Um viajante no tempo, da Vila de Água de Pau

Roberto Medeiros

Antigamente, “Graças a Nosso Senhor” eles juntavam-se! Não invoquemos o nome de Nosso Senhor em vão! A Vila de Água de Pau deve muito a Deus Nosso Senhor. O que vale é que Deus não espera muito de nós. Já sabe do que a casa gasta. E gosta!

Por uma questão de tradição e comodidade, na Praça Velha e na Praça Nova da Vila de Água de Pau o povo desta terra convivia muito. Há muito anos, há menos tempo e há nem tantos anos assim, pois ainda me lembro. Os “Pontos de Encontro” ao domingo de tarde, nas “Praças” desta Vila, os mais velhos e os menos velhos e até os mais jovens juntavam-se, invariavelmente sentados nos bancos ou andando por ali. Ao contrário de hoje, que se encostam às paredes, para não deixar cair as casas da praça.

Na Praça Velha e 1965

Idosos numa tarde domingueira num banco da Praça Velha ou da República em Água de Pau / CORTESIA RM

Quando me debruço e contemplo e vejo os mais idosos sentados num banco, na Praça Velha, ou da República, se assim quiserem, apetece-me perguntar, embora saiba, que não terei resposta:
– “Boa tarde meus senhores, a conversa está boa? O senhor Braga está a contar-vos que cada dia que passa o Manuel de Sousa, sinaleiro na matriz, vê-se mais aflito, com tanto carro na cidade, cada dia que passa, não é?!….”
Claro que não tenho resposta, infelizmente já cá não estão, mas adivinho que a resposta de um deles seria assim:
– Sim, é um “poder de Nosso Senhor” que vai por esse mundo louco e a gente aqui, em paz, na nossa Praça!…”.

Na Praça Nova

Jovens numa tarde domingueira num banco da Praça Nova em Água de Pau / CORTESIA RM

Quem olhar bem para a outra, denota bem a diferença, na idade das pessoas e na evolução do espaço, desenhado e construído como outro “Ponto de Encontro”. Os mais novos aderem sempre aos lugares que vêm nascer e ganhar estatuto de modernice. Sempre foi assim, e, esse não fugiu à regra. De resto, o senhor Victor Floriano Borges, (um dos proprietários da antiga Casa da Estrela, hoje Casa da Junta de Freguesia) desenhou muito bem este espaço lúdico, logo após a pavimentação da estrada regional que atravessa a vila de Água de Pau com empedrado ou calçada de basalto, no início da segunda metade do século XX.

Debruço-me de novo sobre a foto destes jovens, sentados na Praça Nova e não se pode dizer que é “Graças a Nosso Senhor” que eles se juntaram e acotovelaram-se para ficarem todos no mesmo banco?!!… Não, não é isso. Juntaram-se para a fotografia, apenas, numa manifestação de amizade irreverente da juventude daquele tempo! Um fotógrafo e uma máquina fotográfica era uma novidade na altura! Não invoquemos o nome de Nosso Senhor em vão!

A Vila de Água de Pau deve muito a Deus Nosso Senhor. O que vale é que Deus não espera muito de nós. Já sabe do que a casa gasta. E gosta!
Sou um pauense que revive estes tempos, como se neles vivesse, e vivi!
Porque as pessoas decidiram emigrar em massa na década de 1960? Havia problemas? Depois de emigrar, deixaram os problemas para os que cá ficaram?

Nesse tempo, que eu também vivi, como observador, recordo, do agricultor, de madrugada na sua égua a caminho da sua terra, no Paról, subindo o “Caminho Novo”. O camponês no regressa a casa, no fim dum dia de trabalho, transportando uma cesta de vimes e um garrafão empalhado em vime, tudo executado pelos cesteiros da Vila de Água de Pau. As casas de pedra, com cobertura em palha, nas Escaninhas, no Pico, na rua dos Ferreiros e na Vila Nova, casas velhas com os moradores à porta! Pela mão de meu pai, subia à nossa terra no matinho, dos Lourinhos e a sua panorâmica confirmava como eram antigamente trabalhadas as terras, quase até ao cume da Serra de Água de Pau.

Foi neste tempo (anos 60s) em que se dava tempo-ao-tempo e em que eu também vivi, nesses tempos, dizia eu, em que a emigração foi um caso muito sério. De um dia para o outro, alguns bancos da escola ficaram vazios, porque o José, o Viriato, o ningrinhas, o caga-na-lata, o José Luis «estica» o Zé Bi-bi, o Zé Fernando «pape-lá-isso» o Carlins Rolha, o Antonino «aperta-peidos» a Gorete «boneca-de-massa» e outros, “embarcaram” para a América e Canadá e deixei de os ver.

No entanto, muito mais tarde, já eu era rapaz, (anos 70) viemos alguns, a nos reencontrar quando regressavam a Água de Pau, para as Festas de Nª Sª dos Anjos, já como “calafãos”, como se costumava dizer.
Traziam “dolas-patacado” (com fartura) na algibeira e era um tal a pagar bebidas na taberna do senhor Guilherme D’Arruda, na Praça. Era uma folia. Nesse tempo, ainda um dollar valia 27$50 e uma cerveja custava 2$50. Imaginem, numa rodada e com uma “dóla” o «Caga-na-Lata» pagava cervejolas, de uma virada só, a onze pessoas! Tantas quantas havia na taberna.

Era tão fácil ao emigrante, fazer-se de rico, naquela altura. Com o regresso, de visita à terra, de alguns emigrantes, cheios de patacão na algibeira, conviveu-se com isso ainda alguns anos. Eu não ligava a esses “riquismos”, pois sempre gostava de os ver voltar à nossa terra e reviver nossas histórias e amizades de criança. A gente era mesmo amiga um do outro, naquele tempo. O resto e as críticas, ficam para os que sofrem daquela doença que dá entre o braço e o antebraço (dor-de-cotovelo).

Os problemas dos portugueses eram tantos que começavam logo no nome. Não admira que Portugal se achou sempre numa crise de identidade. Em que outro país é que a pergunta mais simples que há («Como é que se chama?») é quase impossível de responder? Se fosse em Água de Pau se diria “Como te chómas?». Pelas formas de tratamento se compreende que nenhum português é igual a si próprio. Cada um é uma multidão, com uma lista telefónica própria, cheia de nomes diferentes.

Imagine-se só quando chegavam os emigrantes dos Açores (por exemplo) aos Serviços de Imigração nos Estados Unidos e perguntavam-lhes:
– «Como é que se chama?». Vinha a resposta, «Maria dos Anjos de Jesus Pereira». Os americanos faziam a tradução e comentavam: “«Oh Maria não se amanha com pouca coisa, anda com os Anjos e com Jesus mesmo quando vai às Peras. Teu nome passa a ser neste país, Mary Perry», (ou seja, Maria Pereira, mas sem peras), comentavam, e acrescentavam, «O teu nome agora é mais fácil de dizer e de escrever, neste país. Está a ver como é privilegiada?»”.

Desculpem, mas hoje fico por aqui. Não por que me aborreci, mas para não o/a aborrecer, a ler as coisas que me vêm de vez em quando, à minha cabeça. Sou um viajante no Tempo, da Vila de Água de Pau.

|Nasci e cresci no tempo em que havia tempo, para ter tempo e dar tempo ao tempo|

Voltando ao século XXI, à minha ilha de S. Miguel, diria que agora, nos tempos que correm, em Portugal, o pobre de classe rica é igualzinho ao rico, só que não tem dinheiro. É a nova classe.

(Crónica publicada na edição impressa de fevereiro de 2021)

Categorias: Opinião

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