia brilhar o azul do mar, dando tréguas às chuvas intensas dos dias passados. Apesar do tempo quente, o mar mostrava que não era rio e corria agitado lembrando que, afinal, ainda é Inverno. Lá ao longe avista-se o Alegria de Deus, balbuciando no meio das ondas. As riscas amarelas e vermelhas tornam-se cada vez mais nítidas. Ao ritmo do mar, o barco vem afunilando caminho até chegar ao Porto dos Carneiros, na Lagoa.

Já em terra, surge o desabafo: “não há peixe, eu além de ter ficado dois meses sem ganhar nada, porque há dois meses que não vou ao mar, aproveitei agora a brechazinha para ir, mas nem dez quilos de peixe apanhei”, atira João Costa ao Diário da Lagoa, o pescador que saiu para o mar no Alegria de Deus. Estava a chegar a terra depois de 12 horas no mar. Eram três da manhã quando saiu.

O mau tempo que se tem feito sentir em São Miguel tem impedido João Costa – e tantos outros pescadores – de ir para o mar. “É só por causa do mau tempo”, ressalva, porque a “pandemia não mexeu com isso”. “Dois meses depois” da última ida, o pescador foi, mas a pescaria não compensou. “Antes de irmos para o mar, levamos dois dias a preparar isso tudo, é esticar, meter nas caixinhas e pôr a isca. Depois temos mais um dia para ir ao mar. São três dias. E no final chegamos lá e não apanhamos nada”, explica João Costa, enquanto aponta para um extenso rolo de anzóis, escasso em peixes.

O dia está agitado no Porto dos Carneiros. O bom tempo permitiu a muitos pescadores voltarem ao mar. Cheira a salmoura e a peixe fresco. Há barcos a chegar, há paletes de peixes a serem acartadas e há anzóis a serem construídos. Fazem-se contas à vida, uma vida que não está fácil. “Como é que um homem vai sustentar uma casa?”, questiona João Costa, quando é interrompido por um outro pescador que, apesar de estar a sair do porto numa carrinha, ainda quis contribuir para a reportagem do Diário da Lagoa: “diz aí que o governo está a apoiar é o turista não é o pescador”.

Paulo Martins diz que, este ano, só foi duas vezes ao mar / FOTO RUI PEDRO PAIVA

Opiniões políticas à parte, João Costa, que já é pescador “há tantos anos” que até já “perdeu a conta”, diz que o inverno deste ano é o mais agreste dos últimos anos – e não há apoios públicos que o compensem. “Pelo menos há cinco anos que não apanha um inverno como esse, não ganhamos nada e os apoios que há não são suficientes”.

“Vocês deviam vir aqui é quando está mau tempo”, ouve-se do outro lado vindo de Paulo Martins, outro pescador, que acabou de chegar do mar, referindo-se aos jornalistas que só aparecem quando o sol brilha. O que importa é que apareçam, responde-se. Escuta-se, então, as lamúrias dos dias penosos que têm passado a custo: “isso tem estado muito mau, faz quinze dias que não fomos ao mar, aliás este ano só fomos duas vezes ao mar”.
Não é novidade: as condicionantes atmosféricas fizeram desde sempre parte da vida do pescador. Uma vida difícil, arriscada e onde nunca se sabe que proveito trará. Mas ao longo dos últimos anos parece que se tem formado uma constante transversal ao setor, relacionado com a escassez do mar. “Nós vamos ao mar e só conseguimos pescar é coisa para o dia. Não é para a semana, é para o dia”, vinca.

Vale a pena passar tanto tempo no mar para pescar uma “ninharia?” A pergunta torna-se retórica quando a resposta demonstra que parece não haver alternativa: “e o que é que a gente faz? A gente vai ficar à espera de que o governo nos dê dinheiro sem trabalhar?”, interroga também Paulo Martins.

Com ventos fortes, chuva intensa e a agitação marítima, as condições não tem sido fáceis para os pescadores. Por isso, “é preciso aproveitar” todas as oportunidades para ir para o mar. “Se está bom tempo, se o mar permite, a gente tem é de ir para o mar. Às vezes só para ver se dá para compensar a despesa”. E, adverte o pescador, os próximos tempos não serão melhores, uma vez que “já estão a anunciar mais uns dias de mau tempo”. “O pescador é como a formiga: poupa quando ganha para gastar quando não tem”.

“As condicionantes” de uma vida difícil

Longe vão os tempos em que a pesca “dava dinheiro fácil”, apesar do trabalho exigido. Joseph Perry, de 59 anos, lembra-se bem desses tempos: “eu fazia muito mais dinheiro há uns anos atrás, ia para o mar durante uma semana e de repente ganhava o que agora só consigo ganhar em dois meses”. Joseph é responsável por uma embarcação com dois homens e naquele dia, já com o mês de fevereiro a caminhar para o fim, saiu ao mar pela terceira vez este ano.

“Vê a minha pescaria”, diz, mostrando que o resultado de 12 horas no mar foi uma humilde caixinha com imperadores encarnados. Isto porque, mesmo quando o tempo permite a saída, nem sempre estão reunidas as condições para conseguir tirar os proveitos. “O mar estava inchado. O tempo está bom, mas o mar não está calmo”, salienta, referindo que o tempo em terra nem sempre é o mesmo no mar: “bem bom que ainda conseguimos sair, mas o mar é ruim, nós não conseguimos pôr o barco onde queremos. Isso tem sempre muitas condicionantes”.

É uma vida difícil e precária a de pescador, que se tem tornado mais dura a cada ano que passa. Para a suportar, só mesmo com “esforço”, porque é preciso muito “jogo de cintura” para gerir as finanças face à impressibilidade da vida no mar. “Só há uma maneira de conseguir aguentar e é poupar com os meses que se ganha”.

Pelos anos de vida, Joseph diz que já viu “muita coisa” e por isso critica quem toma medidas sobre o ofício sem alguma vez ter pegado num anzol: “Isso está mal, muito mal e está cada vez pior. Tem muita a gente a fazer regras que não percebe nada da pesca”, defende.

Carregando a caixa plástica azul com os imperadores, Joseph subiu o porto e foi levar o pescado à lota. Depois, voltou e sentou-se num velho banco de madeira no seu posto do costume. Começou então a desfiar as redes de pescas e a preparar o anzol com a delicadeza de quem cria artesanato. E ali ficou, sentado, a preparar a próxima saída, porque amanhã há mais, assim o tempo o permita. “Nestes últimos tempos, essa é a fase mais difícil que eu me lembro de ter apanhado, mas a gente não pode parar”.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de março de 2021)

Categorias: Reportagem

Deixe o seu comentário